Apito Mudo

imagem arbitros

Os olhos marejados da criança não saem dele. Camisa do uniforme para dentro do calção, a passos largos desfila ao longo do campo enquanto os outros correm. Com maestria aparece em todos os momentos cruciais do jogo. A criança o assiste na beira do campo de areia, como se olhasse para o seu futuro numa espécie de filme nostálgico. 

Tudo acontece num grande estádio, uma espécie de arena pós-moderna. Cheia de pinturas, faixas, patrocínios e outras poluições. Dentro das quatro linhas, porém, a ilusão é a mesma. A alegoria é a mesma da várzea, da praia, do colégio e da praça. E o jovem adolescente, perdido sem personagem ou papel na trama toda, com brilho em seu olhar, se destaca. 

Anos passados, jogos passados. Sem tempo para treinar, sem tempo para viver ele continua profissional, sem profissão. Dos seus sonhos os anos acrescentaram os xingamentos, os erros, as punições, as viagens, pagamentos pequenos, o segundo trabalho, a faculdade e a insegurança que só essa ‘profissão’ pode fornecer. E do seu amor virou um amador.

A realidade do futebol não é bem como fazem imaginar os holofotes, comerciais e as grandes competições. Os grandes clubes e jogadores representam apenas uma parcela de todos os envolvidos nesse entretenimento – que já superou há muito o status de esporte. Mesmo nos grandes jogos, alguns se destacam em meio a tanta riqueza e fama. Centro das atenções por seus erros, nunca pelos acertos, os árbitros de futebol e os bandeirinhas nem de longe usufruem das maravilhas do futebol dito profissional. Sem garantias, sem condições de trabalho e sem vínculo, esses profissionais no Rio Grande do Sul, no Brasil e na maior parte do Mundo são amadores. Dos grandes centros do futebol, as principais exceções são a Inglaterra, onde os juízes têm garantias, salários e exclusividade, e a Argentina, em que os árbitros possuem remunerações fixas. Nesse contexto ser chamado de filho da puta todos os dias passa a ser um mero detalhe.

CURSOS: ÁRBITRO É DIPLOMADO

Um árbitro começa a ser formado ao fazer um curso de arbitragem. Aqui no Rio Grande do Sul a formação é feita pela Federação Gaúcha de Futebol (FGF), onde Luís Fernando Gomes Moreira exerce o cargo de diretor da comissão de arbitragem – um cargo executivo da federação. Ao longo do curso, para a aprovação do árbitro, são feitas três provas teóricas e duas físicas.  Mas a aprovação no curso não é nem de longe o único pré-requisito para ser um grande árbitro. A profissão se divide em três categorias conforme pude ver em uma tabela que Luís Fernando me mostrou em sua sala na sede da FGF, na Travessa Francisco Leonardo Truda, no centro de Porto Alegre. Na primeira estão os árbitros formados pela federação e que não possuem e nem cursam algum curso superior. Estes árbitros podem participar de categorias infantis e juvenis, em campeonatos não oficiais. Aqueles que entram em um curso superior tem seus nomes colocados no ‘rabo da cobra’, em outra categoria, e podem apitar apenas jogos das divisões de acesso. Por fim, estão os juízes conhecidos e repudiados pelos nossos imaginários diariamente. Árbitros formados pelas comissões e com ensino superior completo. Ou seja, nossos principais árbitros e assistentes são diplomados, como explica Ciro Camargo, presidente do Sindicato dos Árbitros de Futebol do estado do Rio Grande do Sul (SAFERGS). “É uma nova orientação da FIFA observada e atendida pelas confederações e federações. Hoje no mundo inteiro é assim. E vamos combinar, a universidade ainda não está franqueada a todos os brasileiros. É uma casta privilegiada que tem acesso às universidades. Imagina quantos milhares são alijados dessa condição. Quantos talentos não têm? Não é profissão e ainda foi estabelecida uma norma totalmente discriminatória.Tu pode ser o maior árbitro da história e sem curso superior vai morrer na várzea.” 

