A Copa começou, mais uma vez.

Por Guilherme Dal Sasso

Hoje faz um ano que derrubamos o Tatu. Na hora em que tudo ocorreu, eu já havia ido embora, mas não tenho medo de falar em “nós”. Lembro de chegar em frente à prefeitura, onde então ocorria a Defesa Pública da Alegria, e, mesmo gripado, ter vontade de permanecer. A festa estava bonita, com artistas de rua, instrumentos musicais, gente pintada e sorrindo. No entanto, as imagens que mais marcaram aquele dia foram as da brutalidade policial. Vi à exaustão todos os vídeos, depoimentos e fotos, a repercussão no Facebook e as palavras podres que aquele asno chamado Lasier Martins proferiu no dia seguinte. Mas talvez a imagem que mais sintetiza aquela noite seja a foto daquela menina que, com lágrimas no olhar amedrontado, leva a mão ensanguentada à boca, como quem não acredita.

Lembro que já estávamos vivendo um clima de repressão na cidade. A Cidade Baixa já sofria com o “choque de ordem” da SMIC, comandada pelo playboy autoritário Valter Nagelstein. Não vou elencar em ordem cronológica os eventos, mas à época chamava a atenção a especulação imobiliária no bairro, sob o signo do espigão da Lima e Silva em frente ao Nova Olaria, entre outros; as matérias publicadas na Zero Hora que misturavam jovens homossexuais se beijando e outros caídos no chão depois de uma bebedeira, denunciando a “desordem” que imperava no bairro; e a pressão invisível de poucos e grandes empresários da noite que saíram lucrando muito com a reconfiguração da boemia e a perseguição aos pequenos proprietários daquele bairro. A “máfia da polenta”, como diria um par de simpáticos senhores uruguaios que habitam o bairro.

Se é impossível dizer que ali se iniciava a articulação entre elites, mídia e poder público para higienizar e capitalizar áreas da cidade – na verdade esse processo se confunde com a história do Brasil -, para os mais desavisados era a prova de que as coisas estavam ficando mais pesadas. É da mesma época a restrição ao uso público do largo Glênio Peres e sua doação aos “cuidados” da Coca-Cola, que espalhou publicidade porca no local histórico; a privatização do Araújo Viana, palco de shows históricos em Porto Alegre, e o consequente cercamento do famoso morrinho que o circunda; o avanço nos “debates” sobre a privatização da orla do Guaíba e sua exploração pela iniciativa privada; e hoje a total inação frente à construtora amiga e doadora de campanha Goldsztein, que está para destruir seis casarões históricos na Rua Luciana de Abreu; enfim, não temos espaço aqui para enumerar os desmandos da atual prefeitura e seus serviços prestados às elites regionais e nacionais, mas pudemos pincelar alguns para ilustrar a dinâmica que dita os rumos da cidade.

Onde eu queria chegar é que na época muito se falava “imagina na Copa!”. Ora, a Copa nada mais é do que uma potencialização absurda desse tripé que constitui o Brasil: políticos corruptos subservientes aos interesses de elites arcaicas protegidas por uma polícia brutal. Já vivíamos a Copa, sem o saber. Mas muita água rolou nesse meio tempo. Desde o dia em que nossa alegria revoltosa derrubou aquela grotesca estátua de plástico, vivemos o levante contra o aumento das passagens, tensionamos a relação entre a prefeitura e seus amigos empresários, ocupamos a Câmara, obtivemos uma série de vitórias e desgastamos a imagem daqueles que se julgam donos da “Casa do Povo”, mostrando a quem eles realmente servem. As jornadas de junho varreram o país e a repressão policial virou assunto nacional.

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Foto: Leandro Rodrigues

Eis, talvez, o ponto principal. Quando fomos espancados naquele dia, muito se falou em despreparo da polícia. Despreparo um caralho. É exatamente para isso que eles são preparados. Ensinados para odiar e obedecer. Espancar e seguir ordens. A Copa começou naquele dia, em Porto Alegre, e hoje, um ano depois, recomeça outra vez. Enquanto escrevo esse texto, a polícia invade a casa de militantes engajados nas lutas recentes. Partidários do PSOL e do PSTU tiveram suas casas reviradas e seus computadores apreendidos. O mesmo aconteceu com o Centro de Cultura Libertária da Azenha e com a ocupação Utopia e Luta. Vão ser indiciados por formação de quadrilha. Hoje, se você milita politicamente, o Estado te vê tal qual Fernandinho Beira-Mar.

Começou a Copa do Mundo. Mais uma vez. E como nunca. As pessoas cantam “tortura, assassinato, não acabou sessenta e quatro”. Isso a gente já sabe: o aparato repressivo do Estado permaneceu incólume à redemocratização, com suas fardas, suas medalhas, ideologias, tradições, coturnos e cadáveres nos armários. No entanto, as coisas não são estanques. É visível uma articulação mais concreta desse aparato. Não é só a BM e sua cultura institucional arcaica e autoritária. É a Polícia Civil. É o Ministério Público. É o Judiciário. O próprio governador Tarso Genro havia chamado, meses atrás, os anarquistas de “fascistas”, e se gabado da invasão da Polícia Civil à sede da Federação Anarquista Gaúcha. O mesmo Tarso que gosta de escrever artigos sobre a superação do capitalismo em portais de esquerda. Em São Paulo, no Rio de Janeiro e no Rio Grande do Sul, governos do PSDB, do PMDB e do PT, todos apoiando solicitamente as atitudes de suas polícias, cada vez mais furiosas, e com mais equipamento, diga-se de passagem.

O aparato repressivo está se articulando de maneira assustadora, e a perseguição política foi completamente escancarada. É feita sem um pingo de vergonha. Apreendem cartazes, panfletos, livros de Marx e até o Mate-me por favor, livro sobre o movimento punk. O mesmo Marx já disse que “a história acontece como tragédia e se repete como farsa”. Estamos vivendo a farsa da Copa, repetição da ditadura. E se é verdade que a Copa já começou, é bom ter em mente que ela não vai acabar, pelo menos não junto com o apito final do jogo de decisão. Hoje a Copa simboliza um Estado autoritário, uma polícia acima da lei e representantes que se revezam entre entusiastas, cúmplices e acovardados (salvo raras exceções), articulados para garantir os processos de especulação e reprodução do Capital, neutralizando a resistência política.

Hoje é um dia de luto e de luta. Luto que é indissociável da luta. Luta que apenas começou. A Copa não vai acabar tão cedo. Pra finalizá-la, teremos de derrubar ainda muitos tatus.