Malemolência Crítica

I

Consigo pensar em três maneiras gerais para escrever crítica hoje no nosso país:

A primeira forma é o resenhismo praticado em alguns cadernos de cultura, a valorização rápida e curta de um texto. O resenhismo é condenável por vários motivos – para mim, os mais graves são o fato dele ser manipulável por conta dos patrocínios que o ambiente midiático no qual ele está inserido recebe e a ideia que ele cria de que o crítico é uma autoridade, um especialista em literatura dotado do poder absoluto de dizer se algo é bom ou ruim. (Uma dica: não é).

A segunda forma é a acadêmica, o trabalho de compilar argumentos sólidos para tornar concreta certa tese, tudo inserido em regras determinadas pelos conselhos editorais das revistas. A crítica acadêmica, no Brasil, tem uma história rica e importante para os caminhos que a literatura seguiu no país. É só pensar no estado precário que a reflexão em torno das nossas letras se encontrava antes de Formação da Literatura Brasileira: Momentos Decisivos, de Antonio Cândido, publicado em 1959. Se Guimarães Rosa, Drummond, João Cabral e Clarice Lispector ajudaram a firmar o pensamento moderno dentro das nossas instituições literárias, foi Candido, ao lado de nomes como Décio de Almeida Prado e Afrânio Coutinho (todos da mesma geração), quem o firmou dentro da crítica, tendo também formado alunos como Davi Arrigucci Júnior e Roberto Schwarz. Os principais problemas da crítica acadêmica hoje se relacionam com o próprio ambiente acadêmico. As burocracias e hierarquias do meio, aliadas, muitas vezes, com outras questões estruturais dos departamentos, permitem que haja um grau alto de mediocridade e preguiça intelectual, além de criar uma distância nociva em relação aos que estão fora da academia. Claro que existem críticos importantes, como Eduardo Sterzi, Idelber Avelar (que, apesar de atuar profissionalmente fora do país, possui uma voz relevante entre os pares locais), Ana Paula Pacheco, Edu Otsuka, Regina Dalcastagnè, para ficar só nos que me ocorrem agora. Eles que são os responsáveis pela manutenção do pensamento, mas é inegável que os que fazem parte do lado negativo da balança acabam por prejudicar todo o sistema. Não vou citar nomes. (Pécora).

 A terceira forma desconheço se tem nome. É uma crítica que não está atrelada a nenhuma instituição em especial (apesar de transitar entre elas) e que dificilmente rende ganhos monetários ou glórias. É uma crítica moleque. Ser moleque, entretanto, não a impede de ser pretensiosa ou, por suposto, profunda. A crítica moleque pode fazer coisas que as duas primeiras são impedidas por motivos profissionais. Ela pode, por exemplo, não chegar a lugar nenhum. Ela pode, por exemplo, não dizer nada. O que importa é a maneira que ela chega em lugar nenhum ou diz nada. A crítica moleque, sustento, não é crítica: é um daqueles gêneros literários considerados menores, como o ensaio ou a crônica. Aliás, uma boa crítica moleque tem vários elementos de ensaio e crônica. Ela é a vingança violenta dos menores, atacando os maiores sem permitir defesa. Seja crítico moleque, seja herói.