SINDICALISMO

 Árbitro por cerca de 20 anos, Ciro Camargo me recebeu em sua sala em um prédio da Borges de Medeiros, treze anos após sua despedida dos gramados, realizada em um jogo festivo no estádio Beira-Rio. Hoje milita pela profissionalização da profissão mais famigerada do Brasil – pelo menos nas quartas feiras à noite e nos finais de semana – Com cerca de 300 membros, o sindicato existe pela crença de pessoas como ele. “O sindicato dos árbitros é uma figura jurídica. Mas o que é um sindicato? É uma entidade que existe para defender os seus associados como profissão. O árbitro de futebol não é profissão. Então o sindicato existe por uma ideologia”. Ideologia que nada tem a ver com representatividade na melhoria das condições de trabalho dos árbitros. “Nós fomos marginalizados, nós temos uma relação de harmonia com a federação, mas é cordial, institucional. Não tem a parceria, o Sindicato não tem o respeito que deveria ter. Espero que um dia os sindicatos sejam obrigados a serem escutados, a terem função, terem a importância devida na formação, na qualificação e na manutenção de um árbitro.  Nós não temos amparo legal, simplesmente somos os marginais do Brasil”, desabafa o presidente. Atualmente a luta é para compor uma federação nacional dos árbitros. Hoje existem quatro sindicatos dentre os 27 estados, no Rio Grande do Sul, São Paulo, Ceará e Minas Gerais. Mas são justamente cinco sindicatos com carta sindical o exigido para se criar uma federação. No Paraná, o sindicato que estava ‘adormecido’ deve completar o projeto para a FEBAF. Portanto, somente em 2012 está se planejando uma Federação Brasileira dos Árbitros de Futebol que deve absorver a ANAF (associação) e ser representativo para os árbitros de futebol. “Tem um interesse muito grande. Os presidentes de sindicato se acomodam. A CBF faz o que quer. Nós temos uma associação nacional de uma profissão que não existe. É até engraçado”, comenta Camargo.

ARBITRAGEM COMO SEGUNDO TRABALHO

Hoje em dia os árbitros passam por uma série de obrigações, como apresentar semestralmente as federações alguns documentos. Entre eles, está um atestado de trabalho. “É uma hipocrisia, tem que comprovar que tem outra profissão, para demonstrar que não precisa da arbitragem para viver para não ser comprado!” comenta Ciro Camargo. 

Essa exigência também desagrada o diretor de arbitragem da FGF, Luis Fernando Moreira. “Normalmente o cara vem pra cá com curso superior e se depara com uma realidade: a incompatibilidade de horário. O cara tem que repetidamente pedir licença no emprego. Muitos deles compensam suas faltas nas férias. É um sistema extremamente fugaz em cima dos árbitros. Não sou advogado deles, sou diretor deles, mas eu tenho que colocar a realidade: ou se muda um sistema de atenção aos árbitros, ou vai melhorar só um pouquinho em relação ao que está aí. Ninguém quer se comprometer em pagá-los como deve ser”. 

Esta impossibilidade prática e legal de viver da arbitragem no Brasil acarreta problemas na preparação dos profissionais. Esta é feita nos momentos de lazer, quando não estão nos afazeres profissionais ou apitando e bandeirando partidas. A parte física precisa estar sempre intocável, pois a cada seis meses os juízes e bandeiras são submetidos a rigorosos testes físicos. “O teste é terrível! Os caras da imprensa não entendem. É o teste FIFA que se aplica. Se o cara não treina todos os dias ele não passa. Ai tem que trabalhar das 8h às 12h e das 14h às 18h e às 19h vão correr. Tu precisa ter uma elevada carga de vontade, não é verdade? O árbitro acaba treinando no jogo”, revela o diretor. 

