Questões de Classe

Por Bruno Rodrigues

 
Diferente da professora Chauí, não odeio a classe média. Não quero que o que eu fale aqui seja entendido como uma declaração de guerra. Não vejo problema em a classe média ter voz – o problema, para mim, é a tentativa do monopólio. Assim, podemos começar. Odeio, sim, como ela, as ideias fascistas de certo grupo da elite paulista, mas odiar toda uma classe tão díspar requer muito esforço – e, convenhamos, existem coisas bem piores nesta vida para as quais posso direcionar meu ódio. Não posso esconder, entretanto, que nutro pouco carinho por ela, principalmente pela sua postura megalomaníaca de achar que é “peça central do mundo, inclusive o da literatura”, como afirmou, um tempo atrás, na Zero Hora, Luís Augusto Fischer (até agora tenho dúvidas se essa frase é de uma ironia muita fina que não consegui compreender ou não – caso seja uma declaração sincera, seria bom, aliás, avisar ao professor que possuir uma posição central é cada vez menos relevante). Esse pouco amor, porém, nem é tanto por motivos políticos, mas por razões pessoais. Sempre vivi em estado emergente (a classe C atual é uma construção que vem de, pelo menos, duas décadas atrás), espremido entre riqueza inacessível e pobreza próxima. A consciência possível dentro da classe C é a possibilidade de ver que descender de uma linhagem realmente pobre num canto provinciano da América Latina é ter uma complexa história de exploração e humilhação gravada no espírito. Infelizmente, para os meus antepassados, a classe média e suas formulações anteriores (as quais, devo esclarecer, não resultaram diretamente nela – são os “homens livres”, os médios fazendeiros, os profissionais liberais) quase sempre cumpriram um papel tão nefasto quanto o da elite econômica, no que tange o abuso público em prol do desenvolvimento privado, numa história que é sempre posta de lado em relação ao discurso oficial. A violência das relações entre classes sempre existe, mesmo quando sutil. O quarto da empregada é tão violador, para a nossa situação social, quanto o lucro desmedido do grande empresário. Me incomoda um bocado o papo de que os trabalhadores devem muitas de suas conquistas aos membros da classe média. Ela precisa se colocar em seu lugar. A verdade é que os pobres sempre se viraram, apesar da certeza da falha inerente no processo de capitalismo periférico que vivemos. As grandes greves do início do século passado (nas quais, reza a lenda familiar, tive um tio-avô fuzilado) e as mobilizações sociais pela busca de direitos partiram de classes baixas. Os primeiros a sofrer tortura durante a última ditadura militar foram os operários e os sindicalistas, já, como mostrou a Comissão da Verdade, em 1964, enquanto a ala mais obtusa da classe média participava das Marchas da Família com Deus pela Liberdade. O incômodo me fez querer entender os motivos que levam esse grupo de pessoas a agir e a pensar dessa maneira.
A classe média, no Brasil, recebe sua formação “moderna” a partir do pós-guerra e se estabiliza nos anos 60. O fim do Estado Novo, o desenvolvimentismo, a abertura do mercado e o início da cultura de consumo em massa são pontos cruciais para unir, dentro de uma classe, um conjunto muito dessemelhante de pessoas, o qual logo ganha consciência de sua posição. (Esse processo já foi descrito em um romance, um romance genial, aliás: Armadilha Para Lamartine, de Carlos & Carlos Sussekind). Ela, não nego, é fruto de trabalho e de investimento de, em grande parte, imigrantes que chegaram aqui já com algum capital – mas, como não poderia deixar de ser, deve suas conquistas e seus privilégios atuais também ao uso de mão de obra das classes historicamente menos favorecidas, como falei antes. Para o governo federal, hoje, faz parte da classe média tradicional todos aqueles que possuem renda mensal entre R$ 7,475,00 e R$ 50,000,00, o que corresponde a 11,2% da população nacional, segundo dados do Ipea. Claro que a questão não é tão simples, já que isso se refere, na verdade, ao estrato social. O modo de vida, a história familiar pregressa, os guetos geográficos e culturais e a ideologia conducente são bem mais importantes do que o simples valor do salário. Nota brutal: ter dinheiro não é o suficiente. Existe, portanto, uma certa dificuldade em determinar quem é e quem não é pertencente. Temos, na verdade, muitas classes médias. Em cada estado, ela se comporta de uma maneira diferente – se sente mais acossada ou menos, é mais conservadora ou não. Dito isso, é fato, para complicar ainda mais, que dentro da classe há uma divisão política entre esquerda e direita, libertários e conservadores, o que deixa ainda mais difícil sua homogeneidade (mas o conceito de homogeneidade, dentro de classe social, também é sempre discutível) – divisão que se acentuou após os anos 80. Até certo período dos anos 70, como Roberto Schwarz mostra em Cultura e política, 1964-1969, a esquerda era predominante no cenário cultural do país. A mudança de direção talvez seja fruto do medo de perder seu espaço, num processo que se iniciou na redemocratização e avançou no governo pós-neoliberal. Creio, dadas todas essas informações, que o que liga a classe média tradicional, o que a torna consistente, é o seu desejo de ocupar o discurso, sua vontade de ser quase a única voz. O medo e a vontade de continuar no mesmo lugar, leia-se. Tanto o companheiro que vota no PSDB, como aquele que vota no PT ou o outro que vota no PSOL costumam acreditar que a sua classe é o centro da vida no país. Acham que ela merece os privilégios que tem. Não acham estranho que as prefeituras dediquem partes substanciosas dos orçamentos das cidades para os bairros de classe média, enquanto as periferias sofrem com falta de serviços básicos, como saneamento e rede elétrica decente. Não acham estranho que a maioria dos escritores e artistas sejam de classe média. Mas, sim, tudo é muito estranho.
