A bela endiabrada

Corre às línguas nervosas que 2013 foi o ano em que a cinefilia porto-alegrense saiu de vez do sono profundo. As iniciativas – falei delas no último texto – não foram pequenas. Uma das minhas favoritas é a Sessão Plataforma, tocada pelo pessoal da Tokyo Filmes (curadoria de Davi Pretto e Giovani Borba, produção Paola Wink) a partir deste semestre. O motivo é simples: como não temos um grande festival ou uma mostra internacional sintonizada com o que acontece no cenário contemporâneo, ficamos um pouco fora da página, órfãos de novidades. Existe o download, é claro, os filmes estão todos por aí, mas a coisa do cinema acontece mesmo na sala, com a tela grande, a projeção em alta definição, a troca de palavras (ou apenas olhares) após as sessões.  

 A primeira temporada da Plataforma exibiu Room 237, de Rodney Ascher; Bestiário, de Denis Côté; O Invasor, de Nicolas Provost e Leviatã, de Lucien Castaing-Taylor e Verena Paravel, destaques dos últimos tempos que permaneciam inéditos na cidade.  Nesta semana, são duas sessões imperdíveis pra fechar o ano: hoje acontece a primeira exibição na cidade do premiado Avanti Popolo, com a presença do diretor Michael Wahrmann, e na quinta-feira vem um dos filmes mais comentados da temporada: O Ato de Matar, documentário de Joshua Oppenheimer que monta o playground para que os assassinos orgulhosos de mais de um milhão de comunistas, após o golpe militar na Indonésia em 1965, possam exibir suas virtudes.

Frame de "O Ato de Matar"

Frame de “O Ato de Matar”

 Aproveitando a semana cheia, fiz uma entrevista com os dois curadores da Plataforma a respeito dos filmes exibidos e de algumas particularidades da cinefilia porto-alegrense.

Entre os filmes exibidos na primeira temporada da Sessão Plataforma, houve documentários mais tradicionais, obras de ficção, filmes híbridos e outros que escapam de quaisquer definições. É uma aposta da curadoria ou apenas reflexo da diversidade que existe no cinema contemporâneo?

Giovani: Não se pode ignorar pluralidade na cinematografia, e isso é mote do evento, mas certamente são apostas, e posso falar de aposta com convicção, pois tínhamos uma quantidade enorme de filmes para compor a programação, inclusive havia chance de seguir uma determinada linha, com mais coerência e mais diálogo entre os títulos. Fomos atrás, primeiramente, do que gostaríamos de dividir com as pessoas numa sala de cinema, eram muitos filmes,  então tivemos que abrir mão de muita coisa, mas as escolhas acabam ficando limitadas, tamanha quantidade, e isso nos conduziu a um maior rigor. É aí que eu consigo ver como uma aposta. Se acertamos, pra saber, só se testássemos as possibilidades que descartamos.

Davi: Tem a questão da distribuição também, né. A prioridade é filme inédito e/ou com dificuldades na distribuição. O Avanti Popolo vai ser distribuído, mas a gente achou que o filme merecia uma atenção a mais, dada a dificuldade de se lançar um filme hoje. Mas a união pra fazer a Sessão surgiu disso que o Giovani disse. Desse “gosto” em comum que a gente tem. A gente queria exibir os filmes que gostava. A gente não esconde isso. Não é uma curadoria neutra ou só por causa de algum “recorte”. São filmes que a gente gosta e ponto. Claro que naturalmente fomos lapidando pra formar algum tipo de panorama. Mas acho que a gente tenta sempre fazer algo sincero com a gente mesmo, em um primeiro momento.

De todas as sessões, a que teve mais procura foi a de Room 237, filme que reúne uma porção de teorias mirabolantes sobre O Iluminado. O efeito-Kubrick ficou bem evidente. Vocês acham que a cinefilia é conservadora? A minha impressão é a de que hoje o prazer da descoberta não é o mesmo – pra sair de casa, tem que ter algum tipo de certeza.

G: Conservadorismo da cinefilia, com certeza generalizar seria um erro meu, mas o que eu posso falar é de sensação. A minha sensação é que a grande maioria é atraída somente pelos nomes de peso, e que os novos realizadores não têm peso algum por aqui. Tem se falado muito ultimamente sobre uma “nova cinefilia”, em função do crescimento de projetos de exibição em Porto Alegre, muitos projetos bons, e isso é formação de público, e eu acredito nela, cresci vendo meu pai botando um projetor e umas latas 35mm e procurando quem goste de filmes por aí. As pessoas iam se entregando. O preconceito era medo e o medo era preconceito, mas tudo se ajeitava. Conheci nos livros um tal de André Bazin, cara que me reforçou a crença na formação desse público. O cara abria cineclubes, passava filmes mambembes, e veja o que é a França. Porto Alegre parece ter acabado de cruzar um abismo, alguns filmes ficaram lá embaixo. A Sessão Plataforma só existe pela vontade absurda que temos em querer que os novos realizadores sejam desejados e esperados por aqui. Que venham novos nomes!

