Rachel Barton Pine: virtuose heavy metal.

Rachel Barton Pine_credito Andrew Eccles

Não faz muito, eu falava aqui no Taba sobre a popularização da música erudita e sobre a importância da conversa entre os gêneros erudito/clássico e popular. Ainda acredito que a interdisciplinaridade é o segredo para um bom trabalho e que a ecleticidade musical é o caminho para a formação de novas músicas e novos sons. Como estudante de licenciatura, não posso deixar de falar que, em termos de educação musical em instituições formais, hoje o estudante de música tem de escolher basicamente entre duas áreas: ensino clássico ou ensino popular. Mas a despeito das escolhas acadêmicas e do foco de cada curso formal de música, o que se nota é que a maioria dos músicos/estudantes/instrumentistas/concertistas/simpatizantes joga nos dois times: trabalha tocando Bach a vida toda, mas bem que curte um Ramones nos fins de semana. Provavelmente por causa de toda essa lógica, saber da existência e da história de Rachel Barton Pine me surpreendeu muito, meio como a confirmar tudo o que eu ficava especulando.

Rachel é violinista desde os três anos de idade e começou a tocar com orquestras quando ainda não tinha o tamanho de um contrabaixo. Ganhoua medalha de ouro no Concurso Internacional de Violino de Bach, na Alemanha (parece importante), ainda menor de idade e de lá pra cá, além de se tornar virtuosíssima no instrumento e tocar pelo mundo com orquestras e maestros reconhecidos, criou a Fundação Rachel Elizabeth Barton, que ajuda jovens artistas por meio de vários projetos. Rachel toca violino barroco, violino renascentista, viola d’amore e rabeca, instrumentos históricos que firmam sua fascinação pela pesquisa da música barroca, renascentista e medieval, campos nos quais é considerada intérprete especialista. Trajetória clássica e típica de uma grande solista, não?

Mas Rachel supera as expectativas. Da descoberta adolescente do gosto por rock e heavy metal, a violinista fez também a sua vida profissional: em 2009 comprou um viperviolin (violino elétrico que parece uma flying v) e entrou para um projeto de doom (heavy metal melancólico)/thrash metal chamado Earthen Grave. Em 2012, o grupo lançou seu primeiro compacto! E seguem fazendo shows juntando o bom e velho instrumental vocal-guitarra-baixo-bateria com o violino elétrico de Pine. Entre as bandas favoritas dela encontram-se AC/DC, Anthrax, Black Sabbath, Led Zeppelin, Megadeth, Metallica, Motörhead, Pantera, Slayer e Van Halen. Ah, e é claro: Paganini, Bach, Sarasate, entre outros…

Entre algumas curiosidades – ainda sobre a história de vida surpreendente dessa musicista -, apesar de trágico, não consegui deixar de fora o acidente de Pine em janeiro de 1995, quando ela saía de um trem com o violino no ombro e a porta fechou na alça do case. Rachel ficou presa e foi arrastada por cerca de cem metros e depois foi atropelada pelo trem. Perdeu metade da perna esquerda e teve o pé direito mutilado. Assisti uma entrevista na qual ela conta toda a adaptação à cadeira de rodas, à prótese que usa hoje nos concertos, e às diversas cirurgias que teve que passar para salvar o pé direito. Achei tudo ainda mais maluco e a vida dela impressionante! Quando me disseram que a solista do último concerto oficial da OSPA seria uma “rockeira”, fiquei curiosa, fui logo buscar algum vídeo que provasse o boato. Achei o máximo que Pine tenha conseguido conciliar os dois estilos de música e faça deles o seu trabalho, muitas vezes entrelaçando-os em concertos que misturam os repertórios. Ela já foi chamada de “musical Pac-Man”, por causa da habilidade que tem de interpretar tantos tipos de música. Virei fã.

 

IMPORTANTE E IMPERDÍVEL! Na próxima terça-feira, 26/11, Rachel Barton Pine irá solar com a Orquestra Sinfônica de Porto Alegre. No programa, ela tocará“Fantasia Carmen”, obra criada a partir da ópera “Carmen”, de Bizet, pelo violinista espanhol Pablo de Sarasate (1844-1908) que a compôs para que ele mesmo tocasse exibindo habilidades técnicas, expressividade e sonoridade refinada.O concerto será no Salão de Atos da UFRGS, às 20h 30 (mais informações no site  www.ospa.org.br).

Boatos rolam que o bis vai ser popular, hein! *torcendo*

 

A Demo de Earthen Grave: Dismal Times – http://www.youtube.com/watch?v=FFFsWWmJHPk

Rachel Barton Pine solando – http://www.youtube.com/watch?v=3SRzHr1mvEI

Cover de Van Halen por Rachel Barton Pine – http://www.youtube.com/watch?v=U0Ho1UWSdyI

O áudio de Carmem Fantasy, com Jaime Laredo (que nasceu em Cochabamba!) no violino. Porque com a Rachel Barton Pine é só ao vivo! – http://www.youtube.com/watch?v=P2AvP4PBoFs

Por Morena Chagas