Uma Foto de Ezra Pound

Por Bruno Rodrigues

I

A foto foi tirada por Alvin Langdon Coburn, no dia 22 de outubro de 1913, em Londres. Coburn foi um dos fotógrafos mais importantes para o desenvolvimento artístico e experimental da fotografia na Inglaterra e nos Estados Unidos. Ele possui uma série, na qual a foto de Pound está inserida, retratando escritores como Bernard Shaw, Gertrude Stein, Allan Bennett e Yeats, escultores como Rodin e Mestrovic, o fotógrafo George Seeley, além de outros artistas. Essa série é interessante pois são fotos muito cruas, sem grande preparo, apesar de seu óbvio apuro técnico. A simplicidade delas constrói uma ideia muito humana e quebra a aura mítica em torno daqueles que trabalham com arte. É um dos trabalhos mais significativos dos princípios da fotografia (a qual, apesar de já possuir, nessa época, muitas décadas de vida, ainda estava buscando sua expressão estética própria).

II

A foto tem quase cem anos. É uma foto de um mundo que não existe mais. O fotógrafo está morto, o fotografado está morto, talvez o lugar tenha sido destruído. Londres resiste, mas nada é o mesmo. Tudo mudou entre 1913 e 2013. A forma de organização do mundo e da realidade, a forma de percepção das coisas. Tanto em sentidos práticos, políticos ou econômicos, como em sentidos abstratos. O que se mantém é a foto. Ela ainda existe da mesma forma. Não é um elo de ligação entre os tempos. É apenas um objeto dado. Há algo que não muda. Inviolável. Um parafuso produzido em 1913 não é inviolável. É um pedaço de metal. Não faz diferença quando foi feito. A arte, e só ela, é dotada da capacidade antinatural de se tornar perene. Talvez o que o poeta e todo artista tente destruir seja a concepção do eterno.

III

Pound estava prestes a completar 28 anos e já havia sofrido desilusões, frustrações e traumas diversos. Ripostes era então seu grande trabalho poético e ele já havia começado a recuperar a memória dos poetas provençais (lançara, um ano antes, uma coletânea de traduções de Guido Cavalcanti). Pound era um homem em formação. Abandonou sua terra natal e buscava, na Europa, a medida e a visão. Não havia andado ainda pelas estradas nas quais Arnaut Daniel se perdera. Ele começaria a escrever seu grande trabalho, The Cantos, só dois anos depois.
Temos seu cabelo, quase comprido, desafiando as normas dos bons homens, tapando a ponta da orelha, sua barba rala, precariamente aparada, seu casaco que parece roto escondendo uma camiseta branca. Não sei identificar os tecidos. O outono em Londres o castigava. Nenhuma ruga em sua testa, os músculos relaxados, mas a mandíbula tensa, a boca entreaberta, como se quisesse falar (talvez estivesse falando momentos antes da foto ser tirada, mas falando o quê? Que coisas que Pound falava aos quase 28 anos?). Nenhuma olheira, nenhum sinal de cansaço. O fundo nublado e desfocado – estavam na rua ou em uma casa? Impossível saber. As coisas desformes continuam misteriosas. As sobrancelhas curvadas sem esforço. O olhar de Pound. como se observasse um campo. Como se observasse a desolação (nove anos depois, T.S. Eliot dedicaria The Waste Land a este olhar). Como se soubesse o que viria nos anos futuros. O olhar obstinado. O olhar de um homem incompleto e ausente. O olhar de Pound talvez seja seu melhor poema de juventude.