Traumas

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Muito se fala da falta de produção artística sobre futebol na cultura brasileira. Tanto filmes, livros, peças ou músicas parecem esquecer uma das coisas que é mais presentes no nosso cotidiano, na nossa cultura. Pois este ano foi lançado o livro O drible de Sérgio Rodrigues, em que o futebol, como diz Luís Fernando Verissimo na contracapa, é um dos personagens da história que gira em torno da história de um grande jogador chamado Peralvo, que poderia ter sido maior Pelé, e a história de um antigo cronista esportivo chamado Murilo Filho e seu filho Neto. Em uma das cenas iniciais do livro Murilo mostra para seu filho um videotape da partida entre França e Brasil pela Copa de 1958, mas apenas do minuto 18 ao 28 do primeiro tempo da partida, que encerrou 5 a 2 para o Brasil com três gols do Pelé.

Nestes minutos a partida se desenrola em uma terrível exibição das equipes com a França lançando a bola repetidamente para o centroavante Just Fontaine (maior artilheiro de uma edição da história das Copas) que tentava e tentava arremates contra o gol defendido pelo goleiro Gilmar do Brasil. Neste dez minutos, Pelé e Garrincha não acertam nada e o maestro Didi era bem marcado, não conseguindo fazer quase nada para o Brasil. A ideia do pai era mostrar ao filho que a partida, que entrou para história como um massacre do Brasil e impulsionou o esquete para a glória que se perpetua até hoje consagrando ídolos como Mané e Pelé, poderia ter sido muito diferente se a partida seguisse do mesmo jeito.

A excelente ideia do escritor me estimulou a lembrar de outros momentos como este na história do futebol. Partidas que consagraram equipes e jogadores para sempre e que poderiam ter sido muito diferentes, caso algum detalhe tivesse saído diferente. Como em 1994 quando o Brasil tomou dois gols da excelente equipe da Holanda e estava empatando em 2 a 2. Foi quando a estrela improvável do lateral esquerdo de Bagé chamado Branco surgiu. O lateral correu para o meio e cavou uma falta na intermediária. O resto a história conta: um belo chute e o desvio de corpo genial de Romário. Gol da vitória, numa das partidas mais difíceis daquela trajetória da seleção Brasileira no Tetracampeonato.

Naquela Copa a final entre Brasil e Itália traz a memória o lance pitoresco do goleiro italiano Pagliuca ao bater roupa e ser salvo pela trave após um chute de Mauro Silva, ou o próprio Romário perdendo um gol de dentro da área na prorrogação. Mas também a final conta um episódio mais esquecido na história dos vencedores, como poderia dizer Galeano. Em um lance raro na partida o craque Roberto Baggio fez grande jogada e chutou de fora da área fazendo com que Taffarel colocasse para escanteio. Talvez a única chance da partida por parte da Itália poderia ter mudado a história e hoje Baggio, melhor jogador de ataque que vi jogando pela seleção Italiana, não seria reconhecida apenas pelo pênalti perdido.

Inevitável pensar em lances como o de Galatto em 2005 no pênalti da Batalha dos Aflitos ou o gol incrível de Dunga em 1999 que salvou o Inter do rebaixamento que poderiam ter acontecido de forma trágica para os torcedores da dupla Grenal.

O futebol é feito destes momentos sublimes em que o detalhe cria protagonistas, vilões, memórias e feitos. O bom é lembrar e fantasiar. Um desses momentos históricos foi feito por Nilton Santos na copa de 1962, do bicampeonato Mundial do Brasil, em que o eterno Enciclopédia do Futebol deu um passo a frente numa falta feita por ele dentro da área e com sua malandragem evitou que fosse marcada a falta onde ela de fato fora, e assim o Brasil se livrou de um pênalti contra numa partida muito disputa contra a Espanha. Nesta quarta feira Nilton Santos faleceu aos 88 anos, mesmo dia em que os não tão famosos Ronaldo e Fábio também morreram em uma tragédia nas obras do Itaqueirão o novo estádio que está sendo feito para a inauguração da famigerada Copa do Mundo do ano que vem.

O bom de pensar nestes momentos que mudaram a história do futebol é que fazemos com uma nostalgia impossível aos maus momentos de nossas vidas, que tentamos esquecer a. Porque o futebol nós podemos mudar, reescrever, fantasiar e lembrar sem a mesma dor. É genial a ideia de criarmos livros, filmes e todo tipo de arte, recontando a história do futebol, mudando os protagonistas e criando verdadeiras lendas do futebol. Infelizmente na vida a gente não tem esse mesmo dom que a arte permite de lidar com o não feito, o não dito e as tragédias. Na nossa vida as mortes, ainda mais as trágicas como dos operários nesta semana, inevitavelmente deixam cicatrizes.

Então para isso também funciona o futebol, não só paras as alegrias momentâneas, mas para as eternas discussões em bares sobre as lembranças dos melhores jogadores e partidas passadas. Que bom seria se surgissem novas ideias e novas criações artísticas sobre o futebol, recontando, por exemplo, ‘tragédias’ como Sarriá sem Paolo Rossi, ou  Abu Dhabi sem Mazembe, Tóquio sem Ajax, 1950 sem Obdulio Varela, porque por mais que doam estas lembranças podem sempre ser revisitadas. A ideia de recriar nossos traumas do futebol talvez seja uma forma de cuidar dos nossos traumas cotidianos lidando com as perdas e derrotas esportivas.

Por Chico Guazzelli