Qual 11 de setembro?

O governo da Unidade Popular no Chile, segundo quem participou

Texto: Marcus Pereira / Fotos: Júlia Schwarz

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“A democracia foi atacada.” Foi o que o então presidente dos Estados Unidos George W. Bush declarou em 11 de setembro de 2001, quando o grupo terrorista Al-Qaeda precipitou a catastrófica chuva de aviões contra a nação norte-americana. No entanto, em 11 de setembro de 1973, outra democracia não só foi atacada, como também foi usurpada por uma das ditaduras mais atrozes conhecidas pela America Latina. Trata-se da República do Chile, onde o governo da Unidade Popular (UP) de Salvador Allende (1970-1973) – eleito através do voto – foi apunhalado pelas Forças Armadas chilenas, comandadas pelo general Augusto Pinochet (1973-1990).

Segundo consta em documentos divulgados pelo serviço-secreto norte-americano1 durante o governo de Bill Clinton (1993-2001), o golpe militar no país latino-americano foi assessorado e financiado pelos EUA. Na época, auge da guerra Fria, o republicano Richard Nixon (1969-1974) governava o país e quem acompanhava os acontecimentos no Chile era o conselheiro nacional de segurança, Henry Kissinger. Numa transcrição de um diálogo dos dois, no dia em que Allende se suicidou, Kissinger se dirigiu a Nixon com certa perplexidão: “Presidente, os jornais estão sangrando por causa da derrubada de um governo pró-comunista. Quer dizer, ao invés de celebrarem o feito. No tempo de Eisenhower, seríamos considerados heróis. (…) Não fizemos aquilo. Quer dizer, nós ajudamos.”

Tanto o 11 de setembro sofrido pelos Estados Unidos quanto o 11 de setembro promovido pelos Estados Unidos deixaram um número oficial de cerca de 3 mil mortos. Todavia, nem sempre as informações divulgadas pelas autoridades condizem com a verdade. Por exemplo, sabe-se que muitos cidadãos nova-iorquinos morreram meses depois da queda do World Trade Center por complicações causadas pela aspiração da nuvem de poeira repleta de amianto, mercúrio e combustível de avião. Por outro lado, hoje o governo do Chile já reconhece que o regime da Junta Militar respaldado pelos EUA vitimou cerca de 60 mil chilenos, entre presos políticos, torturados, desaparecidos e assassinados2. Ainda assim, estima-se que esse número seja muito maior.

Mesmo assim, desde 2001, a mídia insiste em mandar a sua coroa de flores para os escombros do marco zero – muitas vezes sem sequer mencionar o golpe militar no Chile. O que me lembra um amigo chileno, o socialista trotskista Rafael Eugenio Mieville Loyola, que figurou entre os corredores do Palácio de La Moneda entre 1970 e 1973. Ele ocupava o cargo de inspetor de educação – grau 17, e era responsável por implantar as políticas educacionais do governo da Unidade Popular. A respeito do foco das condolências midiáticas, ele mantém certa desconfiança:

– Parece que hoje há um movimento para tentar apagar da história alguns fatos importantíssimos. A direita quer fazer como o Stálin, que apagou o Trotski das fotos oficiais da União Soviética. Querem apagar da história o governo da Unidade Popular. Só que, assim como o Trotski não foi esquecido, o governo do Allende também não será.

Rafael, alguém da Unidade Popular

no me recuerdo-21 anos Rafael nasceu em 17 de maio de 1948, na cidade de Viña Del Mar. Aos 14 anos entrou para o Partido Socialista do Chile (PSC), depois da iniciação  política no Partido Comunista do Chile (PCC). Aos 21 anos, inicia o curso de Engenharia Econômica na Universidad de Chile, mas interrompe os  estudos no segundo ano de faculdade para ajudar o PSC a costurar uma aliança com o PCC, o Partido Radical e o Partido Social-Democrata. O  resultado seria a exitosa coalizão da Unidade Popular (UP).

 – O Partido Comunista era o mais forte. Por isso, quando se formou a UP, o candidato escolhido para concorrer à presidência foi o Pablo Neruda. Só    que ele acabou renunciando a sua candidatura em prol da candidatura de Allende, mas disse que se ganhássemos as eleições, ele queria ser  embaixador na França. Foi o que aconteceu.

 Em 4 de setembro de 1970, Salvador Allende venceu as eleições com 36,6% dos votos. O segundo colocado, o direitista Jorge Alessandri, do Partido  Nacional, obteve 34,8%. E o terceiro, Rodomiro Tomic, da Democracia Cristã, alcançou 27% da votação.

 De acordo com as regras eleitorais do Chile na época, quando um candidato não obtinha a maioria absoluta nas urnas (mais de 50% dos votos), os  dois candidatos mais votados eram submetidos à apreciação do Congresso em uma sessão conjunta entre os 150 deputados e os 50 senadores. No dia  da votação, o Legislativo chileno foi cercado por uma multidão, e Salvador Allende foi confirmado como o presidente da República do Chile por 153  votos contra 35, tendo ainda 7 abstenções, numa sessão que contou com a presença de 197 legisladores.

Contudo, a direita – maioria no Congresso – solicitou algumas “garantias constitucionais” para sabatinar o presidente socialista. O famoso Estatuto de Garantias Democráticas exigia, entre outros itens, a liberdade de atividade para os partidos de oposição, a liberdade de expressão, a conservação do sistema eleitoral vigente, o desarmamento da população e a não indicação do chefe das Forças Armadas pelo presidente – este último inclusive era inconstitucional, pois a própria Constituição previa que o presidente escolheria o comandante das Forças armadas.

