De volta aos anos 1990

Cresci nos anos noventa. As lembranças afetivas sempre serão especiais dessa época. As lembranças esportivas também, os clubes de futebol, principalmente os de fora do estado, sempre são associados primeiro por mim a seus papéis da década de 1990: o Palmeiras odioso pela Parmalat; Botafogo, do Túlio, e o Fluminense? O Fluminense era melancólico. Melancólico time do Chico Buarque. Que caia e não caia. Que era piada por isso. Lembro dum lateral direito com vitiligo chamado Ronald, que, acho, fazia gols de pênalti. Também lembro do eterno goleiro Wellerson que eu insistia de chamar de Uererson.

Neste tempo todo o gol de barriga de Renato é o momento mais louvável da minha lembrança afetiva do tricolor carioca. Logo depois, o rebaixamento em 1996. Mas mesmo assim disputou em 1997, em virtude daquelas decisões controversas recorrentes na época. 1997 caiu de novo. Numa destas Renato prometeu andar pelado caso flu caísse. Não cumpriu. Em 1998 caiu pra terceira. Subiu em 1999 e nem precisou disputar a série B: foi reconduzido à Série A depois da confusão no caso Sandro Hiroshi e a criação da Copa João Havelange.

Agora toda essa lembrança volta. Os torcedores de todos os times começam a ironizar o time carioca. Caiu no campo para a Série B e aí, em uma reviravolta típica dos anos 1990, na justiça permaneceu na Série A, com a perda de quatro pontos por parte da Portuguesa com a utilização do jogador Heverton que havia sido suspenso em julgamento dois dias antes da partida.

Difícil comentar o caso, que parece até ter alguma procedência, e os próprios críticos e cronistas se dividem entre avaliar como uma justiça por um erro cometido da Portuguesa e o bom senso de manter os resultados do campo, visto que o jogador com 13 minutos em campo pouco acrescentou a um empate contra o Grêmio pela ultima rodada. Agora é fácil falar sobre como esse episódio desgasta a imagem de um clube que voltou nos anos 2000 a conquistar títulos como o Bicampeonato Brasileiro, uma Copa do Brasil e até um vice-campeonato da Libertadores. Mas agora o Fluminense volta a parecer o da ultima década do século passado, que nos lembramos com graça e certo ressentimento.

O Fluminense de Chico Buarque, que durante tantos anos de glória forjou ídolos e craques como de Romerito, Washington, Assis, Renato, Fred e Conca, tem em sua historia envolvida com tramites que desgastam os seus piores momentos. Muito mais que uma queda de divisão, que fortaleceu tantos grandes clubes, a não-queda prejudica a reputação do tricolor carioca como nenhum outro clube. Provavelmente se continuar na primeira divisão para 2014, alguns jovens de hoje em dia lembrem, assim como eu nos anos 1990, dum Fluminense sem o charme de suas conquistas e jogadores. Pena principalmente para os torcedores de um clube tão importante pra o futebol Brasileiro, que nada a tem a ver com estes episódios fora do ambiente esportivo.

Por Chico Guazzelli