Monólogo de um prisioneiro

Dormência na língua, embaralho-me nos sabores. Nem consigo mais diferenciar os gostos metálicos dos peristálticos. Tudo que é fluxo intestinal ou estomacal vem e vai sem que eu perceba. Sulcos dos trópicos, polpas aguçadas, gorfos venenosos. Ausento-me deste processo. Aliás, me ausento de todos. Meu corpo está carimbado aos cuidados de outrem. Antes me incomodava. Agora, desprovido desta responsabilidade, estou livre de.

Odor etéreo, hibridez homogênea. Não me enojo mais em lugares insalubres. Simplesmente não me importo. Deixa-me em qualquer lugar podre do mundo. Pode me deixar e me busque em alguns anos. Vai ver que nada. Fico lá, nem pestanejo. Joga-me num poço de merda, acostumo em instantes. Só não me chama para saborear doces fragrâncias, diferenciar gérberas de peônias, pois sequer sei o que é isso.

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Na cronologia do tempo, não deslizo mais. Não sei que dia é hoje, tampouco que inclinação terrestre me incide. Sinto o passado invadir-me em flechas e o futuro distanciar-me em ojerizas. Quando paro para pensar nisso, tenho sono. Sonho acordado com o vazio, com a ausência, devaneio em off, paralisado. Encontro-me em terceira pessoa, transparente, e com nada ao redor. Tudo é esquecido, como se nada tivesse vivido. O cenário é finito, curto e quadrado. Sentado, bato no teto e minha coluna dói. Na corrente sanguínea, uma injeção de ar substitui meus fracos glóbulos. As palavras arranham minha faringe até serem cuspidas. As palavras se livram de mim agonizadas e eu permaneço preso nesse monte de tecido-pele-órgãos. Quando partirei com as palavras? Nunca saberei. Estas saem quando bem entendem, indiferentes a mim. Elas saem como bolas de sabão, estouram e se dissolvem em segundos na falta de qualquer receptor.

Areias movediças me contornam. Meus pés criam raízes no solo. Quando implico força e se rasgam, retornam no passo seguinte. Recebo uma coronhada nas pálpebras desacordando. Tudo que faço é reportado em algum relatório. Datilografam minha respiração. Coloco-me de repente de ponta cabeça e a cena volta. Abro os olhos e me jogam para a introdução, como um livro de infinitas páginas iguais. Sem autonomia de ser, não sou. Estou. Calcificado em forma bruta, revestido em cimento frio e jogado em algum sambaqui para nunca mais apodrecer, para sempre desejar que a morte visite. A morte é meu messias que nunca chega. E enquanto nunca chega, a eternidade me persegue.

Minha capacidade de desejar foi hipotecada a preço de barraco. Minha capacidade de sentir foi leiloada na primeira batida de martelo. Minha capacidade epistêmica foi estuprada num beco cerrado. Minha voz robotizada em ecos sem harmonia. E se você, que acidentalmente tropeçou nessa verborragia, acha que quem vos fala é um habitué de Alcatraz… antes fosse. Sou apenas um prisioneiro de um sistema arbitrário e, não menos relevante, de mim mesmo.

Por Rodrigo Isoppo