EFEITO DA INDÚSTRIA COLATERAL II

II

Sua resistência custava caro. Espremido que nem laranja na solitária que o mundo o sentenciava. Sua estética capilar afastava as companhias, as roupas que gostava de usar só encontrava usadas, seu voto nas urnas era sempre vencido, sua ideologia provocava atrito na mesa de jantar, sua preferência sexual fez com que a mãe adoecesse, sua dieta sem conservantes o obrigava a gastar algumas notas a mais, no mercado de trabalho nunca se encaixava, seu uso de drogas era caso de polícia, o disco de sua banda nunca encontrava nas lojas. Gustavo se frustrava e seu espaço no mundo se comprimia, era jogado nos becos escuros da marginalidade. Para achar suas roupas, seus alimentos, seus discos, seus livros, seus conselheiros, suas drogas, seus parceiros sexuais, se perdia na periferia social, longe das câmeras, no porão das indústrias. Morava em um bairro afastado, pois a indústria imobiliária o impedia de ter direito a um lar no centro da cidade. Dividia apartamento com outros dois sujeitos e eram alvo de repressão dos vizinhos, pois não se adequavam a indústria doméstica (família monogâmica heterossexual).  Cozinhava seus orgânicos em casa, pois a indústria agropecuária (carnívora e agrotóxica) o impedia de comer fora. Não possuía televisão ou rádio, pois a indústria da comunicação detinha o monopólio a quem conseguisse manter sua concessão. Andava de bicicleta e de capacete, pois a indústria automobilística definia o plano desenvolvimentista da cidade. O porão da indústria era tão insalubre, escuro e opressor que Gustavo não conseguia mais ver a sua imagem projetada em lugar algum. Gustavo não se via mais. Não se reconhecia. Não se identificava. Era vazio de espírito, de alma. Perdeu cheiro, gosto e cor. O mundo passava com tanta rapidez que Gustavo ia ficando pra trás. Quando raramente saia para rua, parecia que as pessoas falavam outra língua. Até a própria indústria cultural deixara de tentar cooptá-lo, tão antiquado que era. Gustavo só queria dançar, todavia tropeçava nos cordões do curso acelerado e impaciente da história.

Braços atados, o que lhe restava usar era a única ferramenta que não lhe havia sido retirada: a razão. Pensava no sentido da existência humana. Como o homem torna-se jardineiro de si mesmo. Coloca-se enraizado em um jardim onde as condições de temperatura e clima mais favorecem, coabitando com outros seres ora competindo, ora colonizando ou em sociedade. Depois de um tempo poda-se suas folhas, caules e raízes e parte pra outro jardim repetindo o mesmo procedimento. Gustavo sempre quisera desvendar a diferença entre natureza e cultura, o que nos diferenciava das plantas. Era evidente que não dependemos somente de condições climáticas para estabelecermos nossas raízes em algum solo. Tinha algo mais. Outro tipo de representação simbólica. Sempre soubera que um homem só se identifica enquanto homem quando vê outro homem. Tão complexo é cada homem, que o mesmo necessita identificar traços cada vez mais semelhantes nos outros a fim de assegurar-se de seu próprio eu. “Uma relação rizomática” – lhe diziam. A identidade é uma manifestação de defesa e a mesma manifesta-se em situações de perigo, de insegurança. Hoje em dia, cada vez mais querem homogeneizá-las a fim de identificá-las com maior clareza. Vendem seus modelos, apelam em seus falsos desejos. Um dia esta relação fora mais combativa do que de guerra. Um dia as raízes eram regadas coletivamente para se manterem fortes com bastante seiva. Pelo menos é o que os devaneios nostálgicos de passados não-vividos de Gustavo diziam: hoje são as indústrias que produzem cultura e não mais os indivíduos. A indústria não carimbou Gustavo. Gustavo possuía defeito de fábrica. Gustavo fora descartado.

Outsider no mundo, Gustavo ainda não desistia. Não sabia por que, mas tinha medo de desistir. Ainda queria dançar. Pensava que talvez sua ausência de raízes facilitasse seus passos e saltos. Decidiu dedicar-se a diagnosticar seus sintomas anêmicos. Desregulação emocional, raciocínio extremista, relações caóticas, problemas de identidade e humor instável e reativo, sensações de irrealidade e despersonalização, tendência a um comportamento briguento, impulsividade (sobretudo autodestrutiva), autor de manipulação e chantagem, conduta suicida e sentimentos crônicos de vazio e tédio, requisição de atenção em demasia, comportamento narcisista. Caralho! Gustavo pirou em quanto diagnóstico já criaram para distinguir senilidade de senescência! Pela sociedade era considerado um limítrofe, um dos maiores transtornos de personalidade existentes e dificilmente curáveis! Será que se entregaria de braços abertos ao tratamento? Será que venderia sua alma ao diabo dos medicamentos? À famigerada indústria farmacêutica?

por Rodrigo Isoppo