Uma nota extraliterária

Porto Alegre, apesar dos pesares, sempre foi uma cidade que prezou pela cultura. Ela se tornou um dos eixos da produção literária, cinematográfica, musical e visual fora do centro Rio-São Paulo. Uma das tradições mais fortes na consolidação desse posto é a de pegar espaços públicos que não estejam em uso e transformá-los em ambientes que promovam a inclusão e a circulação de ideias — dois exemplos fortes que posso citar são a Usina do Gasômetro e a CCMQ.

O governo municipal atual, entretanto, não compartilha dessa visão que caracteriza nossa cidade. Sob a desculpa do progresso (ironias do processo social: os progressistas são conservadores e os conservadores são progressistas), prefere tomar um espaço referencial, o Cais do Porto, e privatizá-lo, permitindo que a desfiguração urbana, já acentuada pela especulação imobiliária dentro dos bairros, atinja o Centro. Um shopping é um shopping. Um shopping não promove a cultura. Um shopping não integra as pessoas. Ao contrário, shoppings são lugares segregadores. Se hoje está sendo o Porto, o que mais pode ser amanhã?

Permitir que a cidade seja vendida, permitir que empresários e políticos suspeitos decidam sobre nosso futuro e permitir que os ambientes caros a população sejam destruídos é um erro que não se pode cometer. Muitas das conquistas de 2013 foram simbólicas, mas o simbolismo pode ser transmutado em algo concreto. Digam para o Tarso preparar as bombas e lembrem-se de Gullar: Stalingrado resiste.

Por Bruno Rodrigues