À procura de Diego, Vélez, Futebol e gritos

Por Chico Guazzelli

Depois de muito tempo lendo sobre o filme assisti ao filme A procura de Eric. No filme um funcionário dos correios em Manchester começa a conversar com a imagem de seu maior ídolo no futebol, o Francês Eric Cantona, que brilhou no Manchester United e ficou famoso também por suas atitudes polêmicas como quando deu uma voadora num torcedor adversário. Cantona o ajuda em seus problemas com a ex-mulher e com os filhos. Não vou fazer a crítica de cinema, até porque este espaço aqui é do grande Leonardo Bomfim, mas o filme me fez refletir sobre muita coisa, a começar por essa questão lúdica e incrível de pensar em conversar, por exemplo, com Maradona no meu quarto e falando da minha vida pra ele. Maradona, assim como Cantona, foi uma personalidade forte e única no futebol. É difícil imaginar o diálogo com um ídolo do futebol que não seja assim como Cantona e Diego. Por exemplo, me parece quase impossível que um embaixador da CBF e propagandista de empresas de MMa e Poker possa me escutar ao pé da cama. Isso porque o meu fascínio por Diego vai muito além das habilidades dele e chegam numa pessoa humana que cometeu erros como todos nós e que encantou e fez sorrir mais gente que qualquer um na Argentina. O gol mais lindo da história feito por Maradona contra os Ingleses, e depois aquele soco divino na bola em meio aos gigantes soldados do império britânico naquele fatídico 2 a 1 na copa de 86, foram muito mais fortes, naquele momento para um povo sofrido, do que os arsenais dispostos pela rainha nas ilhas Malvinas.
Isso não quer dizer alienação. “Enquanto te exploram tu grita gol”. Não. Essa frase me traz tanta indignação. O grito de gol quando Maradona driblou todo time inglês não tirou da cabeça de ninguém que é explorado da sua condição. Não fez da infância sofrida de Diego não significar nada. E não faz da alegria do torcedor argentino em 86, ou do brasileiro em 2002, ou em 70, menor e alienada. Por que não falam ‘Enquanto tu trepa’… ‘Enquanto tu assiste um filme’… ‘Enquanto tu ouve o disco tal’…? Essa questão me remete a origem do futebol. Após ser um esporte de elite e para elite o futebol se tornou popular no Brasil e tão popular que rapidamente a elite cultural e intelectual o ignorou. Como continua ignorando. Como Galeano afirma a história oficial ignora a história do futebol. Um de seus fenômenos mais importantes. A história do futebol, por exemplo, conta como se pode ler no livro ‘Jogo Sujo’, como Havelange assumiu a FIFA ao ‘olhar’ para África antes das outras entidades políticas por exemplo.
No Brasil pouco se escreve sobre futebol, e assim, pouco se entende sobre o porquê de seu sucesso em todas as classes. Aqui na Argentina, sim estou na Argentina de Diego, gênios como Fontanarrosa e até Campanela com seu novo filme Metegol, abraçam o futebol como tema social e cultural. A nossa elite cultural, no entanto ainda veem a bola como um mero grito do explorado.

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Aqui na Argentina vivi um momento único, estranho e por aqui diriam, raro. Conheci em um momento especialmente porteño o estádio de um time que me conquistou de forma completamente emocional e irracional. Desde 1994 torço pelo Vélez Sarsfiel, quando o vi campeão do mundo. Do meu time de botão lembro-me dos jogadores de diferentes épocas do Vélez: na zaga Pellegrino e Gomez, no meio Camps, no ataque Flores, Zárates, Castromán, Gracian… Mas o maior ídolo da infância no botão, infelizmente, eu não podia homenagea-lo. O goleiro Jose Luis Chilavert. Coincidentemente meio inimigo de Maradona. E esse amor doido e distante, alimentado por resultados de jornais nas segundas-feiras e revistas “El Grafico” (sempre que alguém fosse ao aeroporto) teve seu momento no último sábado ao conhecer o longínquo bairro de Liniers em Buenos Aires. Após jantar no Clube ferroviário (tão parecido com Luna de Avellanda de Campanella) onde senhores típicos do bairro dançava a musica folclórica argentina, vi à luz da noite as incríveis instalações do Vélez.
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Entendi um pouco da segunda reação que os argentinos têm quando sabem que um brasileiro torce pro Velez. “é um dos maiores clubes da América Latina em termos de organização” (a primeira sempre é “torce pro Vélez, por quê?). O Vélez possui colégio, creche, ginásio… É um verdadeiro clube de bairro. E ainda assim é o supercampeão argentino atual e foi campeão em 2012, 11 e 09, tendo sido vice em 2010. O sonho deste imparcial repórter ainda espera por ver ‘en La cancha de velez’, ali bem ao lado da autopista, uma partida do Fortinero…

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Na argentina só se falou em duas coisas no noticiário esportivo na última semana: da contratação do argentino Tata Martino pra comandar incrível Barcelona, e das mortes resultadas de um confronto interno das ‘barras’ do Boca.
Além disso, existe em Buenos Aires uma campanha entre torcedores do San Lorenzo com venda de cotas de 4000 pesos para recomprar o espaço original do Clube onde hoje existe um grande Carrefour.
Uma pequena nota sobre a cobertura da final da Libertadores por parte dos canais argentinos: após passar a semana com ampla repercussão do Olímpia que estava ‘a um passo da quarta Copa’, os comentaristas argentinos da Fox falavam que o ‘Mineiro’ não tinha nenhum mérito na conquista. Choravam sem parar da adiantada de Victor no pênalti e quando repórter entrevistou Ronaldinho, perguntou sobre…. Messi.
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O futebol sim supera e muito o espetáculo do entretenimento que aliena e encaixa na programação televisa. Por favor, entendam isso aqueles críticos de tudo, em geral muito imaturos em seus conhecimentos. Seria fácil se o futebol fosse simplesmente a FIFA, assim como as musicas não são só as gravadoras e os milhões dos astros, e o cinema não é só Hollywood… E o sexo não é só putaria.