Século XX: 1881-2004

SECULO XX

O século XX, na visão de Hobsbawm, foi um século curto. Iniciou-se em 1914, na ocasião dos eventos que desencadearam a Primeira Guerra Mundial, e terminou em 1991, com a dissolução da União Soviética. O século XXI surgiu na esteira de crises, independências, massacres, envoltas e assombradas pelo processo de globalização e pelo neoliberalismo.

Literariamente falando, é mais complicado apontar marcos inicial e final do que na história e na política. O século XX literário não é uma ruptura total com o XIX, mas uma continuação revoltosa. O XIX possui duas características que o definem: as estabilizações do romance como gênero principal da literatura ocidental e do mercado como força motriz (não que o mercado literário tenha começado no século XIX: ele já era incrivelmente influente mesmo antes da Revolução Francesa, como mostra o trabalho de Robert Darnton). Caso o leitor deseje dar nome aos bois: pense em Stendhal e siga até Zola, passando por Balzac, Dickens, Henry James, Hoffmann, Manzoni e Flaubert. É nesse último que as coisas começam a dificultar, principalmente após Bouvard et Pécuchet, publicado em 1881. O romance do XIX aguentou cinquenta anos (se considerarmos Le Rouge et le Noir, de 1830, como marco inicial) antes de dar a primeira mostra de que estava esgotado. O romance do XX surge, portanto, de uma crise. Creio que não há um marco inicial, mas três: o já citado Bouvard et Pécuchet, Billy Budd (1888-1891), de Melville, e A Morte de Ivan Ilitch (1886), de Tolstói. Esses três romances possuem em comum mecanismos caóticos de construção, desenhados sob uma aparente placidez. Corre neles incompletude e fragmentação. O dado mais importante, porém, é que eles inauguram uma nova subjetividade dentro da ficção, a qual se aproxima muito dos trabalhos que seriam desenvolvidos nas décadas posteriores sobre o comportamento humano (nesse ponto, Tolstói forma um conjunto com Dostoiévski e Tchekhov, assim como Melville se aproxima de Poe). São romances, portanto, que estão no limiar dos dois séculos.

Minha ideia é a de que o século XX literário, especialmente para o romance, é longo, muito longo. Na poesia, a cisão foi violenta, carregada pelo Un Coup de Dés de Mallarmé (publicado, pela primeira vez, em 1897). O choque da ideia espacial obrigou a toda uma revisão da tradição, em um movimento que desembocou em T.S. Eliot, Lorca, Gottfried Benn, Éluard, Pound, Cummings, Apollinaire, Vallejo, Pessoa. Mas, como disse antes, não houve ruptura no romance, apenas uma continuação revoltosa. A primeira obra que podemos chamar de “decididamente século XX” é Heart of Darkness, de Conrad, publicada em 1899. Não há mais o ranço e a incerteza dos livros-limiares que citei acima. É uma outra est-é-tica. Não uma nova, apenas outra. A principal característica da literatura no século XX foi o processo que ela sofreu de institucionalização, a abertura e a abrangência do seu estudo. Os anos que seguem até o fim da Segunda Guerra Mundial produziram visões e obras que expuseram a olho nu todos os mecanismos e convenções da construção literária, algumas vezes radicalmente (Ulysses, de 1922, As I Lay Dying, de 1929, e Der Mann ohne Eigenschaften, de 1930-1943) e outras vezes tão radicalmente que soa impossível (Proust, Proust sempre).

E la nave va. Depois da Segunda Guerra, as coisas ficaram confusas. A modernidade virou ruína. Afinal, ela nos havia levado direto para as agruras econômicas e sociais e para os Estados totalitários. Nada do sonho de liberté, égalité, fraternité. Alguns insistiram (e ainda insistem) em perseguir a est-é-tica do período 1899-1945. Claro que nem todos se saíram mal (Pynchon, Vila-Matas, Bernhard), mas há mais chances de dar errado do que de dar certo. Outros resolveram retornar ao limiar. É onde vejo Coetzee, Roth, Sebald, McEwan. Todos os autores do século XX, apesar de ainda publicarem no XXI.

Se tu ler bem, esta coluna está muito eurocêntrica. A minha tese é a seguinte: a virada ocorre quando a Europa (e os Estados Unidos, que jamais deixaram de ser uma espécie de Europa com péssimos hábitos alimentares) já não dá mais conta pela arte ocidental. Já falei que o século XX literário começa na mão de Flaubert, em 1881. Creio que ele termina em mãos bem menos burguesas, com Bolaño, em 2004, na ocasião de publicação póstuma de 2666.

2666 é, entre outras coisas, um tratado sobre os terrores do século XX. De forma cronológica, ele se inicia com um soldado alemão que se descobre um escritor (cultura e barbárie sempre foi o tema preferido de Bolaño) e termina com o genocídio infinito de mulheres numa cidade explorada por multinacionais no deserto mexicano. O processo e a falha da globalização (estou pensando na parte na qual os críticos europeus espancam o taxista árabe) movem o eixo principal do romance. Ele é o marco-limiar final. Outras coisas me fazem considerar isso. A est-é-tica dura do trabalho se aproxima demais da est-é-tica da internet. Aliás, me arrisco a dizer que Bolaño é o primeiro escritor a compreender como a internet pode servir para a ficção. O calhamaço de informação, as idas e vindas que o leitor faz para procurar no Google se tal autor citado existe ou não (coisa que Borges e Cortázar fizeram antes, mas quando utilizado em 2004, ganha uma visão muito diferente) a estrutura recheada de links (e não mais meras ligações orgânicas). Note o leitor, por gentileza, que 2666 é o único romance de Bolaño que cita a internet nominalmente, na última das partes. Bolaño costumava afirmar que suas influências principais vinham de Stendhal e Balzac. Sinto, vez e outra, que sua ideia base era reconstruir Balzac no México precário, era corromper a literatura europeia com o signo agudo do subdesenvolvimento. Nossa vingança. Talvez essa seja uma possível cartilha para a literatura do XXI.

Claro que não sei onde estamos indo. O século XX foi muito longo e cansativo. Talvez ainda estejamos naquele momento dormente que ocorre logo depois de despertar. Há muitas coisas no XX que soam débeis. O slogan de Pound, make it new, hoje parece mais algo de uma propaganda da Nike do que um lema para escritores. Os manifestos, os grupos, nada disso mais existe ou importa. De qualquer forma, como sempre, não sei. É muito difícil começar. Mais difícil ainda é recomeçar. 

Por Bruno Rodrigues