Sobre dízimos e Pomba Gira

Ilustração: Fred Stumpf

Ilustração: Fred Stumpf

Existisse um deus de carne e osso não conseguiria imaginar a reação dele se estivesse ao meu lado. Não sei se perceberia um semblante orgulhoso ou desapontado, um riso de falsa modéstia ou inegável desolação. Existisse um deus de carne e osso e eu o teria convidado a ir junto comigo, ao fim de uma terça-feira de cidade chuvosa e caótica, à reunião de Limpeza Espiritual da Igreja Universal do Reino de Deus, faraonicamente erguida a poucos metros da rodoviária de Porto Alegre.

 Assim que entro no salão principal o tamanho da estrutura e o mar de cadeiras roubam minha atenção. Há uns 5 mil lugares, divididos em quatro blocos horizontais de poltronas marrons e que verticalmente vão ao encontro do palco de onde o pastor prega. Ali em cima os tronos, as cruzes, os ornamentos, todos reluzem. E é nessa parede que se lê o letreiro gigante – e não menos reluzente – Jesus Cristo é o Senhor. De cada lado da frase um telão transmite tudo o que se passa, gravado ao vivo, e nenhum detalhe será perdido por ninguém.

 Sento estrategicamente em uma das cadeiras da metade de trás e bem ao meio. Imagino que fico menos à mostra ali: ingênuo engano. Poucos minutos depois um fiel se aproxima e pede para conversar. Digo que sim e ele me conta que tem 30 anos, trabalha em uma cozinha, a patroa não é boa, desperdiça muita comida e isso o entristece. Ele engata na história de um passado, que até agora não consigo saber se é inventado, no qual era gay, foi travesti e tinha chegado a vender o corpo. A Igreja o salvou, insiste, porque aquela vida de outros tempos não era digna aos olhos do Senhor. Pergunto o quê o levou a se prostituir, ele diz que estava perdido. Pergunto se é mais feliz agora, ele diz que não há comparação, que antes não tinha nem o que comer. Pergunto se ter o que comer tem a ver com o fato de ser travesti, ele diz que sim, o Senhor está sempre nos cuidando e quando entrou na Igreja Jesus o presenteou com uma vida melhor. Além disso, usava drogas pesadas, hoje nem bebe. No fim da conversa um dos assistentes, chamados de obreiros, nos cumprimenta com um jaleco branco que diz Sessão do Descarrego nas costas. Junto Limpeza Espiritual à Sessão do Descarrego e penso, será? Será.

 Os primeiros passos do pastor no palco fazem o público se calar, e as primeiras palavras já são em voz alta, rápidas. De imediato a retórica impressiona. Quase não há silêncios – e isso é muito importante, nota-se bem. Mas não são só as palavras: a habilidade no vai-e-vem do microfone, a potência da voz, a manutenção da adrenalina dos ouvintes, tudo serve para espetacularizar o que acontece. Tudo é eloquente. O boa noite é rápido e vem junto a um comentário do frio que faz, o sotaque indica que o pastor é de alguma região mais ao norte. As suas segundas palavras já são direcionadas ao dízimo. E não exagero. A lembrança de contribuir antecede a pregação e vem acompanhada sobre ensinamentos de como o Diabo observa a Terra enquanto Deus protege aqueles que contribuem das artimanhas do Capeta. A contribuição, inclusive, tem percentual definido e estatístico: dez por cento dos ganhos de cada um são suficientes para garantir a proteção divina.         

 Além do chamado ao dízimo, outros três momentos de contribuição são invocados: as ofertas. Para que sejam mandadas cartas ao templo da Universal em São Paulo, o prédio iluminado da sede principal da instituição, são chamados os ofertantes ao palco. Ofertas não são doações, é lembrado, são investimentos para que Deus possa nos atender prontamente. Em meio a orações e músicas o pastor narra freneticamente um chamado àqueles que ofertarão mais de mil reais. Depois segue ranqueando os montantes, que subam agora aqueles que sacrificarão de 500 até mil reais para que o Senhor possa atendê-los, e assim por diante, até que se chegue a quantias mais módicas, de cinco a vinte reais. O ritual sempre se repete. O pagamento pode ser feito por cheque, dinheiro e a maquininha de cartão de crédito está presente, dá pra parcelar. Quando passam por mim penso em entregar o cartão sem a senha, esperando alguma reação feliciânica, mas não faço nada. São muitos os que ofertam e pagam o dízimo, uma considerável maioria. Dois fiéis sobem ao palco para assinar cheques de 500 reais em troca da promessa de que suas cartas seriam entregues pessoalmente às mãos de Edir Macedo, bispo soberano da Universal.

