O claro e o escuro

Cena de "Um Estranho no Lago"

Cena de “Um Estranho no Lago”

O sol de primavera, a felação a céu aberto, o olhar sereno frente ao sexo: existe um prazer manso em filmar o prazer intenso que talvez explique o desconcerto inicial diante do que pode ser Um Estranho no Lago. O certo é que, distante de qualquer maneirismo de gênero, seja do cinema erótico ou do suspense, o filme de Alain Guiraudie aparece como uma das obras mais singulares da temporada.

 Em seu quarto longa-metragem, o francês permanecia invisível no circuito brasileiro até os louros no Festival de Cannes deste ano: ganhou melhor direção da mostra Un Certain Regard e a Queer Palm, premiação que já sussurra o que existe no sulco da obra: sob o manto da natureza – e apenas dela – homens se encontram num lago para transar.  

O claro

O céu azul anuncia a claridade. Mas ela também está presente nas regras do jogo: não há qualquer vestígio de mal-estar ou acanhamento, todos sabem o que cada um faz ali. Mais do que qualquer outro filme deste ano, aqui a homossexualidade não é uma questão. Ela é – isso basta a Guiraudie, que não tem pressa de impor uma trama à sucessão de trepadas e rapidinhas que seu filme apresenta sem pedir licença ao espectador.  

Franck, o protagonista, é apenas mais um caçador nos bosques. Não faz nada de diferente dos outros homens. A convivência tranquila entre os frequentadores do lago acentua a ambiguidade do título original: quem é o desconhecido (l’inconnu) do lago? A rigor, todos são – chega a ser ingênua a surpresa de um personagem externo: você transa com alguém e não sabe o nome? Porque os homens não estão no lago para trocar confidências ou cartões profissionais. Estão atrás do prazer imediato. 

De início, há apenas uma exceção, o personagem de Henri, claramente deslocado naquele espaço. Talvez até faça jus à tradução desastrada brasileira que transforma “desconhecido” em “estranho”. Até fisicamente não segue o padrão: o sujeito é gordo, mais velho. E está ali apenas para observar e conversar, afirma. O único que lhe dá atenção é Franck, numa cumplicidade amigável que vai crescendo à medida que o suspense também toma conta da obra – essa dualidade, a amizade com o sujeito aparentemente inofensivo (inclusive do ponto de vista sexual) e atração pelo perigo, é um dos pontos mais desconcertantes de Um Estranho no Lago. Porque aí as coisas começam a se tornar menos instantâneas: há um desejo por continuidades, por estabelecer alguma narrativa naquele lago – sexual ou afetiva. 

Mas a tradução esquisita do título também oferece uma chave importante: porque se existe um estranho naquele lago, somos nós, espectadores de cinema, tão interditados a ver o sexo entre homens sem qualquer tipo de histeria (positiva ou negativa). Não existe nenhum tipo de excesso no olhar de Guiraudie, mas suas imagens também não têm medo do lobo: o sexo contínuo nos bosques empresta ao filme uma potência quase brechtiana. Diante de Um Estranho no Lago, é impossível não pensar no modo como o corpo masculino, e mais, o corpo masculino no ato do sexo (não precisamos nem falar do sexo entre homens), é historicamente encarado pelo cinema. Ou também no modo como as relações de poder são expostas na carne: é muito forte ver Franck completamente entregue a outro homem sem que um fiapo de sua masculinidade esteja em questão (está aí uma cena política do nosso tempo, quando Franck pede um beijo na boca para o homem que o masturba no momento em que vai gozar).

A política está em imagens que assombram olhos acostumados a ver as mesmas coisas desde sempre, é claro, mas também está na eliminação das fronteiras: não se pode mais distinguir o que é claro e o que é escuro, o que é amor e o que é horror, o que é queer e o que não é queer.

O escuro

Por causa da opção minimalista – há apenas um espaço, personagens e ações recorrentes, enquadramentos repetidos – cada pequeno detalhe que sai do lugar é capaz de transformar a serenidade da obra. São essas minúcias que introduzem o escuro, talvez o real desconhecido citado no título, algo que culmina com o assassinato testemunhado pelo protagonista e com a consequente relação entre desejo e medo no outrora tranquilo lago.

Não me parece ser fruto do acaso que a noite caia justamente quando as fronteiras se tornam indefinidas. Mas Guiraudie anuncia o escuro no filme sem apelar a quaisquer muletas psicológicas. Não há alteração de tom: sua câmera não força nada, não há música, o filme não muda a velocidade de seu metrônomo – a começar pelo assassinato, que é filmado como mais uma coisa que acontece ali, com a benção do Éden. 

A cena chave, nesse sentido, que demonstra o quão distante de Hitchcock está filme, apesar das aproximações imediatas que estão sendo feitas, é aquela em que Franck recebe o convite para nadar no lago, sabendo que poderá ser assassinado. Ali, não é possível distinguir com clareza (Hitchcock, mais do que qualquer outro, é o cineasta das coisas claras, seu suspense nasce sempre de algo muito bem delineado) o que sente o protagonista. O que é um medo? O que é um desejo? Como filmá-los? O que Guiraudie evidencia é que ele sente algo poderoso, que toma o controle de seu corpo sem que exista margem para alguma escolha mais racional.

De qualquer forma, quando a escuridão entra em cena percebemos que a tranquilidade do local não é tão flagrante. O lago é um refúgio, um espaço onde os homens podem se encontrar com a certeza de que não serão descobertos. Mas também é onde podem ser solitários, inclusive entre eles. No fundo, não há tanta diferença assim entre o lago de Guiraudie e as centenas de inferninhos do submundo que povoam o cinema queer desde os anos 1960 – a presença da água, aliás, tem quase o mesmo respiro poético de uma pista de dança.   

É claro que vivemos um momento importante do cinema: o outro, na trupe sexualmente libertária de Tatuagem, é o militar. Em Azul é a Cor Mais Quente, Kechiche “banaliza o casal gay”. A naturalidade com que Guiraudie encara seus homens também faz parte desse contexto: o homossexual já pode ser visto como qualquer um. Mas todos os filmes, de uma forma ou de outra, mostram que é preciso criar um próprio universo (uma trupe de teatro, as paredes da vida conjugal, um lago exclusivo) para que se possa viver como “qualquer um”. Há um falso conforto dentro de um isolamento enorme.

Se Um Estranho no Lago parece mais importante do que seus pares, é porque coloca em questão essa relativa tranqüilidade ao fazer a partie de campagne se virar parceiros da noite

Por Leonardo Bomfim