Anarquia e literatura, primeira parte: O corpo silencioso

Je suis venu à confondre, pas à expliquer.

(Chacrinha ou Proust, não lembro).

Este ensaio se chama Anarquia e literatura. Ele parte de uma ideia muito simples: a literatura (sempre em letra minúscula, por favor: tu ainda não aprendeu que nada é mais danoso que uma instituição?) talvez seja o ambiente anárquico por natureza, no qual a horizontalidade e a falta de hierarquias são o que possibilitam a ontologia. Creio que dentro de um objeto literário, tudo possui igual valor, do autor ao leitor, de uma ponta a outra. Não basta o império do Autor ser derrubado: é preciso colocar tudo no mesmo patamar. Blá, blá, blá. Lá pelas tantas, com a tese mais ou menos bem fundamentada, me apareceu esta ideia estranha, a qual, por falta de nome melhor, chamo de “corpo silencioso”.          

Me deixa explicar: falo da constituição de um Ser, de mecanismos abstratos que constroem algo concreto, de uma coisa que vive. Tudo aquilo que existe necessita de um organismo — tanto faz se é um porco, um ser humano ou um sistema econômico: todas as coisas possuem corpo. Esse corpo pode ser mais tátil ou menos, dependendo de como o Ser se comporta diante o mundo. O capitalismo, por exemplo, possui um corpo preocupado com a sua própria defesa e manutenção, um organismo, portanto, que se desenvolveu fragmentado e em eterna crise para que coisa alguma consiga ferí-lo gravemente. Apesar dessas características particulares, ao corpo do capitalismo é um corpo completo. Ou seja, é possível entender o seu funcionamento em todos os níveis, assim como o corpo de um porco ou de um ser humano. É possível enxergar suas lógicas e sustentações. Tudo bem até aí. Mas quando falo de literatura, daquilo que não sei o que é e nem como explico, a coisa complica.

Gostaria de lembrar o leitor que tu nunca vai ler todos os livros que já foram escritos. Tu nunca vai conhecer todos os escritores. Tu não conhece nem todos os escritores da tua cidade, o que dirá do mundo. Uma visão geral da literatura é impossível. No máximo, conseguimos absorver uma parte ridícula apenas do mundo ocidental (leia-se: oeste da Europa, Estados Unidos, territórios próximos e/ou colonizados). Nosso domínio literário é baseado em regras e convenções estabelecidas, as quais nos soam invioláveis. Não é à toa que ainda se perde tempo discutindo a Poética do Aristóteles. É como se os físicos, ao contrário de estudarem Einstein, ainda falassem do átomo indivisível de Demócrito. Façam-me o favor. Nunca vamos ver o corpo inteiro da literatura, nunca vamos entender todas as possibilidades que se abrem no momento no qual a linguagem é convertida em algo mais. A institucionalização da literatura (“Literatura”) é um processo de construção de dogmas. Na verdade, toda a ideia de Literatura enquanto instituição, a qual se inicia em fins do século XIX dentro das Academias, é uma construção ficcional, sem amarras práticas. O pensamento em torno de escolas literárias, de grupos, de junções, é voltado para a edificação de uma identidade que não é real por conta dessa impossibilidade da leitura total. A Literatura foi inventada, vive no campo da ontologia das invenções, e, que por ser uma invenção, vive ao lado da vida. O que eu quero pensar e viver é a literatura, a pequenice do Ser de corpo silencioso, que atravessa a vida como a lança dos bárbaros atravessava os colonizadores.

O amor é, entre outras coisas, a necessidade do corpo do outro. O insuportável ao se distanciar do objeto amoroso é o desejo pelo corpo. É isso que, por exemplo, torna a mentalidade homofóbica tão violenta ao não permitir que os homossexuais possam se tocar nos ambientes públicos sem medo de sofrer represálias. O amor precisa ser consumado. Quando se trata da literatura e do seu corpo incompleto, o desejo do toque não pode ser saciado. A literatura talvez não seja os livros dispostos nas estantes, talvez não seja as bibliotecas, muito menos as livrarias. É preciso parar de ligar a ideia de literatura com a ideia de livro. Andei dizendo por aqui um tempo atrás: ninguém sabe o que é literatura. Creio que a falta de compreensão do que ela é parte desse corpo incompleto e intocável. Para Ser, para ela estar no mundo, ela precisa de um corpo. Para existir, porém, para agir sobre o mundo, ela se constituiu de um corpo repleto de espaços vazios, de silêncios. 

A literatura existe quando ocupa outros corpos. O meu, o teu. Nós que a mantemos viva. O corpo dela entranha no nosso. Como o Espírito Santo fecundando Maria pelo ouvido. Jardim dos prazeres: literatura é antirreligião. Ela não promete nada e não entrega nada. Apesar disso, o culto pagão nunca se desvanece.

 Por Bruno Rodrigues