    II

Traçar uma história geral da crítica moleque é um pouco complicado. Começar do começo, portanto: Aristóteles e Horácio certamente não foram críticos moleques. Eles possuíam método e nada é menos moleque do que método. Um bom crítico moleque ama Feyerabend e despreza Descartes. Um bom crítico moleque tem alma de anarquista e coração de pirata (para sempre saquear tudo que estiver à mão). O primeiro instante no qual o método é ameaçado é na obra de Vico, ali pelo século XVIII. Ou talvez antes, não sei. Seus sistemas e seus pensamentos que desafiavam os caminhos estabelecidos da época sempre correm perto demais de sua prosa meio torta, nem sempre clara. Não é por acaso que Vico é a influência primordial em Finnegans Wake, o texto moleque por excelência (the language is drunk, Beckett diz em certo momento quando fala sobre o livro de Joyce – deixar a linguagem de porre é muito moleque). Outro ponto do século XVIII: quando Voltaire resolve começar a criticar negativamente Shakespeare, mesmo após o francês ter passado anos levando a obra do inglês para o continente. São críticas divertidas e absurdas, muitas vezes iradas. Parece que Voltaire sabe que não tem razão no que está dizendo, mas continua a dizer. Um pouco mais para frente, já no século XIX, temos os escritos sobre arte de Baudelaire e Nietzsche, moleques pela sua raiva e pelo seu desprendimento. Baudelaire, inclusive, acreditava que a melhor crítica era um outro trabalho artístico sobre o objeto de análise (isso só vai se tornar real nos trabalhos de Godard e Truffaut, mas falo disso mais para frente). O século XX nos trouxe uma enxurrada de métodos e jeitos de criticar. O afã era tanto que em pouco mais de seis décadas, entre os anos 10 e 70, escolas inteiras se ergueram e foram destruídas em um curso mais rápido do que em todos os séculos passados juntos. Formalismo russo, marxismo, New Criticism, estruturalismo, pós-estruturalismo, desconstrucionismo e mais três a sua escolha. Tanto os críticos acadêmicos como os “independentes” sofreram com essa movimentação intensa no sempre instável terreno literário. O sofrimento, porém, é melhor que a bonança, pois permite crescer. As ferramentas que podemos extrair dos exageros nos permitem ter visões mais aguçadas.

A crítica moleque, porém, se mostrou firme. Ela deu os ares da graça em seu formato moderno no ano de 1946, quando Auerbach publicou Mimesis, uma série de textos que tratam sobre o conceito de real na arte e que abarcam desde Homero e a Bíblia até Virginia Woolf e Proust. Mimesis não é bem o que se espera de um livro de crítica literária. Em primeiro lugar, seu texto é legível, esmiuçado, evita cair em jargões – é, antes de tudo, o texto de um escritor talentoso e experimentado. (Auerbach trabalhou muitos anos com filologia germânica, em um tempo que as coisas eram levadas a sério. Deve ter lido mais livros do que eu e tu vamos ler em toda nossa vida). Depois vem o fato de que Mimesis é uma declaração de amor para a literatura e para tudo aquilo que forma sua constituição humana. Auerbach havia sido exilado da Alemanha por ser judeu e estava dando aulas na Turquia. Longe de casa, tendo que conviver com a ideia terrível de que seus familiares, amigos e conhecidos estavam sendo mortos em seu país natal – ao contrário de se desesperar, porém, ele escreve, escreve aplicando métodos e jeitos próprios de refletir e sentir os textos sobre os quais se debruça. Sua importância é imensurável. Ele foi, inclusive, uma influência importante para o jovem Candido e foi também saudado por Susan Sontag em seu muito moleque ensaio Against Interpretation como um exemplo a ser seguido.

Depois de Auerbach, o nome mais relevante que me surge para uma história da crítica literária moleque do século XX é o de Roland Barthes. Seu primeiro grande arroubo moleque se deu exatos vinte anos após a publicação de Mimesis, em 1966, com a escrita de Critique et vérité, livro no qual ele achincalha boa parte da crítica tradicional francesa resenhista que ainda dava as cartas na época. Vale dizer, claro, que Barthes seguiu muitas das correntes críticas que falei acima, mas seus melhores trabalhos são de fases nas quais ele era claramente moleque, como Le plaisir du texte (1973) e Fragments d’un discours amoureux (1977). A crítica de Barthes, seguindo o modelo de Auerbach, é escrita com talento e inteligência, sempre dobrando os métodos em prol das obras, nunca o contrário. Quando morreu em um acidente estúpido, muitos lamentaram ele nunca ter escrito um romance ou algum trabalho de ficção. A questão é que não era necessário. Os livros de Barthes de crítica reúnem um ideário estético mais rico do que grande parte dos romances publicados na França depois de 1970. Não seria muito absurdo, aliás, afirmar que Auerbach e Barthes são o núcleo duro do cânone da crítica literária moleque, mas há outras veredas críticas pelas quais vou me enfiar agora a fim de mostrar como o molequismo está em toda parte (e em parte nenhuma).