Digo de novo que é uma forma de defesa. Stuat Hall possui um artigo chamado Signification, Representation, Ideology: Althusser and the Post-Struturalist Debates, no qual ele tenta compreender a evolução da ideia de ideologia depois da complexificação imposta por Althusser. Hall leva a discussão para o nível linguístico e a sua conclusão é que a linguagem tem papel fundamental na manutenção a ideologia de determinada classe, estabelecendo limites “para que uma sociedade-em-dominância possa se reproduzir de forma fácil, tranquila e funcional”. A classe média, portanto, precisa dominar o discurso para manter sua posição diante as outras. A professora Chauí defende que ela age assim por possuir pouco capital material e, por consequência, poucas formas concretas de resguardar seu status. Jessé Souza, um dos sociólogos mais importantes dentro dessa discussão, aprofunda mais essa ideia, dizendo que a classe média domina o capital cultural do país e impede que as classes mais pobres tenham acesso a ele, pois a relação social violenta, da qual falei acima, impera. Eu vivi, por toda minha vida, essa situação. Porto Alegre é uma cidade dominada por uma burguesia muito antiga, proveniente do século XIX – conservadora, dinástica, inculta (ler Stendhal nunca enriqueceu ninguém). Essa burguesia, por exemplo, tem os principais meios de comunicação da cidade. Ela costuma defender seus interesses por essas mídias, mas os colunistas e os jornalistas que escrevem nos jornais e se pronunciam na TV são todos de classe média. Eles possuem diferentes posições políticas, o que dá a ideia de muitas vozes – mas, no fundo, há apenas uma. Há certo conluio. A dominância do discurso não é teoria, é uma questão prática e cotidiana, a qual se torna ainda mais tenebrosa quando vista pelo lado da arte.
A classe média pegou, de certa forma, o bonde andando. Um exemplo clássico: um tempo antes, a política cultural imposta por Getúlio Vargas já possuía um certo nível de elitismo na sua proposta de unificação nacional – o samba e as expressões populares, como o carnaval, estavam se transformando para agradar aos mais ricos. Depois da ascensão da classe, esse processo se intensificou, resultando, por exemplo, na Bossa Nova. Uma antropofagia interna. Cooptar o popular e o levar para o médio. Até mesmo as tentativas de “manter o espírito do povo”, como no show Opinião, pendiam para a absorvição. O desenvolvimento mais alto foi o Tropicalismo, movimento altamente intelectualizado, pura classe média. Nos domínio da literatura, a situação é um pouco mais complicada. A maioria dos escritores brasileiros quase nunca pertenceu a nenhum extremo social – a única exceção notável que consigo pensar no momento é Oswald de Andrade, um autor que veio da elite cafeeira. A partir da estabilização da classe média, nos anos 60, o quadro se agrava. Não basta ter grande parte dos escritores, é preciso também tomar o cânone. Não sei até que ponto os ensaios, dessa época, de Candido e Schwarz não são influenciados pelo contexto social e histórico dos críticos – o fato é que eles colocaram Manuel Antônio de Almeida e Machado de Assis, dois escritores que possuem obras caras à classe média e que antes não eram reconhecidos nessa grandeza, no centro do cânone nacional. Tirando Lima Barreto, temos pouquíssimos outros escritores pobres (para não falar em negros, mas isso é outra complicação). Por que não há o reconhecimento crítico de Antonio Fraga ou Samuel Rawet? (E é bem possível que tu nem tenha ouvido falar neles!). Atualmente, vivemos sob domínio de escritores da classe média. Para dados concretos e tudo mais, recomendo pesquisar sobre o trabalho de quinze anos da professora Regina Dalcastagnè, da UNB. São números que causam desconforto. Os poucos que conseguem algum espaço e que são de outra classe social, como Paulo Lins ou Ferréz, sofrem por falta de reconhecimento fora da academia. (Até mesmo os muitos romances de Luiz Ruffato sobre a formação da classe trabalhadora no Brasil me parecem meio ignorados, mas posso estar errado). É difícil ser pobre e escrever. O cenário estabilizado vê o escritor pobre como uma ameaça, principalmente se ele se recusar a falar sobre favela ou sertão. Imagino como seria recebido um romance de autor de classe C falando sobre a classe média, sem fazer crítica de costumes ou outro caminho simplista. Creio que o único modo de acabar com o domínio ideológico e discursivo da classe média seja por meio de produção literária de qualidade. Entenda que não sou contra os autores da classe média e não os culpo, mas sou contra a dominância total deles no cenário local. Isso não acontece, por exemplo, na Argentina. Há grandes autores reconhecidos que vieram de fora das classes mais altas, como Roberto Arlt. Desestabilizar o discurso é necessário – me parece claro que, depois deste junho, o sistema no qual poucos podem falar está sendo colocado em cheque. A intelectualidade da classe C está surgindo. Não desejo, porém, que só minha classe tenha voz. As classes mais baixas sempre provaram seu profundo senso estético – não é por acaso que o funk carioca, quase sempre mal visto e ridicularizado pelos mais ricos, é o movimento cultural mais importante dos últimos trinta anos no país. As questões de classe vão mudar – recomendo que a classe média abra espaço.