Brasil, um refúgio

refugiados1Entro na casa dos desconhecidos como uma visita aguardada. Natália busca uma garrafa de Pepsi para oferecer. Efren pede desculpas, mas precisa terminar de consertar a cadeirinha do pequeno Nicolay. O tímido Aldair sai do quarto, jovem que chegou há apenas dois dias. Não é um sábado normal para a família de refugiados colombianos radicados em Sapiranga.

O eloquente Efren já começa a contar sua história, acostumado a falar e fazer rir. Nicolay permanece por perto, brincando com seu caminhão de plástico, lançando beijos e piscadelas a pedido do pai. A pequena casa amarela, de dois quartos e uma sala-cozinha, tem vida. Ainda assim, o relato exposto de forma tão aberta e simpática não é nada colorido.

Na Convenção de Genebra de 1951 foi estabelecido que refugiado é aquela pessoa que está fora de seu país natal devido a temores de perseguição relacionados a raça, religião, nacionalidade, grupo social ou opinião política. As Organizações das Nações Unidas também consideram refugiadas as pessoas que foram obrigadas a deixar seu país devido a conflitos armados, violência generalizada e violação massiva dos direitos humanos. A proteção das pessoas que por qualquer um desses motivos forem obrigadas a abandonar a vida construída até então está sob o comando do ACNUR – Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados. Fundado em 1950, o ACNUR trabalha em colaboração com governos e entidades da sociedade civil para garantir o resguardo e as condições básicas necessárias para o desenvolvimento dessas populações desamparadas.

O Brasil foi o primeiro país do Cone Sul a se comprometer com a  Convenção relativa ao Estatuto dos Refugiados de 1951. Atualmente o país tem a legislação mais avançada sobre o tema na região e abriga cerca de 4.600 refugiados. Dado o histórico livre de grandes conflitos armados, guerras ou desastres naturais, pessoas de mais de 70 países encontraram no país de proporções continentais um novo porto seguro.

Efren Andrade Arellano é um desses tantos nomes estrangeiros que por aqui buscaram a tranquilidade para recomeçar a vida. Veio para o Rio Grande do Sul em 2010 com sua esposa Yulieth Natalia Higuita, e seu filho depois de fugir do intenso Valle del Cauca, na Colômbia, para o Equador e entrar no programa de reassentamento. A Colômbia é hoje um dos principais pontos de fuga e o país com maior número de refugiados internos nas Américas. Muitas famílias atravessam a fronteira procurando no Equador o abrigo necessário.

– Tínhamos que sair porque eles queriam nos matar. Fomos parar no Equador, solicitamos refúgio. Muita gente tá indo pra lá, a coisa não tá fácil lá. As pessoas acham que é bobagem nossa. Ficamos 15 meses lá, depois apareceu uma pessoa da Guerrilha e os responsáveis pelo nosso refúgio decidiram nos mandar para o Brasil. – Relata Efren em seu português fortemente carregado de sotaque.

Assim funciona o reassentamento no Rio Grande do Sul. É um programa diferente porque trabalha com um refugiado que saiu do seu país de origem, buscou refúgio em um primeiro país, no caso da Colômbia é muito comum que seja o Equador, teve seu pedido analisado e aceito, mas continuou sofrendo perseguição, ou não conseguiu se integrar, sofreu discriminação. Se o refugiado continua sendo vítima da violação dos direitos humanos o ACNUR oferece a solução do reassentamento.

A Associação Antônio Vieira, instituição da Companhia de Jesus (congregação da Igreja Católica) criou uma agência responsável pela implementação do Programa Tripartite do Projeto de Reassentamento Solidário no Rio Grande do Sul. Governo, Nações Unidas e Sociedade Civil (no caso, ASAV) são os três elos de uma rede de trabalho responsável por garantir a inclusão dos refugiados na região. São cerca de 250 pessoas atendidas pela entidade aqui no estado, dispersas por 13 municípios previamente selecionados. A maior parte dessa população é colombiana. A socióloga Aline Passuelo de Oliveira explica essa situação:

– Em 2004 foi criado o Plano de Ação do México, que seria uma proposta para uma solução regional para o problema colombiano, que já tem 50 anos e é bem crítico. A Colômbia agora está em um processo de paz, mas mesmo assim ainda vai demorar muito tempo para que as pessoas possam retornar ou reaver os bens, terras e tudo. Então o governo brasileiro propôs o reassentamento no Plano do México com esse caráter solidário, uma solução regional, ou seja, a gente tá ajudando o país que fica aqui ao nosso lado.

