EFEITO DA INDÚSTRIA COLATERAL III

III

Faltava-lhe dinheiro. As contas de luz e água estouradas. Internet nem havia mais. Dívida com banco, com amigos, com deus. É o que acontece em um sistema que se sustenta através da dívida. A culpa. A culpa vem do parto. Gustavo desde o parto tinha dívidas com o mundo. E quanto mais pagava maiores os juros. Aquela carta lhe caíra como última sentença. Alforria ou liberdade nunca saberá. Contudo a estrada indicava apenas um desvio obrigatório, era ele ou o penhasco.

Chegou ao laboratório que a carta indicava. Uma corporação aos moldes da arquitetura moderna, um bloco de concreto sem ornamentos, geométrico e minimalista. “Um prédio para não ter motivos pra distrações” – pensou Gustavo. Foi entrando, invisível aos olhos de quem cruzava diante dele, quase o atropelando. Gustavo estava sumindo, teve que sinalizar exageradamente sua presença perante a recepção. Conforme as indicações do funcionário, deveria se identificar enquanto um homem de classe média/baixa, sem carro na garagem, com apenas um banheiro em casa, fumante, sem alergias a qualquer medicamento, sem nenhum parente próximo com profissão na área da saúde ou na área da comunicação. Esquisito. Depois disso solicitou que firmasse um termo de compromisso do qual se mostrava ciente e responsável por qualquer coisa que lhe acontecesse e outro termo que alegava que todo dinheiro recebido era pra cobrir custos de transporte e alimentação. Esquisitíssimo. Apesar do medo, nada o faria desistir. Gustavo ainda sonhava com seus passos de dança.

Corredores e mais corredores. Arquitetura de passagem. Corpos dóceis, controlados e empurrados pelo próprio prédio. Todos de branco, tudo branco, parecia que estava no céu cristão (sem falar dos quadros de santas nas paredes), cheiro de desinfetante. Chegou ao local indicado e cumpriu seu papel como havia combinado com o recepcionista. Fora o primeiro contato humano que tivera. O doutor o tratou com um destacado carinho, como se já o tivesse esperando há anos e Gustavo se sentiu bem. Disse-lhe que a experiência duraria quatro semanas e, caso tivesse sucesso (sem expressar nenhuma dúvida de que teria) seu nome iria representar o avanço tecnológico da nova era da medicina. Os olhos de Gustavo brilharam. Não satisfeito, além deste status, iria ser o responsável por salvar milhares de outras tantas vidas miseráveis que não tiveram nenhuma escolha se não adoecer. Gustavo, apesar de sempre desconfiar de qualquer entusiasta, estava sendo fisgado pelo discurso articulado do (médico?) que só faltava subir na mesa e declamar um soneto alexandrino. O mesmo fez questão de não pronunciar a palavra “cobaia” a fim de não pôr tudo a perder. Negócio fechado. Gustavo assina outra série de papéis e compromete-se a fazer exames diários naquela mesma sala. Mesmo com tudo assinado, ainda fizeram-lhe questão de apresentar um vídeo desta nova mercadoria. Mercadoria não, estilo de vida como constava no material áudio-visual. Gustavo lembrou-se dos comerciais de televisão que assistia. Pessoas felizes, asseadas, em ambientes campestres, reunidos entre amigos e familiares, em meio a banquetes e roupas lisas de algodão, com crianças saudáveis e animais domésticos saltitando e dançando (dançando!) em torno do protagonista (suposto usuário do medicamento, mas sem nenhum indício explícito no vídeo). Baita farsa, sabia Gustavo. Mas já era tarde. Sentia-se como Abraão sacrificando seu filho Isaac, porém sem nenhum anjo disponível para impedi-lo. Seu corpo estava vendido.

A primeira dose já estava circulando em sua corrente sangüínea.

Por Rodrigo Isoppo