Um conto dos saberes

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Caminhavam descendo a rua duas pessoas, quando se deparam com um acidente de trânsito. Dois carros haviam colidido deixando um dos motoristas em estado grave, aparentemente pelo menos.

– Ih… Acho que esse aí não tem jeito, depois dessa batida…

– Mas é claro que tem. Apesar do ferimento ter sido profundo ainda é possível estancar o sangramento e com alguns pontos, um gesso e um bom tempo de recuperação ele estará bem novamente.

– Ah é? Por que você diz isso?

– Sou médico, estudei isso minha vida inteira e posso garantir que apesar dos danos o sujeito pode sair bem com o tratamento adequado.

– Ok, se você diz.

Em outro ponto da cidade, um prédio antigo parecia estar com suas estruturas abaladas e fachada completamente deteriorada. Dois amigos que passavam diante da construção se voltam para a situação estrutural do edifício:

– Desse jeito aí esse prédio vai cair, olha só, tudo aos pedaços, parece um castelo de cartas.

– Não, na verdade é necessária uma reforma estrutural urgente, mas percebe-se que as vigas de sustentação permanecem fortes. Com um bom reparo este prédio pode voltar a ser plenamente utilizado sem riscos.

– E você fala isso baseado em que?

– Sou engenheiro, amigo. Trabalho com isso minha vida toda e sei quando uma edificação está fadada à ruína e quando ela ainda pode ser salva. Esta aí não está tão mal quanto parece. Digo isso como profissional.

– Bem, se você diz, está certo.

Mais adiante, ainda na mesma rua, os dois observam um garoto de uns quinze anos passar correndo, descendo do morro com uma bolsa na mão. Logo atrás vinha uma senhora gritando: “Pega ladrão! Pega ladrão!”.

– Caraca, esse aí já era… Já virou bandido antes de ser homem, não tem mais jeito.

– Como assim, cara? Claro que tem! Ele provavelmente nunca teve acesso à saúde, educação, cresceu com péssimos exemplos à sua volta e aprendeu que o mundo é violento e injusto. Mas se tivesse tudo isso, poderia ver que existem alternativas e deixaria de ser um excluído, ou “bandido”, para ser um cidadão.

– Não, esses aí são assim mesmo, depois que começa a roubar, usar drogas, não tem mais jeito. É daí pra baixo.

– Estou te dizendo que com as estruturas sociais adequadas e os direitos básicos garantidos ele não estaria roubando. E mesmo agora que já roubou, não é um caminho sem volta, ele pode aprender, crescer como pessoa e se tornar um cidadão consciente e responsável.

– Hum, você acha, é?

– Não acho, eu sei. Sou cientista político, estudo isso há anos e basta analisar os processos de desenvolvimento de diferentes sociedades para se concluir que existem maneiras mais e menos inclusivas de se desenvolver um país.

– É, essa é a sua opinião, pra mim bandido bom é bandido morto mesmo. Assim que se resolve essa marginalidade que a gente vê por aí.

Por Daniel Furrer