Táticas

Anos atrás eu era mais enlouquecido pelas táticas do futebol. Três zagueiros, alas e essas coisas. Jogava jogos que simulam táticas, times. Provavelmente alimentava ser treinador. Depois vi que o lado mais humano do futebol, seus personagens e os torcedores, me tocam mais. Mas nessa coluna vou voltar a essa fase da vida mais nerd.

Táticas. É bem verdade que passou um pouco aquele período do Super-Técnico aqui no Brasil no fim dos anos 1990, em que os treinadores eram talvez mais badalados que os jogadores, mas ainda é a tática um belo refugio para treinadores e comentaristas esportivos mais ousados.

Talvez o maior estímulo para essa coluna seja a dupla Gre-nal este fim de ano. De um lado, o ousado Renato Portaluppi surpreendendo com viradas táticas, de outro um Inter que entrou em um espiral negativo e variou um pouco a estrutura que dava certo no primeiro semestre e acabou por trocar Dunga por Clemer.

Mais ai entra o torcedor comum. Que pede pela garra, pela raça. Que às vezes não entende um terceiro volante ou um centroavante que não faz gol e mesmo assim ‘ajuda o time’ e continua com a 9. Como Barcos e Damião.

Renato opta por ficar sem Zé Roberto, sem Elano, sem Máxi Rodriguez e sem Guilherme Biteco. Joga com três ‘volantes’ e foi assim que alavancou uma classificação surpreendente no campeonato Brasileiro. Para começar não são três volantes. Mesmo que o termo volante se alastrou como definição de um meio campo marcador, é importante frisar que o volante é aquele, normalmente o segundo homem do meio campo, que faz o vem e vai, que tem a capacidade de marcação e de saída de bola. Este é, por exemplo, o problema de Willians no Inter, um bom marcador, que se movimenta bem, mas distribui mal. Volante é Ramiro e Riveiros, e somente com figuras como eles que funciona um sistema sem meia armador ou meia atacante. Ramiro e Riveros se posicionam a frente do centromédio Souza. Avançam com a bola, dão opções de ataque, finalizam, assistem e até marcam gols. Lembram, características de jogo à parte, figuras como Goiano, Tinga, Paulinho e Hernanes. Souza, como dito, é o centromédio, o carregador de piano. E com raríssima habilidade para a função.  O esquema do grêmio funciona, ou funcionou, na exigência lógica e fundamental do futebol de preencher os espaços.

Assim o Grêmio abdica da qualidade técnica e visão de jogo de Máxi, do poder ofensivo de Zé Roberto e Elano, bem como a criatividade e a bola parada, e a velocidade de Biteco. Com Ramiro e Riveiros o grêmio preenche espaço como ninguém hoje no futebol brasileiro. Parece que até o Maracanã vira pequeno para o adversário. Alex Telles e Pará são outros elementos que fortalecem o esquema. Longe de serem péssimos marcadores, é inegável, no entanto a melhoria dos dois como alas e não mais como laterais. Os zagueiros gremistas, agora protegidos, são vistos com confiança, tanto jogando com Saimon, Gabriel, Bressan, Rhodolfo ou Werley.

Além do 3-5-2, Renato inovou com um 4-3-3. Kleber e Vargas posicionados numa linha média entre os volantes e Barcos, pelos lados davam consistência ao time. Na verdade fazem a função que na Europa no esquema 4-5-1, tem os Wingers, meias atacantes que jogam pelos lados. Este foi o esquema das finalistas Itália e França na copa de 2006. A França com Ribery e Malouda nos lados, Zidane pelo meio, numa linha de três atrás de Henry. A Itália com Camoranesi, Perrotta e Totti, com Toni na frente. Hoje é o esquema que mundialmente consagra o estilo de jogo de Ribery, Robben e Cristiano Ronaldo e fazem com que os craques sejam taticamente perfeitos. A lógica é simples: recuar atacantes. Eles não deixam de ser atacantes e não viram marcadores, mas ajudam na marcação do time pelo posicionamento recuado.

Talvez seja o esquema perfeito para o Inter que possui vastas possibilidades ofensivas e pelos lados, como Otavio e Jorge Henrique, ou ate Forlán que joga assim no Uruguai, e utilizando D’alessandro como Totti ou Zidanne, mas com a qualidade rara de movimentação que tem o argentino. Assim cria uma linha de 4 atrás, já que Kleber e Gabriel  cada vez menos regulares na carreira possam ter companhia efetiva quando avançarem.

Mas esquemas são esquemas. O Inter perdeu e empatou com todo tipo de esquema e jogadores. O grêmio perdeu para o Criciúma em casa jogando com três meio campistas de armação e incrivelmente jogou ‘melhor’ que nas vitorias contra o São Paulo e o Botafogo. Perdeu por duas bolas paradas, que foge a tática, e depois empatou com sorte, mesmo com um a mais, com o Fluminense. Colocando, talvez, uma pequena dúvida quanto à necessidade de mais poder de retenção e de qualidade de passe, ou seja, Elano ou Zé Roberto, principalmente quando está a frente do marcador, já que a entrega do time na marcação e na movimentação é natural que desgaste nos momentos finais de uma partida.  No fim, os torcedores também tem inúmeras razões, às vezes falta raça, falta comprometimento, as vezes falta sorte, as vezes os treinadores sabem coisas que nós nunca saberemos. Às vezes Barcos e Damião simplesmente não conseguem render. 

Por Chico Guazzelli