Reunião de negócios

Estavam dispostos desta maneira. Era uma mesa redonda, grande porte. Poltronas confortáveis, em uma sala levemente arejada, contudo coberto por densa fumaça de charuto. Pareciam não dar bola, mas o odor estava ficando insuportável. A sala era de escritório, coberto de prateleiras com troféus. Os troféus até que tudo bem, foda era aquelas cabeças de alce empalhadas na parede, de extremo mau-gosto. O escritório pertencia a casa de meu patrão Sr. Silas. Aliás, que casa! Desde que comecei a trabalhar aqui, no ano passado, ainda me perco em alguns cômodos. Sr. Silas mantém sua propriedade impecável, são vinte e dois funcionários contando comigo, ele não sabe o nome de todos, tem funcionário que ele nunca se reportou, somente através de intermediários. Era a primeira vez que eu participava de um encontro tão íntimo do patrão. Nunca havia entrado em seu escritório. Sempre quando penso escritórios imagino ambientes mais sérios, mais profissionais por assim dizer. Não sei explicar direito, mas aquele escritório do Sr. Silas só faltava uma cama pra virar um quarto, tão confortável e íntimo que era. Poltronas reclináveis, bar com tudo que é tipo de bebida (lá sabia eu que se bebia no trabalho!), tapetes peludos. Tava lá pra servir os convidados, como se estivesse em uma festa. Nitidamente aquilo era uma festa no que eu considero festa. No começo estavam mais introspectivos, mais reservados. Ao longo dos goles de uísque é que começaram a se soltar. A partir dali não faltou verbo, e como falavam esses velhos. O que mais me instigou foi que parecia que traziam histórias nunca antes reveladas, como se estivéssemos em uma sessão de terapia em grupo. Fiquei constrangido, ao mesmo tempo curioso.

– Bons charutos, Padilha. Desse bom gosto confesso que  não esperava de ti. Andou por aí estudando seus inimigos?

– Muito engraçado Macedo. Quem sabe não recomenda aos seus pacientes? HAHAHA.

– Começando por sua querida esposa, ou quem sabe as outras que também frequentam meu consultório?

– Não pega pesado Macedo. Morre de inveja da vida de Padilha. Bem pessoal, o que vocês acharam do e-mail que mandei? As eleições tão aí e nunca vi o povo tão preocupado com isso. Temo que seja difícil a reeleição. Devemos agir nas mais diferentes esferas. Garantir o eleitorado sutilmente.

– Leonel e eu já vamos financiar sua campanha. Bilhões pra ti convencer  eleitorado. Não é o bastante? Aliás, Leonel, precisa resolver o escândalo da concessionária, se não vai pegar mal.

– Rapaz, como eu ia saber que a fiscalização tributária ia bater? Nunca bate! Tributos. Essa palavra consta em seus dicionários? Creio que não. Aposto que foi denúncia da concorrência. Dois elementos pra acionar: o juiz Ernesto e Cabrón, o matador de aluguel. Ivan! Me ajuda nessa seu filho da puta! O escândalo saiu de matéria de capa no jornal popular. Tu quer me foder?

– Teve que ser, Leonel. Já tavam desconfiando que a publicidade de vocês tá em todos meus horários nobres. Imagina se a gente deixa passar. Temos que ser estratégicos. Regis, tenha a bondade de continuar…

– Sei que conto com a construtora do Padilha e a concessionária do Leonel. Mas não é só de grana que vou precisar. Quero atingir a subjetividade dos eleitores. O povo ta se informando demais, tem que participar menos. Pra isso conto com a ajuda de Ivan que já faz excelente papel na sua emissora e em seus tabloides. Quero contar contigo Macedo. Será que podes alterar a fórmula de alguns medicamentos de seu laboratório?

– Alterar como?

– Não sei. Que dê mais sintomas de sono. Quanto mais as pessoas dormem, mais afetadas ficam suas memórias. Menos inteligentes elas içam. Os homens devem estar em sincronia temporal com seus iguais, se não se perdem, se vêem atrasados, fadam a depressão. Quero as pessoas dormindo mais e em horários diferentes?

– Pirou, Regis? As pessoas precisam produzir. Precisam consumir!

– Não seja tolo, Leonel. Eles continuarão desejando seus carros, mesmo que nem os usem. As conseqüências serão boas pra todos vocês. Pensem. Mais zumbis comprando imóveis de Padilha, remédios de Macedo, assistindo a emissora de Ivan, comendo a carne de Silas. Silas, nosso anfitrião, por que está tão quieto?

– Chamei todos aqui para dar um comunicado: estou morrendo.

– Como assim Silas!? Por que não me procurou?

– Macedo, és um ótimo amigo. Mas como me consultar com quem se masturba vendo raio-x de paciente? Depois vocês continuam com suas ladainhas políticas. Me ouçam: estou morrendo.

– Pô Silas. Tá difícil de engolir essa. Sabes como és importante pra gente. Não quer passar uns dias no meu chateau? Um tempo no exterior, sob  os meus cuidados. Pode levar quem quiserdes. Quanto tempo ainda tens?

– Me escutem, porra! Sem lambeção de saco. Seus nomes tão reservadinhos no testamento e não faltarão cabeças de gado. Sabem como sempre fui bom pra vocês. Como já tirei Leonel de suas frias com a concessionária. Como abafei o caso de envolvimento de Ivan com facções fascistas. Ajudei Padilha na remoção daqueles quilombos, alem de salvar seu casamento. Regis, sempre mantive a bancada ruralista à teu favor. Doutor Macedo com seus escândalos com pacientes. Enfim, ajudei vocês sempre quando pude. Chegou o momento de eu fazer um primeiro e último pedido a vocês. Um desejo que ainda quero ver em vida. E vocês não poderão recusar.

– Você sabe que juntos somos o mundo. Pouquíssimas coisas não podemos. Com a grana que temos te compramos Sudão. Com o poder que temos te construímos um obelisco.

– Não quero nada disso. Esses últimos três anos foram os mais difíceis para conter o movimento sem-terra. Essas novas políticas, sanções, ativistas, o caralho à quatro. Antes de morrer quero ver com meus próprios olhos o presidente morto e enterrado.

– Quanto tempo você tem Silas?

– Em torno de cinco meses.

– É pouco…

Servi o cordeiro na mesa e eles comeram silenciosos com a mente trabalhando à milhão.

– Senti falta do pastor Almeida na noite de hoje, espero que esteja bem nas Canárias – foram as únicas últimas palavras da reunião de negócios.

Por Rodrigo Isoppo