O PROBLEMA

 A cada rodada uma polêmica nas partidas de futebol. Este ano foi repleto de crises, rotineiras mudanças nos comandos das arbitragens, punições e, ainda, sanções dos clubes que exigem não ter seus jogos apitados por este ou aquele árbitro ou bandeira. As televisões registram cada segundo e cada ângulo dos movimentos das partidas. As rádios e tevês preparam profissionais como analistas de arbitragem. “Tem mais erro e é mais visto. Por causa do vicio da formação. A situação é insolúvel. A arbitragem ta ruim? Vai piorar. Enquanto não mudarem essa estrutura, essa filosofia de exigir faculdade, o caos ta instalado”, opina Ciro Camargo. Que outra profissão o erro é tão mostrado? Cada erro é mostrado em vinte cameras e pode causar a perturbação do juiz na partida, como afirma Luís Moreira:
“Não se dá o direito do ser humano de errar! Se errar, no outro dia é manchete. Isso no psicológico afeta.”

Com os bandeirinhas pode se dizer que a dificuldade e a cobrança são ainda mais complicadas. Eles têm que ter a visão correta da linha dos últimos jogadores na exata hora do lançamento. Qualquer centímetro deslocado altera sua visão. Visão que sempre se destina a lances capitais como pênaltis, impedimentos e saída de bolas nas linhas do campo. Camargo resume: “É pior ser bandeira. O erro é definitivo, é como um goleiro. O árbitro erra no atacado e o bandeira no varejo.”

AS DIFICULDADES NO AMADORISMO

Hoje, por exigência da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), o encerramento da carreira de um árbitro no quadro da entidade se dá aos 45 anos. Foi reduzido em 5 anos a marca que antigamente era de 50. Com isso, o árbitro, para entrar entre os principais representantes
do país e até sonhar em aspirar ao escudo da FIFA em seu distintivo, tem que ter até 30 anos (antigamente eram 35). Ciro Camargo faz as contas: 

“Para estar fazendo faculdade, digamos, tu tem 18 anos. Com 22, sendo bonzinho, tu está com a universidade fechada. Em qualquer coisa! Pode ser veterinária ou ginecologista! Aí com 22 anos tu está apto para apitar. Só que arbitragem não se faz em um ano. Exagerando, tu faz 40, 50 jogos por ano. Em 5 anos teria feito 250 jogos, que é muito pouco. Não tem treino, treino do arbitro é no jogo. Então tu te forma como arbitro e na faculdade com 22 anos. Aí tu evolui nas categorias e digamos que em dois anos tu tá aspirando para o quadro da CBF. Tu tem 6 anos para algum dos árbitros da CBF fazer 45 anos e sair do quadro.”

Sem salário fixo, os árbitros recebem por jogo apitado. Os valores dependem das competições e do grau de carreira. No campeonato Gaúcho, por exemplo, os rendimentos, determinados por uma negociação do sindicato com a federação, estão em torno de 1,5 mil reais por jogo para um árbitro FIFA (50% a mais que um árbitro não Fifa) – a entidade escolhe ao redor do mundo árbitros e bandeiras para o quadro da entidade –; os bandeiras FIFA recebem metade; os árbitros principais que não são FIFA recebem em torno de 1 mil; e o bandeira não FIFA recebe metade deste. No caso do Brasileirão, o valor para um arbitro FIFA é em torno de 3 mil reais na Série A. Estes números, por mais otimistas que sejam tendo em vista outros países da América Latina, por exemplo, ficam muito longe do que ganham jogadores, técnicos e dirigentes esportivos. E é claro, nas séries inferiores os valores são muito abaixo destes, que são os que abarcam apenas os principais árbitros do país. Além disso, o estatuto do torcedor, sancionado pelo governo Lula em 2003, exige que os árbitros, em competições regidas pela CBF, sejam escolhidos para as partidas por sorteio. Isto para evitar possíveis complôs e apadrinhamentos nas escolhas, o que faz com que um árbitro dependa da sorte para receber mais ou menos em um mês. A falta de profissionalização aumenta ainda mais as dificuldades já impostas nas partidas e nas cobranças. Os árbitros não têm academias, salas de edição de jogos, palestras, nem qualquer acompanhamento disponibilizado pelas entidades. As mudanças são fundamentais, como comenta Luis Fernando Moreira.

