Os Terrores Infinitos

(Este texto é uma continuação do anterior. Creio que se eu tivesse leitores, certamente um ou outro teria relinchado diante a minha falta de citação de Ficciones ou de Grande Sertão: Veredas na minha tese sobre o século XX literário. Tenham paciência.)

 Antes de mais nada, sim. Eu sei. “América Latina”. A entidade abstrata. Como “África” ou “Oriente Médio”. O exercício ficcional de fingir que uma região com poucas conexões concretas forma um só conjunto.  Fingir que há só uma coisa, do deserto de Sonora até a Patagônia. Dizemos que nos sentimos “latino-americanos”. Há dois pontos apenas que consigo enxergar que sejam comuns nesta vastidão geográfica: o trauma e a cisão. Brasileiros, uruguaios, peruanos, cubanos: a escravidão, os genocídios das populações nativas, o colonialismo, o imperialismo, o neofascismo tropical, o neoliberalismo. É a desgraça e o terror que nos une. Talvez seja esse o motivo da melancolia que recai sobre as paragens todo dia nove de abril ou onze de setembro.

 Vocês sabem, é preciso esquecer a árvore. Mais do que isso: é preciso encarnar Fortunatti e transformar a árvore em lenha, se possível furtivamente, no meio da noite. A estrutura rizomática é a única forma figurada de compreender debilmente o caos literário. Um mundo de ligações, não de troncos rígidos.

 Se é o terror o que nos dá unidade, só há um nome que surge na minha cabeça: o de Isidore Ducasse, o Comte de Lautréamont. Alguém há de dizer, porém, que sua influência é inexistente até meados da década de 1960.  E eu hei de dizer que não importa. Les Chants de Maldoror é uma obra sobre terrores, sobre o Mal, Mal institucionalizado. As obras que precederam o poema nunca ousaram expor o vil de tal modo. Isidore, seu Outro e seus duplos, transitou a vida inteira entre a França e o Uruguai. Talvez nunca tenha havido lugar para o rapaz. Com sua mente distendida entre dois universos muito diferentes, ele foi capaz de compreender a dor que se espalha pela unidade latino-americana. Enquanto muitos se ocupavam em encontrar uma identidade, ele achou a definitiva. Além: escrevendo em francês, ele soube zombar da retórica e da lógica europeia, erigindo a contradição como forma. Nada mais irônico e melancólico (a ironia é sempre melancólica, sei) do que inaugurar uma literatura usando os sons daqueles que gostavam de crer que eram o tronco. A contradição, a ironia, a melancolia: nossas regras do jogo.

 O signo de Maldoror, o signo silencioso e ignorado, o signo do Golem. Quando abandonei a casa de mamãe, as obras completas de Isidore foi um dos poucos livros que levei na mala. A compreensão profunda sobre ser latino-americano está lá. Levou um bocado de tempo para urgir outros desvelos desse emaranhado obscuro de terrores. Claro que a noção do Mal conquistou seu espaço, as regras do jogo voltaram a aparecer — podemos falar em Machado de Assis, Azuela, Monge. A regra dada, porém, sem a forma é apenas a regra dada. Surgiram os temíveis anarquistas: Felisberto Hernandez, Quiroga, Leopoldo Marechal, Carpentier e o cardeal da anarquia: Macedonio Fernandez. Foi Borges, inspirado pelo último citado, em 1956, que voltou a atacar o domínio e o território europeu. Por coincidência ou não, Borges, do mesmo modo que Isidore, foi um homem dividido entre o centro e a margem. Seus textos remetem às construções árabes, a um espaço muito maior. Em Ficciones, o grande fantasma responde pelo nome de El Sur. Quando Dahlmann sai do boteco para a morte certa, há algo que grita. Nunca deixo de sentir o desconforto (meta)físico quando o conto se acaba, levando junto o livro inteiro. Grande ano, 1956. Guimarães Rosa (mais um cisado) estava unido em espírito ao argentino. A forma geral de Grande Sertão: Veredas, perdida nos entremeios do Épico e ressonando ao já estável modernismo europeu, soa como troça quando se lê a simples história de jagunços, suas barbáries e amores. 1956 nos dá um rosto e uma voz (a qual começara em forma de murmuro, um ano antes, na ocasião de publicação de Pedro Paramo). Mais importante do que o boom, mais importante que todo o “realismo mágico” (esse termo que busca reduzir todo nosso espírito em um movimento literário).

 Há uma gestação, perceba. Da primeira edição de Les Chants, a qual data de 1869, até Pedro Paramo, transcorrem 86 anos. Estávamos cientes que o terror estava agindo de uma nova maneira, amparada pelos aparelhos modernos do Estado. Pouco menos de dez anos depois do fatídico ano de 1956, o inferno despencou. Quer dizer, ele estava despencando desde a instauração das repúblicas nos países latino-americanos, mas foi por essa época que ele caiu de vez sobre as cabeças de todos, como, citando Bolaño e seu título rejeitado, uma tormenta de merda. O trauma e a dor em circuito máximo. Os índios continuando a ser genocidados por todo o continente. Os assassinatos e as torturas, antes escondidas, agora escancaradas. Como pode uma literatura resistir a tanta barbárie? Não sei, mas ela resiste. É o que importa.

 Não vou citar todos os nomes e livros após 1960. Temos Fuentes, Sábato, Cardenal, Arenas, o enorme Lezama Lima, Cortázar, Bastos, Lispector, Piglia e Saer. A gestação da forma se encerrou. Ela estava viva, muito viva. Sua existência foi coroada, ao meu ver, décadas mais tarde, nas palavras de Aira e Bolaño.

 O antiprojeto literário de César Aira (me benzo três vezes sempre que digo ou escrevo seu nome) está envolvido pela anarquia. Supera o Mal e o terror. É sobre nada. Suas dezenas de romances estão configurados naquelas regras do jogo, mas as violam até não sobrar coisa alguma. É um caminho perfeitamente racional para uma literatura iniciada por Isidore. Bolaño é sua contraparte. Projeto sério e, como falei na coluna anterior, político. Nocturno de Chile, de 1999, é a remissão daquela forma gestada. Talvez seja o romance mais complexo de Bolaño, aguerreado em analogias, imagens e alegorias, em um monólogo construído com base nos romances medievais.

 Os terrores são infinitos. Não acabam. Estão em conluio com a nossa tradição, a grande tradição da literatura latino-americana. É preciso muita dor para escrever nesse continente.

(Prometo que não falo mais sobre Bolaño.)

Por Bruno Rodrigues