 III

Fala-se seriamente pouco de crítica de música pop, mesmo dentro do terreno dos Estudos Culturais. Tudo bem, já chegamos em um ponto que alguns artistas de música pop são reconhecidos (a indicação de Bob Dylan ao Nobel de Literatura é uma prova), mas a crítica é deixada de lado. Não sei muito bem o motivo, e, na realidade, não importa agora. A questão é que há dois grandes momentos para a música pop, antes e depois do mercado. Apesar de haver indícios de constituição dele desde a invenção dos discos de 78 rotações no fim do século XIX, ele só se firmou depois da entrada do LP, já quase em 1950. A explosão real desse mercado se deu um pouco mais de uma década depois, embalado principalmente pelas ideias de marketing e divulgação elaboradas em torno dos Beatles. Era um jeito completamente diferente de perceber e apreciar uma forma de arte que havia acabado de nascer – uma nova crítica, portanto, seria necessária. Ela encontrou abrigo em revistas inglesas surgidas entre as décadas de 20 e 50, como Melody Maker, Record Mirror e New Musical Express, e revistas estadunidenses surgidas entre as décadas de 50 e 60, como Rolling Stone, Creem e The Village Voice. Era uma forma de arte que ainda não possuía clássicos, apenas raízes, como o blues. Era preciso, portanto, compreender e escrever o contemporâneo, já que não havia passado. Essa é a real importância dos críticos de música pop: eles tiveram que aprender do nada como pensar, analisar e refletir sobre aquele tipo de arte, um dos tipos mais efêmeros e inseridos em uma lógica mercadológica. Entender como eles fizeram isso e as táticas usadas é de grande valia. O desafio começou a ser vencido habilidosamente por críticos que abraçaram estéticas de vanguarda jornalística, em especial o gonzo.

O primeiro nome relevante que me vem é o de Lester Bangs, o qual escreveu para várias das revistas citadas acima. Lester tinha o mesmo dom de Auerbach e Barthes: era um homem que sabia escrever. Duas de suas críticas mais famosas são particularmente importantes para mim: Astral Weeks, sobre o disco de mesmo nome de Van Morrison, publicada em 1979, na revista Stranded, e The Greatest Album Ever Made, sobre Metal Machine Music de Lou Reed, publicada em 1976, na revista Creem. A primeira é sensacional pela sua estrutura. Lester começa contando sobre uma fase difícil em sua vida, na qual o disco tivera grande impacto. Ele mistura informações recebidas de amigos, experiências vividas e dores muito pessoais para reconstruir a poética essencial das letras de Van Morrison e acaba citando um dos poemas mais bonitos de Lorca. O que ele diz é sincero e humano. Não importa se ele está falando sobre um disco de música, sobre um romance ou sobre um filme, o que importa é a maneira, é o atrito que há entre o ser humano e o mundo e o jeito que a arte atua sobre o conflito. A segunda segue esquema parecido, mas com o detalhe divertido de que Metal Machine Music é considerado um dos piores discos da história. A defesa apaixonada do disco possui, ao mesmo tempo, um tom de escárnio pela obra, que é eco da relação perturbadora que Lester teve com Lou Reed. É o retrato de um crítico que está tão envolto de seus objetos que não sabe mais se distanciar deles. O que poderia ser ruim nas mãos de alguém com pouco talento, se torna apenas maravilhoso com Lester. A lição de Lester é a mais importante: seja sincero. O problema geral das novas gerações de críticos de música pop é o mesmo de alguns escritores jovens, é achar que a ironia e o sarcasmo são abrigos, são formas de defesa. Escrever é perder todas as defesas.

