EFEITO DA INDÚSTRIA COLATERAL

A partir de hoje o Tabaré abre mais um espaço para  a literatura aqui no sítio.  Rodrigo Isoppo gerencia o blog Cobertura Poética e é o mais novo reforço do time do Tabaré. Diz que é centroavante.  Aqui apresentará contos de sua autoria. para começar o conto Efeito da Indústria Colateral que vai ser dividido em quatro postagens. Para começar o prólogo e o primeiro capítulo. Boa leitura.

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Prólogo

 Doces são os momentos em que Gustavo salta para fora de sua casa. Retira-se de seu fétido lar coberto de energia densa que o amarra em sua prisão voluntária.

Gustavo dedicou-se massivamente na construção de seu espaço-depósito de isolamento e solidão. Tem medo dos mistérios do Fora. Da imensidão do mundo. Da possibilidade dos encontros de olhares com os desconhecidos da rua. Tem medo de perceber que é pequeno e covarde. Por isso se tranca. Com seus cigarros e suas dores.

O medo se transforma em preguiça, ou preguiça sempre foi, nunca se soube. Não importa. Gustavo fica em casa e se esvazia. Vomita o mundo, caga as lembranças. Excreta tudo: planos, desejos, possibilidades. A materialidade se dissolve, porém seu odor permanece. Odor denso. Gustavo vazio, atmosfera densa. O ar esmaga Gustavo.

Procura desesperadamente um jeito de fazer o tempo passar mais rápido. Fuma seus cigarros devagar até que sua garganta seque. Se masturba sem vontade, sem nenhuma referência. Abre o jornal nos horários das sessões de cinema já sabendo que não irá. Senta no sofá e espera a vida despertá-lo.

De repente, quando o ambiente de clausura já se tornava insustentável ao corpo de Gustavo, uma carta surge por debaixo de sua porta. Sem pensar, Gustavo veste seus calçados e sai.

A luz do fim do dia desconforta seus olhos, o que a Gustavo lhe agradou, pois o desconforto o distanciava de sua ausência de dor. Gustavo nunca se sentira tão feliz perante aquela sensação que o lembrava de sua existência.

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I

Contratos consigo e com o mundo. É o que Gustavo sempre almejava a fim de sobreviver na Terra. Claro, como todo ser humano: frágil, incapaz de apenas ser, inseguro, com medo da solidão, medo da incompreensão do outro, medo de ficar translúcido até sumir de vez. Quem somos afinal, se nossa própria identidade se propaga assegurando uma relação? Camaleões sociais. Ora somos um na padaria, ora somos outro nas festas ou em uma janta familiar. Gustavo gostava do banheiro. Pois só no banheiro podia sentir-se não vigiado. Chegava a ficar horas no banheiro da escola. No banheiro da escola não havia espelho, ao menos no masculino. Nem por si próprio Gustavo sentia-se vigiado. Suas crises sempre foram calcadas na busca de uma identidade. Não se via em ninguém, pior que isso, não via a si próprio na presença de alguém e isso o atordoava. Isso era motivo a dar com pau para sociedade castigá-lo. Pobre Gustavo. Sempre a deriva de sua sanidade, seus pais mais de uma vez cogitaram a internação, era alvo de chacota dos colegas, pauta de preocupação dos psicopedagogos da escola, fofoca entre os vizinhos. Mas Gustavo resistia. Sabia que sua ausência de identidade já era em si mesma uma identidade. Era um ser social, isso era evidente. Possuía um corpo que funcionava nos padrões. Tinha saúde. Seus cinco sentidos eram aguçados. Não possuía nenhum retardo mental. Sua anemia era apenas social. Um transtorno afetivo. E o que mais lhe revoltava era o fato de que a sociedade, que nunca o abraçara, se mostrava responsável por sua “cura”.

Gustavo sempre se colocava desconfiado dos padrões que as instituições teimavam em adequá-lo. Sempre quisera se travestir de mulher e sair dançando pelas ruas, mas só o fato de querer sair à rua já era um obstáculo. Morava em uma cidade metropolitana, cujas edificações eram gradeadas em três camadas com direito a portarias, câmeras e cercas elétricas. Rua era sinônimo de campo de batalha, e a indústria privada de segurança orientava as pessoas a evitá-la. Apartamento – carro – escola – carro – estacionamento – shopping – carro – playground – carro – clube – carro – apartamento. Seu único portal disponível ao lado de fora era a televisão, que mal cumpria seu papel. Gustavo a chamava de caixa fantástica, no sentido negativo da palavra. Fantástica, pois mostrava um mundo não-palpável cheio de anúncios de mercadorias que nunca poderia ter, famílias unidas de dentes limpos tomando jarras de suco de manhã maquiadas que nunca vira, filmes de ficção futurista que nunca haveria de chegar, shows de bandas cujos instrumentos não estavam conectados, noticiários mostrando cifras indecifráveis, policiais infalíveis, gols monumentais. Gustavo só queria dançar e descobrir seu corpo, mas não podia, pois era homem e, como homem, devia ser sério, ereto e insensível. Assim seguiu resistindo recusando a puta que seu pai queria lhe pagar aos 13, rejeitando seguir a religião de seus antepassados aos 15 e optando seguir nas artes aos 17, a contragosto de tudo e todos.

por Rodrigo Isoppo