Analisar e transformar

O site do Tabaré conta agora com um correspondente do Rio de Janeiro que nos atualizará, principalmente no que cabe à política, sobre os últimos acontecimentos dessa turbulenta cidade. Com vocês, Daniel Furrer.

Analisar o presente é tarefa indispensável para se pensar o futuro. É esperado que um médico faça seu diagnóstico antes de receitar o tratamento adequado, o mesmo espera-se do engenheiro que planeja construir um prédio, do bombeiro hidráulico que veio consertar um vazamento e até do poeta boêmio que sente a onda bater e depois escreve e não o contrário. Estamos sempre analisando e propondo, observando e julgando, é assim que agimos em nossas vidas profissionais e também no que tange a nossos sentimentos. Se gostamos então continuamos, se odiamos tentamos romper, procuramos fazer o que nos deixa felizes e a partir do que conhecemos como felicidade procuramos repeti-la. Podemos analisar sem perceber e julgar sem querer muito facilmente, estas operações mentais são mecanismos já automatizados no convívio social.

No entanto, nossas vidas sociais são também vidas políticas e nossas ações vivendo em um grande emaranhado de relacionamentos entrecruzados atingem e transformam este conjunto social como um todo. Observamos a realidade à nossa volta e desta extraímos os nossos julgamentos morais, que por sua vez determinam nossas ações e terminam por influenciar e dar novos contornos à realidade inicial. Nesse sentido, somos agentes e pacientes de um processo histórico em contínua transformação originada a partir de ações individuais ou de grupos de indivíduos pertencentes a este conjunto de corpos que chamamos comumente de sociedade.

Foram justamente as noções de ação e pertencimento sociais em amplitude que permitiram aos gregos antigos criarem a Polis e a democracia ateniense. Naquela época, os homens adultos da cidade decidiam em assembleias o destino comum da sua cidade-nação. Desde valores de impostos a grandes manobras de guerras, tudo que afetava o conjunto da vida social e escapasse à realidade puramente familiar e privada era levado para debate público. É claro que este sistema político dependia de uma série de fatores para poder existir e que apresentava também inúmeras contradições. Pouco mais de um terço das pessoas que viviam em Atenas podiam realmente votar nas assembleias e estas eram dominadas por alianças de interesses privados e sofistas oferecendo seus serviços de oratória e persuasão. Apesar disso, foi essa curta experiência social – o período democrático de Atenas durou menos de cem anos – que influenciou pensadores iluministas a criarem a democracia moderna.

No nosso atual sistema político, também há o âmbito das decisões como parlamentos e câmaras, onde os agentes políticos oficiais representam o restante da população que os elegeu. Nossa política, no entanto, é muito mais complexa que aquela vivida pelos gregos de dois mil anos atrás. O sistema representativo, ao mesmo tempo que permite a participação democrática de milhões de indivíduos na política, também afasta a política da vida social do indivíduo, colocando-o na posição de mero votante e neste sentido mais uma ferramenta de poder do que detentor do poder em si. Este distanciamento entre os mecanismos políticos e a vida cotidiana em sociedade é causa tanto de uma sociedade despolitizada, formada por indivíduos que não se percebem representados ou influentes nas decisões políticas oficiais e, por isso, pouco interessados por estas, como também do processo de despolitização da política. Este processo ocorre quando os políticos eleitos não se percebem mais como representantes de um corpo social e podem fazer da política âmbito de interesses pessoais, contradizendo a premissa de que a política existe para reger as decisões que afetam o conjunto da vida social e causando as mais variadas formas de injustiça e desigualdade. 

Neste contexto de despolitização da política, os indivíduos que de fato procuram alternativas e propõem transformações na vida social não encontram devido espaço no âmbito oficial da política e levam suas reivindicações a outros campos de ação social. Nesse sentido, podemos incluir as tão comentadas manifestações populares que assolaram o país e ainda ocorrem frequentemente em locais como o Rio. Não podemos ignorar, no entanto, as expressões políticas diárias de milhões de indivíduos que estão analisando e julgando, observado e propondo, transformando a realidade conjunta a partir de micro intervenções que se reproduzem dando sentido à vida social. Nossas ações são sempre políticas, independente da intenção e do julgamento prévio.

Daí vem uma das grandes questões da política atual e o objeto desta reflexão. Se todas as ações são baseadas em julgamentos prévios e se as ações sociais são também políticas, então ao propor transformações sociais estamos também expressando nossa visão da realidade e fazendo política. Portanto, deve-se esperar e cobrar de políticos eleitos – como se espera de médicos, engenheiros e bombeiros hidráulicos – não apenas propostas concretas, mas antes disso, análises pertinentes da nossa condição presente. E mais além, a construção de uma sociedade consciente e participativa deve passar necessariamente pela formação de indivíduos que se percebam também como agentes e não apenas pacientes das ações políticas inclusivas e possam, dessa forma, construir suas visões de mundo e valores dialogando com os processos históricos nos quais estamos inseridos.

Por Daniel Furrer