 O auge da frenética reunião é a Sessão do Descarrego. Depois de vários minutos com todos em pé, orando e cantando, a narração impetuosa do pastor nos dirige ao centro do salão para que se caminhe sobre o Vale do Sal (um tapete de pacotes de sal amontoados pelo chão) onde os maus espíritos que nos atordoam queimariam com o poder da nossa fé. Uns quarenta obreiros ficam ao nosso lado, pregando contra as entidades diabólicas que podem ter se apossado dos fiéis. Enquanto caminhamos eles botam a mão firmemente nas nossas cabeças e invocam Jesus numa pregação ininterrupta. Perdi as contas de quantos fiéis entraram em transe, foram muitos. Alguns estremecem ali mesmo, entre as cadeiras, e os obreiros os assistem no ritual para expulsar tudo de diabólico que os domina. Ao meu lado vejo um homem chorando quase que inconsolável após uma tremedeira intensa. Mas não era tudo. Os casos mais severos são levados para cima do palco, junto ao pastor e seus assistentes mais graduados. Sete pessoas, três homens e quatro mulheres estão ali – e estão simplesmente incontroláveis. Se debatem, choram, gritam, desmaiam. O pastor pede que um assistente leve uma mulher a frente e o que se passa me parece produto de ficção. Com a câmera ao lado, de microfone em punho, o pastor entrevista uma mulher com os traços desfigurados de tão tensionados. Quando pergunta qual é o seu nome, ela responde, com uma voz tão desfigurada quanto o rosto: eu sou a Pomba Gira! Eu vim destruir o casamento dessa mulher! Essa é uma entrevista com um espírito do Diabo, diz o pastor. Aí se faz um dos poucos silêncios a que me referi – e esse silêncio diz muito. O assombro é geral, mas nenhum em tom de descrença. Aos poucos começam orações pela salvação da mulher, logo depois as rezas formam um coro estrondoso. A entrevista segue nos tons do sobrenatural até que os pastores se reúnem na volta da possuída em um momento de êxtase. Num clímax efervescente clamam aos berros pela ajuda do Senhor para expulsar aquele espírito e devolver a Deus o destino daquela vida. De tudo que já vi, essa foi uma das coisas que mais demorei em acreditar que acontecia. Algumas pessoas do meu lado choram. A mulher dá um grito e apaga. O pastor a abençoa. Ela volta ao normal e perde o fôlego de tantas lágrimas em agradecimentos a Jesus.

 É impossível não pensar que se viesse até mim uma revelação, vai que tenho uma visão ali no meio, me converto para a vida inteira, faço propaganda com Malafaias, abraço Felicianos, testemunho sobre minhas passadas degenarações, seria um bom garoto propaganda. Jesus queimará os espíritos do Diabo! continua o pastor, já iniciando os procedimentos finais. Ou então, vai que meus olhos reviram e digo sou Jesus vim para abençoá-los, saio flutuando, agradeço aos fiéis pela lealdade e pelo farto salário, eu disse que voltaria e cá estou, ajoelhem-se que é chegada a hora do Apocalipse e só aqueles que ofertaram irão para seu lugar já estabelecido no Céu, cheques sem fundos não foram contabilizados e com os cartões de crédito há certa ponderação, não pensem que o Paraíso é dado às extravagâncias financeiras. Mas não. Dos calafrios que senti, nada de celestial me veio.

 Quando volto atordoado à rua penso em quanto me impressiono: o pastor, a igreja, os discursos. Tudo é um choque, tudo desnorteia. Há uma coisa, porém, que se percebe muito mais, que toca muito mais lá dentro de qualquer coisa que se pareça com alma. Essa coisa se vê nos olhos das pessoas que dizem os tantos améns, que ofertam o quê por vezes não possuem na promessa de que aquele deus possa se lembrar por um momento delas. Uma coisa que me impressiona mais que o choro dos possuídos: é que há, em cada um daqueles olhares, uma das maiores sinceridades que já vi.

 Existisse um deus e ele não acreditaria no tanto que acreditam nele.

Por Jonas Lunardon