Karin Wapechowski, coordenadora do programa de reassentamento solidário ASAV/ACNUR, complementa:

– No desenho de programa aqui do sul, a gente optou pela dispersão territorial, colocar as famílias em cidades diferentes. Cidades com educação boa, saúde também de qualidade, uma administração municipal relativamente boa, em que possam ser incluídos esses refugiados. Hoje nós temos: São Leopoldo, Sapucaia, Sapiranga, Santa Maria, Passo Fundo, Guaporé, Serafina Corrêa  e Pelotas, entre outras. Fazemos isso para que as famílias sejam acolhidas e se dispersem na comunidade de forma tranquila. O Brasil não tem histórico de perseguições, então o programa é para integrar, fazer com que ele não fique mais naquela clausura, no sentimento de refugiado, a gente quer que ele retome o sentimento de pertencer e de retomar sua vida, seu trabalho, seu estudo, sua organização familiar. Ser incluído como um brasileiro. É um programa de integração local.

refugiados2Da Colômbia à Sapiranga

– Nós fizemos um empréstimo no banco para abrir um negócio de avicultura. E deu problema porque de um lado passava a Guerrilha, do outro lado passava o Exército e do outro lado passavam os Paramilitares. Começou a dar problema porque nós tínhamos que dar “ajuda” pra eles [alimento e dinheiro]. Todos que passavam exigiam isso. Chegou um dia em que eu disse que não iria ajudar mais, tinha dívida com o banco, não conseguia pagar os juros. Isso gerou dificuldades.

Efren foi reunindo dessa forma um perigoso grupo de inimizades.

– As pessoas acham que é fácil na Colômbia, o presidente fala que não tem mais problema. Não é fácil. Uma prova é o Aldair [amigo da família que chegou recentemente ao Brasil], trabalhou na polícia, teve que sair, passou fome, ficou doente… A gente de Bogotá também tem dificuldade, jogam bombas, mas não é igual à gente que mora perto [dos enfrentamentos]. Tínhamos casa, terreno, carro, dependíamos daquilo, tivemos que abandonar tudo. Saímos com o pouco de roupa que tínhamos no corpo.

– Nós morávamos em um ninho de guerrilha. – completa Natalia.

– A gente viu como matavam a outras pessoas lá e eles não gostam que a gente conte as coisas. Eles se fazem de bons, que estão com o povo, mas não é assim. Eu tinha um colega de serviço no campo. Pegaram ele e deram três tiros na cara. Com pistola, a Guerrilha. Dois caras pegaram ele na moto, fizeram ele descer, eu tava um pouco atrás, levaram ele para o lado e deram três tiros. Desci com a moto desligada, boca fechada. Eles sabiam que eu tinha visto.

Por causa das ameaças e represálias, Efren deixou tudo que tinha e cruzou a fronteira com o Equador. Acompanhado da esposa e do filho, pediu refúgio e trabalhou no país.

– No Equador eu trabalhava que nem burro. Minha cultura é de gente que trabalha. Trabalhava em uma chácara que tinha rosas. Era bem ruim. Eu emagreci, tinha uns 49 quilos. Magrinho, almoçava e tinha que continuar caminhando com carga atrás como um cavalo. Cheio de flores. Trabalhava de segunda à sexta, e em alguns finais de semana também. Das 4h da manhã até às 18h. Ganhava 198 dólares por mês. Só dava para pagar  o aluguel e meio comer. Meio. Não dava pra outra coisa. Tinha que pagar aluguel, energia, água, transporte para meu filho que tava estudando. Ele parou de estudar e começou a me ajudar, mas dava só pra cobrir os gastos. Dali fui empacotar açúcar num engenho. Só colombianos trabalhavam lá.

