Três Tigres Trágicos

O fundo do poço é o melhor amigo de uma cidade, diz um dos rabiscos que alimentam a imaginação das paredes porto-alegrenses. Não conheço tradução mais justa do estado das coisas que vivemos desde meados do último ano, quando ficou claro que se reinventar era questão de vida ou morte. 

Como é impossível cortar o cordão umbilical do cinema com a cidade, a coleção de desertos também tomou conta do cenário cinematográfico: salas vazias, curadorias preguiçosas, produções irrelevantes, a estagnação nunca esteve tão escancarada. A cereja do bolo foi a greve de filmes no final de 2012, quando quase todos os principais lançamentos (Raoul Ruiz, Werner Herzog, Abbas Kiarostami, Leos Carax, Hong Sang-soo, Jerzy Skolimowski…) não chegaram à cidade e quase ninguém se incomodou.

O fundo do poço parece ter mordido os nossos olhos. Não foram poucas as iniciativas que trouxeram novo fôlego para a cinefilia local em 2013 – a manutenção de cineclubes nas faculdades, o Zinematógrafo, a Sessão Plataforma. Idealizado por uma trupe grande (é preciso dar nomes aos bois: Alice Castiel, Filipe Matzembacher, Marcio Reolon, Emiliano Cunha, Lucas Cassales, Germano de Oliveira e Richard Tavares), o Festival Diálogo de Cinema foi uma das mais urgentes, especialmente por nos colocar novamente em contato com a criação contemporânea do país, sem guardar vaga para gêneros ou rumos específicos. Porque o tão falado isolamento porto-alegrense em relação aos outros estados não deixa de ser uma posição acomodada – é muito mais fácil virar as costas de vez do que tentar compreender por que os outros não querem olhar.  

Foram muitos os filmes exibidos durante seis dias. Momento de confirmar cineastas promissores que já não cabem mais no curta-metragem, como Eduardo Morotó, com um domínio de tensão e direção arrebatadora em Todos Esses Dias em Que Sou Estrangeiro, e Cássio Pereira dos Santos, mostrando em A Mulher no Alto do Morro que a certeza da câmera não impede o mistério da imagem (e das palavras). Ou de ver a redenção de Marcelo Pedroso, que saiu do trono da ausência (pré-fabricada) de Pacific para assumir uma posição, a do terrorismo, em Câmera Escura. Ou os enquadramentos claustrofóbicos de Nathália Tereza em Casa de Bonecas, a nostalgia (apenas) aparentemente descompromissada de Mauro em Caiena, de Leonardo Mouramateus. Ou ainda uma grande história de amor a partir de miudezas em Pouco Mais de um Mês, de André Novais Oliveira.   

Mas também foi o momento de descobrir novidades locais – Daniel de Bem, inaugurando a nouvelle vague de Esteio com seu primeiro filme, Fantasmas da Cidade, cheio de momentos deliciosamente inúteis que respeitam o tempo de seus personagens, coisa raríssima no universo do curta-metragem, e Lucas Sá, com seu horror autoral em Ruído Branco (só tive a oportunidade de ouvir o filme, mas seu cinema é tão promissor que apenas o som já basta).  

frame de "Fantasmas da Cidade"

frame de “Fantasmas da Cidade”

Em Pátio, dirigido por Aly Muritiba, vencedor do prêmio principal, o que me parece fascinante é como num espaço limitado as recorrências, especialmente as grades que separam a câmera do pátio da prisão e os escudos dos três times curitibanos, colidem com as diferenças, dos pontos em que o sol bate às diversas atividades que os presos realizam ali (o futebol com os filhos, a capoeira, o bate papo trivial). Com praticamente apenas um cenário (embora existam muitos cenários sonoros), o filme consegue tirar a prisão do lugar comum que o cinema de documentário ou ficção costuma encontrar, introduzindo uma imprevisibilidade quase lumieriana na narrativa.

Os longas 

frame de Os Dias Com Ele

frame de “Os Dias Com Ele”

Houve também os longas-metragens, dois inéditos na cidade em sessões especiais que marcaram a abertura e o encerramento do festival: Dromedário no Asfalto, de Gilson Vargas, e Os Dias com Ele, de Maria Clara Escobar se aproximam e tomam distâncias com a mesma intensidade em suas narrativas sobre encontros familiares.

Existem dois filmes na estreia em longa-metragem de Vargas: o da viagem de um objeto não identificado em direção ao Uruguai, numa jornada que parece tão longe do espírito quanto do corpo – seu movimento é só de carcaça e nenhum dos encontros parece afetá-lo de fato; e um que compõe uma ambiência interna, aproximando imagens líricas e levemente abstratas que sussurram algumas passagens de sua vida sem abrir concessão a revelações literais. Existe uma dificuldade natural em ligar os pontos entre os dois filmes que ameniza o reencontro entre filho e pai, especialmente do ponto de vista emocional. Mas pra mim ficou claro que o destino final da obra é muito mais a confirmação de um protagonista sem forma do que a reunião de pessoas que dividem alguma intimidade antiga.

Os Dias Com Ele é aquele tipo de filme que deixa claro nos primeiros instantes que ficará muito tempo com o espectador. A jovem cineasta deseja criar sua obra a partir do encontro com o pai ausente, Carlos Henrique Escobar, criador marxista que foi torturado durante a ditadura militar e hoje vive isolado em Portugal.

Tudo começa com um zoom brusco, sinalizando de cara que o filme assumirá o esboço, a sujeira, mas também que não esconderá a importância do ato de buscar. Mas buscar o quê? Um passado? Uma história? Um testemunho? As certezas de Maria Clara em relação ao que deve ser o filme tornam-se cada vez mais trepidantes ao longo da obra. Quem é o homem que está na sua frente? Ninguém sabe. A única certeza é a de que Os Dias com Ele caiu para mim como um filme de guerra.

Porque o movimento brusco do início não deixa de ser um golpe, mas um golpe que flagra o agressor numa situação defensiva. Não é a câmera que se aproxima, é apenas a lente. Trata-se de um belo cartão de visitas da luta que veremos entre os dois ao longo do filme, num jogo de forças que transcende (e muito) a questão pai e filha, mas que sempre carrega esse peso, de ser uma relação de forças entre um chefe de orquestra que se finge de morto e uma filha que deseja inventar um passado.

O passado não vem. Como em todo grande filme de guerra, tudo acontece no presente, no instante, na ação, no atrito. É o que diferencia o cinema de Maria Clara Escobar do caminhão de obras sobre memórias e traumas familiares que povoam hoje os painéis acadêmicos do país. É preciso voltar muitas vezes a Os Dias com Ele: para pensar a questão do testemunho no cinema, para ser bombardeado com reflexões inesperadas sobre os rumos da nossa esquerda, para ouvir novamente o achincalho maravilhoso em Ferreira Gullar (nunca é demais), mas também para reencontrar um dos personagens mais saborosos que o cinema brasileiro já consagrou.

Por Leonardo Bomfim