“Teria que ter uma nutricionista e uma psicóloga. Pô, o psicologico é uma das chaves do problema. Imagina todo dia os caras dizendo ‘tu
roubou, sem vergonha’… abala a pessoa.”

Ciro Camargo também sugere mudanças:

“O futebol está muito dinâmico, o treinamento tem que abranger várias coisas. O árbitro tem que ser um atleta, porque é muita competição. No Brasileiro é avião, aeroporto, avião… Eles acabam estourando. Os clubes profissionais estão monitorando tudo nas condições físicas dos atletas. Teria que ser assim. A nossa pré-temporada por exemplo, é de três dias! A FGF banca três dias em janeiro para fazermos uma pré-temporada que não vale nada de valência física, só serve para orientações, é uma tentativa de padronizar o comportamento. Durante o resto do ano cada um cuida da sua vida.” 

CURSOS CHEIOS, CAMPOS VAZIOS

Apesar dessa dura realidade da categoria, os cursos de arbitragem da FGF estão sempre cheios e não raro a matrícula é cancelada por atingir o máximo de vagas possíveis. Mas afinal o que atrai as pessoas para serem árbitros de futebol? Ciro Camargo responde: “Tem a vocação, mas tem outra situação. Hoje em dia, tem um grande percentual de universitários que se dispõe a fazer o curso para acumular pontos para concursos públicos. Hoje em dia tem árbitro de apartamento. É uma casta privilegiada que tem Ipad, Ipod, Iphone, notebook, o seu carrinho, mora bem e não vai trabalhar no fim de semana na várzea, onde era forjado o árbitro.” 
O diretor da categoria, Luis Fernando complementa: “Já tem gente esperando para fazer o próximo curso. Os caras vêem que tem árbitro que ganha 3 mil por jogo, mas quantos anos ele está na arbitragem? O Vuaden (árbitro gaúcho do quadro da FIFA) é de 97! Aí o cara vê a realidade e começa a sair. Desse grupo aqui (mostra uma lista) tem mais de 30, v

ê quantos sobraram (mostra outra lista com cerca de
12 nomes). Não tem uma definição de carreira.” 

O QUE FAZER? PROJETAR

“Eu penso que quem teria que fazer os árbitros seria o sindicato, mas ele não tem verba. Hoje o sindicato não tem participação no curso da federação,  desde a entrada do presidente Noveletto (na direção da FGF). A gente está batalhando para mudar isso. Eu acho que quem tem que formar os árbitros são os árbitros e o sindicato fornecer e escalar os árbitros. Mas apesar da opinião de Ciro camargo, quem escolhe os árbitros para o sorteio é a comissão de arbitragem da FGF ou das outras federações regionais ou, no caso das competições nacionais, a CBF. A principal crítica do sindicato é que as federações são formadas pelos clubes, O que acaba tornando os árbitros   e a comissão de arbitragem reféns das escolhas dos clubes.

O pessimismo do presidente do SAFERGS, Ciro Camargo, contrasta com o seu otimismo com relação a um projeto de ensino que ostenta na parede de sua sala. 
“Meu projeto (apontando para a planta desenhada na parede): a criança entra de manhã na escola, estuda um turno na escola regular e de tarde vai praticar um esporte, de preferência a arbitragem. Imagina a criança começar com 10 anos a praticar o esporte? Quando ele sair da escola ele pratica há oito anos. Com 20 anos, podemos ter um grande árbitro. Mas eu estou sozinho nessa. Tem tudo por fazer e pouca gente e vontade política.”

Por Chico Guazzelli

Fotomontagem: Martino Piccinini