– Depois de se reunir com as lideranças dos partidos da Unidade Popular, Allende concordou com as exigências, exceto àquelas que eram contra a própria Constituição. Mas, as exigências constitucionais só provaram como aquela direita odiosa era demagoga. Porque, depois do golpe de estado em 1973, o Pinochet foi contra todas as exigências que eles fizeram à gente. E, mesmo assim, eles apoiaram3 a ditadura no Chile. Quer dizer, no fundo, eles não estavam querendo garantir a democracia, eles estavam querendo se manter no poder. Inclusive, eles já estavam planejando a derrubada do Allende. O chefe das Forças Armadas do Chile, General René Schneider, nos alertou ainda em outubro de 1970 que o golpe estava sendo tramado. Tinham convidado o General Schneider para tomar parte e ele se recusou. Mas, quando ele nos contou aquilo, a maioria achou que ele estava louco. No dia 22 de outubro, fuzilaram o carro do Schneider e mataram ele. Aí, ficou mais claro as intenções da direita quando exigiu o desarmamento do povo.

De 1970 até o golpe militar, Salvador Allende comandou o Chile em meio a críticas severas da imprensa (sobretudo, do jornal El Mercurio), em meio a ofensivas do poder Judiciário, em meio a ataques terroristas (principalmente dos grupos de extrema direita Pátria y Liberdad e do Comando Rolando Matus), em meio a conspirações de setores do Exército e de alas direitistas assessorados pelo serviço de inteligência norte-americano… Para se ter idéia, só em março de 1973, ocorreram 30 atentados dos grupos direitistas – entre eles um atentado contra o Ministro da Agricultura, Rolando Calderón; e contra o chefe de polícia de Santiago, Jaime Faivovich. Isso explica porque, ao longo de três anos, Allende teve que alterar 12 vezes seu gabinete de ministros.

O Passaporte Vermelho, concedido aos funcionários do governo Allende, serviu para fugir do Chile

O Passaporte Vermelho, concedido aos funcionários do governo Allende, serviu para fugir do Chile

 No último ano antes do golpe, quando indústrias multinacionais já haviam sido encampadas, a turbulência beirou a uma guerra civil. Foi quando houve a greve dos transportes, em que caminhoneiros eram pagos para ficarem parados com os caminhões carregados ou se livrar das mercadorias. Em resposta, o governo – em parceria com os sindicatos de operários – organizaram o que ficou conhecido como os “cordões industriais”, que nada mais eram que a escolta armada da produção chilena. Rafael chegou a comandar um deles.

 – A produção industrial crescia e, paradoxalmente, começaram a faltar produtos nas cidades. Então, fomos investigar. Ficamos escondidos  na saída da fábrica. Quando saiu um caminhão carregado, nós o seguimos. Aí, o caminhão pegou um caminho diferente do que ele deveria  pegar, que era o da cidade, dos supermercados. Ele foi até um cais, onde os produtos foram embarcados em um navio. Quando o navio  chegou em alto-mar, os produtos foram jogados na água. Aí, nós chamamos a polícia chilena para dar uma batida lá e eu os trabalhadores  começamos a escoltar o transporte até a cidade.

 Em 11 de setembro de 1973, o recém nomeado chefe das Forças Armadas, General Augusto Pinochet, traiu o governo de Salvador Allende  e comandou o golpe de estado. O presidente da UP, então, discursou pela última vez à nação chilena. Depois se suicidou. Começava então  a perseguição aos correligionários de Allende.

 Rafael permaneceu nas lutas de resistência até 1974. Nesse meio tempo, encaminhou a Junta Militar o pedido de demissão do seu antigo  cargo. No entanto, o pedido, não só foi negado, como ele foi convocado a se apresentar aos militares, pois estava sendo acusado de “participar ativamente da tomada de estabelecimentos.”

– Os militares não aceitaram minha demissão. E a luta armada ia mal. A Operação Condor estava no auge e o pessoal estava assustado com as notícias da Caravana da Morte. Quando eu vi que, de 50 companheiros só haviam restado 5, resolvi sair do país. Aí, como eu estava casado desde 1973 com uma brasileira, que é minha esposa até hoje, vim para Porto Alegre. Aqui, também fui perseguido por muitos anos. Mas, é como o Allende falou: “minhas palavras não têm amargura, apenas decepção.”

1 – Em 2003, o argentino Hector Pavon lançou o livro 11 de Setembro … de 1973 (Edições Danger Public). A obra é baseada nos documentos da CIA, liberados durante o governo do presidente dos Estados Unidos, o democrata Bill Clinton. Alem disso, conta com inúmeros depoimentos de ex-colaboradores de Pinochet.

2 – Dados da Comisión Asesora para a Calificación de Detenidos Desaparecidos, Ejecutados Políticos e Víctimas de Prisión Política y Tortura. O órgão chileno tem investigado os casos de perseguição política durante a ditadura de Pinochet. http://www.comisionvalech.gov.cl

3 – “O Supremo Tribunal a que tenho a honra de presidir, acolhe com satisfação e otimismo a vossa subida ao poder, e altamente o seu significado histórico e jurídico”, saúda o presidente do Supremo Tribunal do Chile, Enrique Urrutia, numa carta enviada ao general Pinochet em 1974. Citado em Chile :a Legislação do Fascismo, de P. Gricháev e S. Tchibiriáev (Moscovo, 1980).