Dois do bom e velho tropicalismo

Uma revisão tardia dos mais recentes álbuns de Gal e Caetano.

Gal-Costa-e-Caetano

No final da década de 60, surgia nos olhos de quem quisesse ver e nos ouvidos que quem quisesse ouvir o movimento tropicalista. Redescobrindo e criticando a tradicional forma de fazer música, antes baseada na cópia e reprodução de influências estrangeiras, o tropicalismo vinha resignificar a linguagem da canção, desconstruir padrões, criticar gêneros e estilos e reinventar a linguagem musical. O movimento tropicalista transformou a forma como fazemos música e traz essas influências até hoje. A antropofagia artística da Tropicália integrou procedimentos de vanguarda e levou a um redimensionamento do produto musical tornando-o também um objeto artístico, que fundia áreas como a literatura e as artes visuais com a música. O ataque às formas desgastadas da comunicação artística e à pequena burguesia que vivia o mito da arte redimensionou a questão da participação política nas artes. Ainda, através da experimentação com a música aleatória, concreta e eletrônica, e com a arte cubista e dadaísta, o movimento desconstruiu e reconstruiu a identidade da música popular brasileira.

Do tropicalismo podemos tirar vários nomes fortes para a música brasileira, e vamos com os mais óbvios como Caetano, Gil, Gal, Rogério Duprat, os Mutantes, Tom Zé, entre outros talvez não citados aqui, mas tão fodas quanto. Escolhi dois desses nomes que, pra mim representam a composição poética do tropicalismo e a voz, respectivamente: Caetano Veloso e Gal Costa. Andei ouvindo os últimos trabalhos desses dois, que reforçaram a parceria musical nos últimos anos, combinando talentos e trazendo como resultado, trabalhos surpreendentemente (ou não) autênticos e modernos, atuais e maravilhosos!

De Abraçaço (2012), mais recente álbum de Caetano Veloso, começo chamando atenção para o fato de o compacto estar situado nas prateleiras de indie-rock-samba. Sim, senhorxs. Desde Cê (2006), produzido por Pedro Sá e pelo filho Moreno Veloso, ele já trazia uma roupagem rockeira da MPB. Em Zii e Zie (2009), produzido por ele mesmo e pela Banda Cê, Caetano classificou sua música como transamba. E parece que da parceria com a Banda Cê, que acompanha Caetano, só sai faixa boa, e neste último trabalho o caminho é esse: pular de gênero em gênero. A faixa que abre o álbum, A Bossa Nova é Foda, apresenta o que se vai ouvir a seguir: um apanhado de composições mistas, cheias de efeitos e surpresas boas. Entretanto, não se engane. Não quero dizer que com isso basta ouvir a primeira música pra já saber do resto do trabalho. Só achei uma introdução bem escolhida. Um Abraçaço, segunda faixa, traz o hino, um solo distorcido de guitarra, e o título do compacto que, se não tomar cuidado, gruda fácil. E nesse abraço tem samba, bossa, rock e até funk. Eu disse f-u-n-k, do carioca mesmo (ouvir faixa sete: Funk Melódico). Depois de fazer nos cair os butiá do bolso ouvindo o beatbox “tchumtchumtcha” de Funk Melódico, o querido volta com uma bossa/jazz de beira de praia, gostosa e suave, faixa oito chamada Vinco. Tudo isso com a indispensável e inseparável densidade literária de Caetano (destaque para Um Comunista e Quando o Galo Cantou, faixas seis e nove, respectivamente): rima, sensualidade e poesia em música, onde as composições estranhamente fazem todo o sentido ao mesmo tempo em que não tem sentido algum. Fechando o álbum, a música Parabéns traz, em duas estrofes, uma nova versão de ‘parabéns pra você’ (quero esse parabéns no meu próximo aniversário, por favor!).

Recanto (2011), de Gal Costa, marca o trigésimo álbum da artista e mistura música eletrônica, com trip hop e MPB. Todas as faixas desse compacto foram compostas por Caetano e produzidas por Moreno Veloso. Assim como Caetano, Gal conseguiu se reciclar, se reinventar. Com a idade, perdeu um pouco dos agudos famosos na Tropicália, mas em compensação valorizou os graves como nunca, e trouxe um lado Gal novo e moderno. A música Recanto Escuro, que abre o CD, é instrumentada por voz e efeitos eletrônicos, uma diversidade de timbres que a acompanham por todo o resto do trabalho, de forma sutil e muito bem colocada nas composições. Destaque para Autotune Autoerótico, terceira faixa que autotunou a voz de Gal, acredito que pela primeira vez, e que traz um grave natural lindo nos primeiros versos da letra. A influência eletrônica e experimental nesse álbum de Gal é excepcionalmente combinada com sua voz, um trabalho de produção muito bem feito, o que levou a cantora para esse caminho novo. Destaco também a faixa cinco Neguinho, sensacional, que começa com uma batida eletrônica e sintetizador tipo anos oitenta, e que, paralelamente traz essa expressão popular super brasileira: “neguin”. O álbum segue com a delicadeza de Madre Deus, que, em um solo, traz um pouco do experimental eletrônico do projeto, e Mansidão, talvez a mais conservadora das faixas. Lá pelas tantas, a faixa nove, Sexo e Dinheiro, me deixou um pouco entediada por ser retilínea e sem muitas variações, mas a seguir, Miami Maculelê, compensa o cansaço. Nessa faixa, Gal também tem seu próprio momento funk moderninho, com direito a autotune e rap. O disco fecha com Segunda, (que se não fosse pela letra também seria meio chata) espécie de baião.

Nos dois álbuns, o hibridismo e a antropofagia seguem como na Tropicália: violão misturado com guitarra distorcida; samba misturado com rock;bossa misturada com música eletrônica; funk carioca se apropriando da música popular brasileira. Caetano e Gal continuam devorando a música atual, confundindo elementos tradicionais e modernos, produzindo encontros culturais cheios de conflitos de interpretações. Seguem como exemplos de originalidade e autenticidade na música brasileira.

A vanguarda continua!

Links para ouvir

Abraçaço, de Caetano Veloso: http://grooveshark.com/#!/album/Abra+a+o/8493615

Recanto, de Gal Costa:http://grooveshark.com/#!/album/Recanto/7313454

Por Morena Chagas