Outros nomes me surgem. Robert Christgau, que apesar de usar uma estética mais comum, foi uma das primeiras pessoas a conseguir escrever sobre música pop de uma maneira mais profunda. Tony Parsons, que além de crítico é um autor de sucesso, e que cobriu como ninguém a onda do punk na Inglaterra, entre 1976 e 1977. Ian MacDonald, que, em Revolution in the Head, fez análises sérias e impecáveis sobre a música dos Beatles. Jon Landau, um dos responsáveis pela criação do mito em torno de Bruce Springsteen e um analista elegante das relações entre a música e a vida social nos Estados Unidos. Greil Marcus, possivelmente o único que possa competir com Lester Bangs, apesar de perder no quesito “qualidade como escritor”. O que me chama a atenção nesses críticos é a informalidade dos escritos, mas, ao mesmo tempo, a qualidade que possuem. São reflexões profundas até demais muitas vezes, as quais, porém, jamais apelam para citações, ligações, necessidade de provar conhecimento intelectual. O único método é desbravar o material, canções de três minutos e de três acordes, com a ideia de estabelecer um elo firme entre elas e a vida prática. O texto de Bangs sobre o disco de Van Morrison, por exemplo, é inconclusivo. Ele diz objetivamente não vai tentar explicar as canções. É uma crítica da emoção. E emoção é moleque.

 IV

A crítica de cinema até os anos 60 me parece seguir um caminho muito próximo da crítica de música pop. Ela estava trabalhando com uma arte nova, ainda sem clássicos e em franco desenvolvimento. Igualmente não havia passado. Desse cenário, surgiu um grande crítico moleque, talvez o maior de todos eles, André Bazin. A paixão de Bazin pela crítica era tanta que a sua influência sobre a geração que veio após a sua (os garotos da Nouvelle Vague) os tornou incapazes de dissociar a ideia de criação artística com a ideia de crítica. Os filmes de Godard e de Truffaut, por exemplo, creio, não são filmes, são exercícios críticos sobre o próprio cinema (a cena em Os Incompreendidos que emula uma cena de Zero de Conduta ou a Joana D’Arc de Dreyer aparecendo em Viver a Vida não são “intertextualidade”, mas sim formas de discutir a matéria), sobre marxismo, sobre sexo, sobre amor, sobre violência, crime, ódio, sociedade. Bazin foi o maior crítico moleque por, apesar de distender qualquer método, foi capaz de penetrar nas estruturas da arte, do cinema, no caso. Seu texto, como o de qualquer outro moleque, é divertido e próximo, bem escrito. Ele, como Lester Bangs ou Auerbach, soube que a sua vida estava intimamente relacionada com a atividade de buscar não uma fórmula, mas uma sinceridade, um jeito claro de comunicação entre os seres humanos e a arte. Uma das frases mais famosas de Bazin é a seguinte: “a função do crítico não é trazer numa bandeja de prata uma verdade que não existe, mas prolongar o máximo possível, na inteligência e na sensibilidade dos que o leem, o impacto da obra de arte”.

No fim, acho bobagem que exista uma divisão entre crítica literária, de música pop, de cinema, de artes plásticas etc. A crítica moleque é uma só. É o jeito que se olha para algo, não o que se olha. Há muitos perigos que rondam as artes, vocês sabem. O jeito de vencê-los é nunca permitir que a arte deixe de ser humana. Acho bobagem também toda a discussão entre alta cultura e baixa cultura. Se há sinceridade, desejo e humanidade, é arte. E sempre vai haver um crítico determinado e sério (mas nunca sisudo) para analisar e escrever de forma igualmente artística. É como diz a pichação na rua: o amor é importante, porra. Daquelas três maneiras gerais de escrever crítica hoje, a moleque me parece a mais necessária. O resenhismo é uma chaga e a academia, querendo ou não, é uma instituição, com todas as regras e enganos das instituições. Nós precisamos de trânsito e coragem. Não vou citar os críticos moleques que vejo pela Internet, pelas revistas e pelos jornais. Eles estão lá, batalhando. Como disse antes, isso não traz nenhuma glória. Mas é tudo que nós precisamos. 

Por Bruno Rodrigues