Continuo Sem Entender o Que São Abismos

Por Bruno Rodrigues

 
Não sei muito bem, além das obviedades, o que Nicanor Parra é. Uma coisa sei: há algo que ele desmantela, há algo que torna sua produção estranhamente perigosa. Não sei o que é. Parra publica, do modo regular, desde 1954, quando lançou Poemas y Antipoemas. Por algum motivo, até onde conheço, nunca foi editado no Brasil, exceto por um volume feito em conjunto pela ABL e pela Academia Chilena de la Lengua chamado Nicanor Parra & Vinicius de Moraes (o qual, aliás, pode ser lido aqui), que possui um, como posso dizer, “lírico” artigo introdutório erudito que não diz muita coisa escrito por Carlos Nejar. Existe uma pressa maníaca em lançar um romance novo de Jonathan Franzen, mas uma preguiça total para lançar uma coletânea – que seja – de Parra ou de qualquer outro poeta latino-americano que ainda não tenha sido honrado com as graças de alguma academia europeia (Parra até foi, o que torna sua situação ainda mais misteriosa). Sei, porém, que visão de vanguarda faz parte do jogo de mercado, então creio que as editoras estão esperando ele morrer ou ganhar o Nobel, o que vier primeiro. Tudo bem. Sejamos pacientes. (Mas a verdade é que Parra jamais morrerá – ele é a encarnação de algum deus inca, o deus inca da poesia experimental e do amor pelo caos, algo do tipo).

Lendo e relendo um poema de Parra chamado Recuerdos de juventud, quase sempre tenho a sensação de que estou prestes a descobrir o que ele está destroçando com seus versos. Parra, entretanto, é um daqueles poetas (como Pound ou Hölderlin) que gostam de praticar o método do esconde-esconde (ou método Wittgenstein, depende o quão culto tu está se sentindo no dia): se aproximam muito do que realmente gostariam de dizer, mas percebem, no fim, que é impossível dizer. Recuerdos de juventud é um poema que junta tudo aquilo que o autor trabalharia nas décadas seguintes – tanto sua ironia quanto seu humor são melancólicos, sua nostalgia é amarga, seu coloquialismo é absoluto; as regras básicas da antipoesia. É perceptível que sua matéria poética é diferente das mais contemporâneas, as quais buscam camuflar a complexidade dentro de uma suposta simplicidade (no Brasil, Leminski e todo resto) – a matéria poética de Parra é contradição. É um hermetismo pessoal que permite, porém, um pouco de entendimento que sempre parece raso (sei o que está sendo dito, mas a compreensão profunda é sempre negada). É uma contradição formal, portanto (e a contradição formal dentro da poética é um jogo perigoso, domado por poucos: Lautréamont e mais algum). Sua primeira estrofe é composta por duas frases infladas por orações que se intrometem umas nas outras:

Lo cierto es que yo iba de un lado a otro,
A veces chocaba con los árboles,
Chocaba con los mendigos,
Me abría paso a través de un bosque de sillas y mesas,
Con el alma en un hilo veía caer las grandes hojas.
Pero todo era inútil,
Cada vez me hundía más y más en una especie de jalea;
La gente se reía de mis arrebatos,
Los individuos se agitaban en sus butacas como algas movidas por las olas
Y las mujeres me dirigían miradas de odio
Haciéndome subir, haciéndome bajar,
Haciéndome llorar y reír en contra de mi voluntad.

A capacidade de transfusar a confusão para a sintaxe é de se admirar. É muito difícil transfusar qualquer coisa para a sintaxe, na verdade. As três estrofes que seguem fazem o mesmo movimento. É possível saber que se está na presença de um poeta grande por dois fatos: a) ele retorce a linguagem para tirá-la de sua ambientação estável; b) ele enche a linguagem de língua, isto é, ele dota o geral de uma particularidade que viola tudo. Parra deveria ter algo em torno de 38 ou 39 anos quando escreveu esse poema. Estava perseguindo aquilo que ele destrói. Eu não sei o que é. Já disse isso. Não há nome para certas coisas – não há nome para o amor, não há nome para a violência e não há nome para aquilo que os poetas destroem. A última estrofe sempre me enche de esperanças. Creio que Parra também sentiu a esperança de finalmente poder revelar o segredo de sua arte. Nos últimos versos, porém, ele recua. Não sei se Parra sabe. O poema está encobrindo algo. O poema é a névoa. Ele se encerra assim:

¡Adónde ir entonces!
A esas horas el comercio estaba cerrado;
Yo pensaba en un trozo de cebolla visto durante la cena
Y en el abismo que nos separa de los otros abismos.

Ele pensa em um pedaço de cebola e no abismo que nos separa dos outros abismos. Não tenho certeza se essas coisas formam um conjunto consistente. Também não sei o que é o abismo que nos separa dos outros abismos. ¡Adónde ir entonces! Eu não sei.

(Óbvio que dá para entender o que Parra está dizendo – mas, de vez em quando, as coisas são melhores quando não há entendimento. Entende? É mais interessante ainda simular que não entende. É preciso esquecer um pouco os clichês: Parra me ensinou que o poeta não é um fingidor; o poeta é o que ele quiser ser. O crítico também pode, então (apesar de não possuir o glamour simbólico do poeta)).