Bom Senso

O futebol brasileiro em 2013 vai ser marcado por uma novidade: o Bom Senso FC. Jogadores experientes e carimbados como Alex, Juninho Pernambucano movimentaram o cenário até agora calado da categoria dos jogadores de futebol profissional e criaram este movimento. Neste último dia 28 ganharam ‘aval’ e se reuniram com a CBF para discutir férias, pré-temporada e numero de jogos por temporada. No começo eram cerca de 30 jogadores dos principais times do Brasil, já hoje representam jogadores das séries inferiores e louvavelmente defendem os interesses dos jogadores que atuam em clubes menores. Em um de seus manifestos contestavam a enorme desigualdade em que os jogadores mais valorizados jogam muitos jogos por ano, se desgastando fisicamente, enquanto os menos valorizados tem poucas garantias de competições e de contratos.

Após a reunião a CBF se dispôs a mudar o calendário em 2015 com um mês de férias e um mês de pré-temporada garantidos no calendário oficial do inicio do ano. Hoje, isso talvez trouxesse benefícios aos grandes clubes que não possuem este tempo para os atletas e para sua preparação para a temporada. Entretanto os clubes menores hoje em dia começam a se preparar para a temporada já em dezembro, pois as competições de menor interesse tem em novembro suas decisões, então não seriam necessariamente afetados por essa melhoria. O Bom Senso sempre se preocupou com o aparente descaso com os atletas no Brasil, inclusive com os times grandes que são obrigados, devido ao grande numero de jogos, a exigir fisicamente de seus jogadores a ponto das lesões serem rotina. Mas o movimento sempre deixou claro que as dificuldades são mínimas comparando com a instabilidade e as péssimas condições que a maioria dos jogadores enfrentam no Brasil.  Os clubes menores fazem times por ocasião, por três meses, e dependendo de um incentivo maior as vezes participam de outras competições no segundo semestre, o que deixa os jogadores de futebol sem condições de escolher boas oportunidades optando pelas poucas opções de trabalho que existem.

Os grandes problemas do futebol brasileiro, no que consiste aos profissionais, são com os jogadores dos times pequenos, aqueles jogadores que peregrinam pelo Brasil em busca de torneios e contratos. E a grande dificuldade é que os grandes valores consolidam no simbólico social que os jogadores de futebol ganham fortunas para jogar bola. Quando trata-se de uma profissão das mais desiguais, que premia a excelência e não o trabalho puramente dito.

Mas como mudar uma realidade de anônimos? Justamente com o apoio dos grandes jogadores que circulam os grandes noticiários e atingem aos torcedores. Neste ponto propondo mudar as dificuldades que os jogadores dos principais times enfrentam e dos jogadores dos times pequenos, o Bom Senso FC expressou-se após o encontro e as promessas por parte dos que dirigem o esporte:

“Preocupação com clubes menores – esta é uma grande preocupação do Bom Senso FC e percebemos que o tema não foi devidamente abordado e nem valorizado na reunião. Ocorreram pequenos avanços nas questões envolvendo a elite do futebol brasileiro, mas não houve nenhum posicionamento claro sobre projeto para melhorar e fomentar o esporte nos quatro cantos do país. O Brasil conta com quase 700 clubes profissionais e 541 deles não possuem atividade durante todo o ano. Esse debate precisa ser aprofundado. O grupo faz questão de lembrar que mais de 85% dos atletas no país não ganham mais que três salários mínimos. Sem calendário durante toda temporada, a situação tende a piorar.

Além disso, é preciso reforçar que o Bom Senso tem se preocupado com as questões gerais do futebol como os ingressos cada vez mais caros e os endividamentos dos clubes. Questões que talvez eles não devam fazer sua luta principal, já que, principalmente na questão dos preços, a chamada ‘elitização  do futebol’, passa por uma estrutura de futebol, lógica copiada dos europeus e que não tem funcionado no Brasil. Arrisco-me a dizer que depois da Copa, vai ser insustentável a elitização dos estádios propostas pelos grandes clubes, embaladas pelo o oba-oba da Copa do Mundo.  Discordo do termo elitização do futebol, porque o futebol está nas ruas, nas obras, nos bares, nas várzeas, nos colégios etc. Nunca será elitizado. Mas cabe talvez que o movimento dos jogadores, que precisam lutar muito ainda pela sua classe, motive o desejo de mudanças mais radicais em outros agentes do esporte brasileiro, principalmente os torcedores e a imprensa já que os dirigentes brasileiros não tem um histórico que os identifique com o bom senso.

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Bom senso é o que faltou novamente ao excelente treinador da seleção brasileira Felipão, após Diego Costa, centroavante do Atlético de Madrid ter escolhido defender a seleção espanhola ao invés do Brasil, seu país de origem. Felipão deixou claro que a escolha de Diego Costa por não querer representar seu país em uma Copa no seu país o deixou contrariado, supondo falta de patriotismo do atleta.

Curioso justo Felipão falar isso, deveria entender a escolha pelo profissionalismo de Diego, mesmo tipo de escolha que fez Felipão ser treinador de outro país, Portugal, num time com outro brasileiro nacionalizado, Deco. Enfim, beira o ridículo agora essa brabeza, e espero que se vier á Copa pela seleção da Espanha, Diego Costa não seja hostilizado por falta de profissionalismo, pois como já dizia o ex-treinador da Seleção Italiana na Copa de 1990 Azeglio Vicini “O futebol é a coisa mais importante das coisas sem importância.”

Por Chico Guazzelli