D: Generalizar é complicado mesmo, mas todo mundo sabe como é difícil um “nome novo” ser procurado tanto quanto um “filme do Kubrick” (que nem era o caso do Room 237, deixemos claro). Mas isso é natural. Sempre vai ser assim.  Por isso distribuir filme de realizador jovem é difícil. Eu imagino como um filme tipo o Bestiaire (do Denis Côté) iria na Sala 08 do Itaú ou algo do tipo, sabe? Tem filmes que entram em cartaz por aí e não passam de 40 espectadores em uma semana inteira. Nosso trabalho é, minimamente, ajudar os filmes a serem vistos. Mesmo que o cara não vá na sessão, mas no facebook leia sobre o diretor, descubra ele e de repente baixe o filme em casa, e/ou daqui a 10 anos entre pra ver um novo filme dele em cartaz na sala 01 de um cinema grande. Beleza, missão cumprida. Mas esse problema de disparidade na procura entre os filmes é problema pra todo mundo, no mundo inteiro.

Frame de "Bestiário"

Frame de “Bestiário”

Quais os filmes da última década que a cidade não viu no cinema e que vocês gostariam de ter trazido, caso a Plataforma existisse há mais tempo?

G: Eu queria ter visto Japón do Carlos Reygadas, Los Muertos, do Lisandro Alonso, Once Upon a Time in Anatólia, do Nuri Bilge Ceylan, A Humanidade, do Bruno Dumont, Minha Felicidade, do Loznitsa, algum filme do Lav Diaz.

D:  As salas nunca vão dar conta do que está sendo produzido, né. Por isso a internet é atrativa, porque dá essa sensação de saciedade (mas ilusória). Tem esses que o Giovani citou e incluiria algum do Ben Rivers, da new wave do cinema romeno (quase todos não vieram), os asiáticos (Jia Zhang-ke, Takashi Miike e Kitano, pra resumir os famosos…) e por aí vai.

Não são poucos os filmes importantes que não chegam às salas da cidade. Vocês acham que essa defasagem em relação a outros estados reflete nas produções locais?

G: Quem sabe seja sim. Ver filmes é importante, sempre te faz ver quantas coisas originais tem o lugar onde tu vive. Se eu gosto de ver filmes meio toscos do filipino Brillante Mendoza, por que não iam querer ver uma tosquice bem original daqui?

D: acho que dizer que sim, seria resumir os filmes por causa da força (ou falta dela) de exibição da cidade. Não seria justo. Acho que a gente sabe bem qual é o panorama e vícios da nossa produção e do nosso circuito exibidor na cidade. Mas não acho que estão inteiramente interligados. O trabalho a ser feito é arejar ambas as coisas, seja em forma da crítica (viva a Zinematógrafo, Teorema, etc!), seja em bons festivais/mostras/sessões, seja em filmes que gostam de se arriscar.

Avanti Popolo tem como protagonista o saudoso Carlos Reichenbach, certamente o mais cinéfilos dos cineastas brasileiros. Como vocês vêem, especialmente em Porto Alegre, a relação entre a criação cinematográfica e a cinefilia?

G: Queria ver mais cineastas, não só na Sessão Plataforma, mas em todas as mostras e festivais que estão trazendo coisas boas e muito relevantes. Sinto falta de alguns. (Risos).

D: Eu gosto de ver e mostrar filmes, mais que fazer filmes (risos). Acho que a cidade tem uma certa ruptura mesmo, da cinefilia e cinematografia. Temos que lembrar que o que estão sendo projetados são filmes e não as pessoas que fizeram eles. Aqui, a galera tende a achar que são as pessoas projetadas e daí se surgem críticas ruins, sobram beiços e desavenças. Não, são só filmes, bons pra alguns, ruins pra outros. E deu. Temos que ver mais os filmes, sabendo que são só filmes, gostar ou não deles, e poder falar sobre isso sem problemas.

O que o público pode esperar de O Ato de Matar?

G: Borrachice. A relação com os personagens do filme se torna confusa. É ternura e horror. É político, é humano. Acho que em tempos de protestos e revoltas, tempos que temos refletido como a policia encara a sociedade, é muito interessante ver o orgulho das torturas praticadas nos anos 60 ecoando nas cabeças herméticas, ainda nos dias de hoje. Existem pessoas assim no poder, e o pior, em todos os lugares.

D: exato, e é um exemplo legítimo de filme muito forte e especial que não conseguiria dialogar com o circuito exibidor da capital. É uma experiência muito intensa e desconcertante. Daqueles filmes que tem partem em mil pedaços.

Por Leonardo Bomfim