EFEITO DA INDÚSTRIA COLATERAL IV

IV

Nos primeiros dias, Gustavo sentia-se estranho, náusea, tontura, enjoos  diarreia e tremores nas mãos. O corpo estava se defendendo da intoxicação do remédio, era uma guerra civil inflamando no seu organismo. Não sabia se aquilo era fruto de uma purificação interna ou se aquela droga estava o envenenando de fato. Por via das dúvidas seguiu em frente resistindo como de praxe. Gustavo sabia que, das duas uma, ou ia superar as suas crises sociais e conseguir enfim um motivo de estar no mundo ou ia simplesmente ser moldado por uma medicação que não cura, mas sim controla seu corpo, o fazendo esquecer-se de sua condição de escravo dos porões industriais. Ou quem sabe as duas conseqüências nem sejam excludentes!? Excludentes ou não, tudo era melhor do que a (sobre)vida que estava carregando nas costas. Afinal, pessoas que pensam muito sofrem muito. Seria muito melhor para Gustavo ser acéfalo e ainda por cima receber todas as recompensas que aquele personagem do vídeo de divulgação teve como dádiva. Mesmo assim, mesmo com tudo isso, Gustavo ainda continha esperanças de poder um dia dançar sem ser pisoteado pelo mundo ou por si próprio.

Eram tão sutis as mudanças de comportamento durante o tratamento que Gustavo nem reparava. Os enjoos já haviam sido superados. Parecia que somente os examinadores conseguiam identificar as nuances de cognição do jovem “paciente”. Um paciente já impaciente. Surgia uma ansiedade de viver que lhe interrompia o sono, dormia de cinco a seis horas pulando da cama. Corria para o laboratório costurando os transeuntes do calçamento como se fossem animais no meio de uma auto-estrada. Gustavo brilhava. Já não precisava mais chamar atenção. Estava totalmente aí para os outros mesmo que eles nem correspondessem. Mostrava-se presente, pois se mostrava cada vez mais identificado, mais seguro de si. Criou mais corpo, seu sangue era mais visível através das veias, e mais acalentado também. Tão pulsante estava se sentindo que se tornara mais impulsivo, mais preocupado com a morte, portanto com ânsia de viver. As esperas nas salas de exames eram mais desesperadas. Paciente impaciente, pulsante e impulsivo, espera e desespero.

Perto do final do tratamento, Gustavo já tecera planos à curto, médio e longo prazo. Se não arranjasse algum serviço ou trabalho logo, comeria suas próprias unhas. E foi o que fez. Entrou como garçom em um restaurante qualquer, para a satisfação de seus examinadores que, a cada dia que passava, mais entusiasmados com sua criação ficavam. Gustavo trabalhava oito horas, seis dias por semana, freneticamente anotando pedidos, oferecendo a carta e os pratos da casa, carregando bandejas, limpando mesas. Com seu salário mais a grana que recebera do laboratório, resolveu investir no conforto da sua casa, já que chegava exausto do restaurante. Sofás mais aconchegantes, quadros neutros, um barzinho e, finalmente, uma televisão para entretê-lo. Sentia-se cada vez mais completo e seguro do que fazia, e cada vez mais adotava enquanto recompensa o que recebia, fruto de seu próprio mérito. Gustavo era alguém. Ninguém conhecia de fato Gustavo. Mas Gustavo se sentia alguém. Alguém que fazia parte do mundo. Nem a morte e nem a solidão eram mais convidadas em sua casa. Gustavo tinha identidade, finalmente. Gustavo voltou a ter medo, pois tinha identidade para se defender. Gustavo era trabalhador. Gustavo era consumidor. Gustavo era.

Sua euforia quase o fez esquecer-se do seu sonho de dançar. Contudo sabia que à longo prazo ia ser possível ser aquele indivíduo que produz cultura. Primeiro haveria de se concentrar em apenas ser. Potencializar sua existência e sua identidade terrena. Concentrar-se em sua vocação. Conhecer este novo mundo que antes o cegava. Sua prioridade seria essa levando em conta sua nova apreensão linear do tempo. Agora estava acompanhando o mundo. Entendia seus signos e linguagens. Via com clarividência tudo que era primeiro plano e plano seqüência. Vida sintáxica, no sentido denotativo. O que consumia era objeto do seu prazer, ou seja, já se via no caminho certo de seus objetivos. Isso o tornava mais e mais eufórico. Saia para a rua de olho para o futuro que o esperava. Tão à horizonte mirava, que sem querer, tropeçou em um chapéu cheio de moedas espalhando-as pelo chão. O chapéu pertencia à um artista de rua que, sem deixar de sorrir perante o incidente, continuou a dançar sua performance ao público. Gustavo enrubesceu-se, havia se distraído com o grande outdoor da indústria farmacêutica com seu mais novo lançamento.

Por Rodrigo Isoppo