Alguma coisa sobre Gravidade

            Chega a surpreender. Ao contrário do que prega o oba-oba publicitário, Gravidade está longe de ser um arrasa-quarteirão. Difícil manter a serenidade diante de um filme que já entra em cartaz sob uma nuvem de comentários delirantes: “é o novo 2001”, “vai ser o grande filme da temporada” – num ano que teve Tabu (obra-prima de Miguel Gomes que mesmo convidando ao baile Tom Jobim, Murnau, Crocodilo Dundee e Ramones, permanece fora do metro quadrado da cultura pop) nem que Alfonso Cuarón resolvesse filmar o big bang em 3D. Aliás, por conta de um acúmulo de estreias atrasadas de 2012, Porto Alegre está vivendo um ano recheado de grandes lançamentos – As Quatro Voltas, Mistérios de Lisboa, Holy Motors, A Caverna dos Sonhos Esquecidos, Hahaha – o que deixa a promessa da propaganda de Gravidade um tanto quanto impossível. 

             Mas é bom deixar de lado o que está ao redor e ficar com o que interessa. Por trás da grandiosidade virtuosa de algumas sequências, Gravidade me dá a clara impressão de ser um filme pequeno. Não existem grandes reviravoltas, nem muitos desvios narrativos, há uma história que segue sempre em linha reta até o ponto final. Perto do festival de excessos dos roteiros hollywoodianos dos nossos dias, com aquela complexidade didática que engana um labirinto e oferece um quarto e sala, a obra de Cuarón cai nas salas de cinema como um saudável sopro de simplicidade. Por mais que a premissa do filme – dois astronautas à deriva no espaço – já iniba um roteiro rocambolesco, não há dúvida de que o mexicano poderia inventar mil e um obstáculos (externos ou internos), transformando sua intensa aventura minimalista numa longa jornada espaço adentro. Nesse sentido, pra ficar num parâmetro spielbergiano de entretenimento, Gravidade é muito mais Encurralado, aquele incrível filme que se resume a um motorista sendo perseguido por um caminhão na estrada, que qualquer outro blockbuster que virá depois.

             Há apenas um obstáculo interno que invade o filme como um intruso incômodo: de repente, quando os astronautas ainda nem têm total consciência do que vivenciam, descobrimos a troco de nada um passado traumático da personagem de Sandra Bullock, algo que pautará inevitavelmente toda e qualquer ação dali em diante. Impressionante como o cinema norte-americano atual, com raras exceções, não consegue mais dar conta daquilo que está em frente à câmera. É preciso impor outras camadas, encontrar um sentido além da cena, “agregar valores”, para usar um jargão executivo que combina com essa burocracia narrativa. Gravidade começa a perder força, aproximando-se perigosamente de uma trama metafórica, quando a personagem deixa de ser uma mulher que respira angustiada e rodopia vertiginosamente no espaço para se tornar uma mãe de frágil condição emocional que experimentará uma espécie de jornada de renascimento. Da história de sobrevivência imediata ao drama da superação, Cuarón derrapa numa concessão desastrada ao melodrama que quase transforma um filme de cinema puro (que se sustenta pelo que está acontecendo) num filme frio de roteiro (quando toda sua potência está em algo externo e invisível à ação). E Gravidade começa tão bem, no meio de uma ação, sem que saibamos quem são aquelas pessoas…

           Um contraponto: O Imigrante, novo filme de James Gray, exibido no Festival do Rio (entrará em cartaz no Brasil no próximo ano). A todo o momento, por ofício, curiosidade ou amor, os coadjuvantes desejam desvendar o passado da personagem de Marion Cotillard – uma polonesa que foge da Europa em guerra e chega à Nova Iorque do início da década de 1920. Todos querem saber o que ela fazia em sua terra natal, mas sua história anterior permanece um mistério. O filme até nos permite desconfiar de alguma coisa, mas através daquilo que testemunhamos nas ações da personagem. Porque James Gray abraça as negativas de Cotillard em relação ao passado, consagrando com uma paixão enorme as afirmativas de seu presente: cada mínimo gesto, cada movimento de seu corpo, cada suspiro intranquilo, cada olhar enorme. É tão bom (e cada vez mais raro) quando um filme nos dá a impressão de que o personagem respira. Sandra Bullock praticamente deixa de respirar quando descobrimos que há algo mais importante do que aquilo que ela está de fato enfrentando. Ao menos Cuarón deixa claro, com uma honestidade sem tamanho, que é um cineasta limitado para conseguir roubar esse tipo de intensidade de um ator – algo que James Gray tira da manga com certa facilidade.

             O talento do mexicano aparece em outros terrenos, especialmente na medida exata do virtuosismo que dá o tom na primeira meia hora do filme. É formidável como no plano-sequência de abertura a câmera consegue flutuar no espaço e também dar conta da ação, num trabalho complexo que toma distância da pirotecnia em piloto automático do blockbuster contemporâneo de Nolan e cia. Dessa forma, Cuarón consegue impor uma experiência subjetiva ao espectador e ao mesmo tempo deixá-lo com alguma noção do que acontece, sem cair na cilada de achar que a câmera deve ser nossos olhos. A clareza se perde, naturalmente, com o acidente: ficamos zonzos e sem oxigênio assim como a personagem. A partir do momento em que as coisas se estabilizam e a aventura precisa continuar, o equilíbrio perfeito da cena de abertura dá lugar a escolhas funcionais que jogam o espectador de um lado para o outro, entre a experiência literalmente subjetiva (de estar nos olhos dos personagens) e a experiência sensorial (de estar flutuando ao lado deles). Da vertigem ao conforto: o impacto da cena de abertura, de longe o grande momento de Gravidade, me parece vir do fato de que, antes mesmo do acidente, o espectador é situado numa posição de incertezas, há muitas coisas que escapam dos nossos olhos. Com o decorrer do filme, a impressão é a de que Cuarón desiste dessa manipulação instigante para nos colocar sempre onde gostaríamos de estar.  

            Mesmo com as concessões a um drama psicológico que (felizmente) nunca ganha corpo de vez e a previsibilidade na condução da narrativa em algumas cenas capitais, é inegável que a aventura de Cuarón permanece instigante até o desfecho – mais do que qualquer outro blockbuster da temporada. Certamente a intenção do cineasta, ao construir um espetáculo de inspiração tão grandiosa, foi a de criar mesmo um monstro, um desses autointitulados divisores de águas do cinema contemporâneo que pautarão debates durante um bom tempo. Mas desconfio que a pista seja falsa. Gravidade me parece importante por alguma coisa que ele não é.  

Por Leonardo Bomfim