Feira das livrarias

Marta vaga pelos estandes parando de tanto em tanto. Ela procura, mas não sabe ao certo o quê. Pergunta aqui e ali pelos preços. Gosta de comprar livros na Feira. É uma tradição. Costuma levar uma obra comentada, que ela pelo menos conheça por nome. Às vezes seleciona pela capa ou pelo autor, estes muitas vezes ligados a grandes veículos de comunicação do estado. Na metade do passeio come um pacotinho de pipoca. Desta vez, Marta comprou “50 Tons de Cinza”. Saiu com um sorriso no rosto e o dever cumprido.”

Um caminho na Praça da Alfândega. Crédito: Gabriel Jacobsen

Um caminho na Praça da Alfândega. Crédito: Gabriel Jacobsen

Levar o livro à Praça é um ato simbólico. Demonstra um compromisso com a população, já que o acesso à leitura é fundamental para qualquer entendimento, principalmente para a reflexão crítica das situações. Mas que leitura é essa que nos é oferecida? A “Feira do Livro” é, provavelmente, o maior e mais interessante evento que Porto Alegre sedia anualmente. Momento em que a Praça da Alfândega se enche de cor e vida – como deveria ser durante todas as estações. Quando os gaúchos conseguem bater no peito com orgulho: somos um povo que lê. Ou pelo menos um povo que gosta de passeios culturais.

A anual tomada do espaço público para a venda dos livros é antiga. Começou em 1955 quando o jornalista Say Marques conseguiu mobilizar um grupo de livreiros da Capital e montou 14 barracas na Praça Senador Florêncio – que por sorte mudou de nome e hoje é nossa linda Praça da Alfândega. O conceito para o projeto veio de fora, do Rio de Janeiro. Por lá a ideia era simples: “se o povo não vem à livraria, vamos levar a livraria ao povo”. Aqui, Say Marques propunha acabar com a imagem de que livraria é coisa para a elite. O projeto vingou, mas muito foi modificado desde o século passado. Nesta última edição, 411 mil livros foram vendidos e 1,3 milhão de pessoas passaram pela Praça.

É impossível negar que a Feira do Livro traz muito para Porto Alegre, mas sua estrutura pode e deve ser questionada. Existe uma crítica específica bastante contundente sendo feita por frequentadores mais velhos do evento. Eles são os primeiros a comentar: há pouca variedade.

O incrédulo leitor pode pensar “que bobagem! A Feira expõe milhares de livros!”. Pois sim, mas quantas barracas vendem os mesmos livros? Em uma rápida caminhada por qualquer corredor, seguramente podemos encontrar uma repetição de títulos de estande em estande.

O motivo da pouca variedade está no domínio das livrarias. O vice-presidente da Câmara Rio-Grandense do Livro, Isatir Antonio Bottin Filho, afirmou existir certo privilégio às livrarias na Feira, posto que elas estão sempre colocadas nas regiões centrais da praça, enquanto as editoras ficam mais afastadas. Segundo Isatir, um dos motivos para essa escolha é a procura, pois o público quer os livros mais comentados.

Essa pouca variedade também levanta questionamentos quando o argumento é o da concorrência. Como se ter a possibilidade de comprar o mesmo livro em diferentes bancas fosse baratear a obra. E o que seria mais barato do que comprar direto da editora, sem intermediação de livrarias?

Por exemplo, em uma rápida e simples pesquisa de preço selecionei uma obra de determinada editora, que também possuía uma banca na Feira, e averiguei o preço em todos os pontos de venda. O livro escolhido estava sendo vendido em grande parte dos lugares: na primeira livraria que pesquisei, seu preço era de R$ 25. Em outras três livrarias era cobrado o valor de R$ 24,50, mas cheguei a encontrar a mesma edição do livro sendo vendida por R$ 19,60. Passei a suspeitar dos tais 20% de desconto quando, na banca da editora, o valor cobrado pelo livro também era de R$ 19,60.

Por mais amadora que seja minha isolada pesquisa, é impossível não questionar como uma editora, sem os custos da compra e revenda que todas as livrarias têm, vende um livro pelo mesmo preço que algumas livrarias? Pensando logicamente, não seria mais barato comprar direto da fonte? E as livrarias que vendem o livro por R$ 25,00 estão realmente oferecendo um produto com desconto? Em poucos minutos navegando por sites de livrarias, descubro que não. Ele é vendido a R$ 24,50 durante todo o ano.

Outro ponto que podemos problematizar é o dessa “procura” do público. Como vou procurar algo que não conheço? E não há grande estímulo em fazer conhecer. A área internacional da Feira do Livro é um bom exemplo disso. Reduzida a 12 bancas, em sua maioria de distribuidoras brasileiras de livros estrangeiros, ela funciona de maneira bastante simples. Como são divididos por línguas e não por países, vemos no estande chamado de argentino, livros do Benedetti, Neruda, Bolaño, Garcia Márquez e por aí vai. Além de pérolas que estão ali apenas pelo idioma, como traduções de Harry Potter ou 50 Tons de Cinza.

Nesta última edição, o único estande verdadeiramente internacional foi o do Equador. Pequeno espaço, última banca e poucos livros. Ali estavam os poemas, os romances e as obras que contam a história do país representado. Estande posto na Feira com a ajuda do Consulado do Equador, que colaborou na realização de palestras com escritores e de exposições de fotografias nos museus da Praça da Alfândega. O pequeno espaço teve de ser alugado, por 4 mil reais. Enquanto isso, a distribuidora de livros italianos possuía um enorme espaço, por 12 mil reais, para expor livros que podem ser encontrados durante todo o ano em sua loja na cidade.

E se nos entregamos ao maravilhoso mundo do “e se” e supomos uma outra estrutura?

“Marta caminha pela Feira parando de tanto em tanto. Demora em cada estande, pois não conhece a maioria dos livros expostos. Pergunta do que se trata aquele, descobre o preço do outro. Ela tem contato com uma enorme quantidade de nomes de autores e livros que nunca ouviu falar. Acaba por fim encontrando uma banca com livros conhecidos. Compra “50 tons de cinza” porque saiu matéria no jornal dizendo que é o mais vendido no mundo. Depois come um pacotinho de pipoca e sai com um sorriso no rosto e o dever cumprido.”

Neste segundo contexto a praça ainda estaria tomada de bancas. Mas neste caso hipotético todas as editoras seriam convidadas a expor e viriam com gosto fazer negócio em Porto Alegre. Seria mais plural, diverso e intenso o contato com a literatura. Sem amarras midiáticas ou meramente comerciais. Seria. Até porque, como diz o bom Galeano, “Aunque no podemos adivinar el mundo que será, bien podemos imaginar el que queremos que sea”.

Por Natascha Castro

(publicado originalmente no Tabaré #18, em novembro de 2012)