Até que a situação por lá também ficou insustentável.

– No Equador estavam me procurando para me matar. Falei para a psicóloga e ela viu que não tinha como me proteger lá.

– Ele tava muito esquisito, chegava do serviço nervoso, não falava nada, eu não sabia o que tinha acontecido. E eu falei para a psicóloga e ela disse pra ele me contar, só aí ele me contou. Tinha um cara me seguindo no Equador, um dia quase me pegou, e falaram que a gente não podia continuar lá. – acrescenta Natalia.

– Temos três anos e quatro meses aqui e graças a Deus e as pessoas que nos trouxeram para cá nunca fomos deitar com fome, nunca fomos deitar sem tomar banho. Aqui só se precisa de desejo de trabalhar. Fomos a primeira família colombiana a chegar a Sapiranga, chegamos aqui em dezembro de 2009. Nos prometeram um ano de ajuda. Tínhamos 15 dias morando aqui e começamos a trabalhar, eu na metalúrgica, de pedreiro, ela trabalhando em lojas, meu filho também trabalhando. Depois de cinco ou quatro meses já tínhamos tudo pronto, carteira de trabalho, documentos. Nós nunca incomodamos eles. O que temos aqui tudo [foi garantido pela ASAV], só aquela televisão que minha esposa comprou, e o som, e a máquina de lavar que trocamos porque aquela outra era muito fraquinha, e o fogão que a gente foi comprando. E agora o carro que estamos parcelando porque fica muito longe e por causa do bebê, que ela não podia andar de bicicleta com ele. Ela teve uma hemorragia, quase perdeu o bebê, passamos coisas feias, mas graças a Deus, demos um jeito.

O pequeno Nicolay segue brincando na sala, o único brasileiro da casa é bastante desenvolto e se diverte posando para as fotos.

– Assim que tem que ser o refugiado, tem que vir com vontade de trabalhar, só porque nos prometeram um ano de ajuda vamos ficar parados? Não dá. A cultura nossa não é assim. Agora a gente tá querendo fazer um empréstimo do Minha Casa, Minha vida. Pra dar um jeito. Estamos pagando aluguel aqui, e isso dá pra parcelar a casa.

Histórias de um recém-chegado

– A luta não é política, agora é só vandalismo. Antes a gente sabia, quando eu tinha uns sete anos, eles roubavam um caminhão com leite e ovos e levavam para as famílias pobres. Mas hoje não, eles roubam para sustentar a guerrilha, para fazer festas, eles não estão fazendo nada. É só econômico, não é algo que esteja ajudando ou que vá ajudar. Eles não estão nem aí. – opina Efren.

– Todos matam. Polícia, exército, guerrilha, paramilitares. Todos matam entre todos. – Desabafa Aldair rompendo a barreira da timidez.

Aldair Ezequiel Brochero chegou há pouco tempo. Ainda não é refugiado, veio para o Brasil sem nada. Teve a mãe assassinada pela Guerrilha. Os jornais da Colômbia publicaram a manchete “Bala perdida mata mulher em casa”. Ele carrega uma cópia da página com a notícia mentirosa. Para vingar sua perda, entrou para o Exército. Permaneceu por dois anos e meio e enfrentou as frentes 37 e 35 das Farc.

– Eles não sabem a dor que ele sentiu. As consequências daquele ato. Foi pro exército para enfrentar a guerrilha para vingar a morte da mãe. Mas não adianta expor a vida por bobagens. A mãe já morreu, tem que dar aquele passo. Não volta. Tem que seguir a vida dele. Tem que vir aqui para buscar novas oportunidades. O que ficou para trás, ficou. Começar uma nova vida aqui. – aconselha Efren.

Aldair inicia o processo de pedido de refúgio tentando se livrar de um passado violento. Quer trazer a irmã que ficou sozinha no Equador. É mais um colombiano fugindo do próprio país.

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Texto: Natascha Castro / Fotos: Gênova Wisniewski