Inferno Carioca

Sem título

Calor de mais de 40 graus, praias lotadas e milhares de turistas circulando pela cidade: o cenário pode parecer um típico verão carioca, mas a ostensiva presença de cassetetes e capacetes entre os biquínis e rodas de altinha não nos permite relaxar. A violência urbana, repressão policial e segregação racial são elementos rotineiros da vida no Rio, mas nos últimos meses, a cidade tem sido palco de situações cotidianas que apontam para as contradições mais profundas nas políticas públicas da cidade.

Quarta-feira, 20 de novembro, Dia da Consciência Negra:

Em um pleno feriadão de sol, dezenas de jovens participaram de mais um arrastão nas praias de Ipanema e Leblon. São pessoas oriundas de comunidades próximas às praias ou que se deslocam da Zona Norte e Baixada para realizar pequenos furtos em dias de praia lotada.

Durante a década de 1990, eram muito comuns os arrastões em Copacabana e Ipanema, mas há mais de uma década não se via algo na proporção do que ocorreu neste verão. A resposta do governo? Mais polícia, mais repressão. Cerca de 150 homens, inclusive do Batalhão de Choque, foram deslocados para as praias durante os finais de semana e feriados, e ônibus vindo das regiões mais pobres da cidade em direção à praia passaram a ser revistados pelos fardados. Os alvos: jovens pardos, mulatos e negros. Tudo dentro da Lei.

Em um final de semana comum deste verão, não é difícil contar 30 fardados – entre PMs, Choque e GMs – no trajeto casa-praia-casa. O resultado: diversas pessoas foram detidas por roubo, tentativa de roubo e desacato à autoridade, a maioria é de jovens,mulatos, menores de idade e da periferia.

Os arrastões e assaltos continuam corriqueiros neste verão. Na semana passada, o comandante do batalhão do Leblon disse não haver mais policiais disponíveis, pois já estão todos nas ruas, apesar da contínua ocorrência de delitos no bairro. No Arpoador, policiais e guardas chegaram a aconselhar banhistas a saírem da praia devido à nova onde de roubos e arrastões, em um claro gesto de incompetência e falta de planejamento.

Domingo, 24 de novembro:

Um dos Mega projetos do empresário Eduardo Paes, que também ocupa a cadeira de prefeito da cidade, é o tal Porto Maravilha, “revitalização da zona portuária”. O projeto prevê a construção de dezenas de prédios comerciais, shoppings, escritórios e novas vias urbanas, mas até agora o que vemos são inúmeras remoções forçadas nas comunidades da Gamboa, Saúde e Morro da Providência, milhões de reais gastos e muito caos urbano.

No fatídico dia 24, veio abaixo parte do Elevado da Perimetral, via que ligava as áreas periféricas da cidade, inclusive o aeroporto internacional ao Centro, Rodoviária e Zona Sul. Era praticamente uma reta de concreto acima da cidade por onde circulavam milhares de carros por dia, uma das principais artérias da cidade. Como alternativa de transporte foi construída uma rua – Via Binário – cheia de curvas, semáforos e mal sinalizada. Hoje, um carioca que tenha passado os dois últimos meses fora da cidade e que chegue pelo aeroporto, Avenida Brasil ou Linha Vermelha dificilmente irá encontrar o caminho de casa na primeira tentativa.

Antes de o Elevado ser demolido, no entanto, houve um dia de teste. O objetivo era verificar como ficaria o trânsito na cidade sem a via e também para que os motoristas se acostumassem com o novo trajeto. O problema é que o teste foi realizado em um domingo, quando poucos saem para trabalhar e o trânsito é sensivelmente reduzido como em todas as cidades do mundo no dia de descanso. O teste foi um sucesso, segundo as autoridades. Bota abaixo!

Até hoje, mais de um mês sem a Perimetral, acidentes são comuns e o trânsito caótico na região, apesar da presença massiva de agentes de trânsito e GMs que mais servem para multar os motoristas desavisados dos novos sentidos de ruas, semáforos e cruzamentos do que auxiliá-los no processo de adaptação.

Os moradores do entorno desta obra – como de muitas outras de “revitalização” ou destinadas à realização da Copa e Olimpíada – estão sendo removidos de suas casas para locais que ficam a mais de duas horas do Centro como se pode ver neste mapa: http://bit.ly/1kyMdNK.

Sábado, 30 de novembro:

Com a aproximação do Natal e do período de intenso consumismo de final de ano, como já é de tradição – infelizmente – a Árvore da Lagoa foi inaugurada. O objeto é uma grotesca árvore metálica cintilante que fica boiando no meio da Lagoa Rodrigo de Freitas, na Zona Sul. Milhares de pessoas se deslocam de toda cidade para ver o show de luzes em pé ao redor da Lagoa.

O evento é conhecido por deixar o trânsito caótico no bairro e seus arredores. O governo destinou 120 agentes de trânsito e GMs para o local durante a permanência da vara flutuante. O Metrô Rio criou uma linha extra de ônibus – sim, o Metrô Rio opera ônibus – saindo de Copacabana para a Lagoa, já que o transporte público na região é escasso. O problema é que a linha extra existiu apenas pelos dois dias do final de semana de abertura do mastro e nenhuma outra solução foi oferecida como alternativa posteriormente. O canteiro central das pistas que circundam a Lagoa, usado ao longo do ano para estacionar carros, fica fechado durante o período de intensa circulação de veículos na área e as autoridades aconselham à população fazer uso do transporte público – praticamente inexistente – para chegar ao espetáculo. Ou seja, apesar de grande parte do público se deslocar da periferia para a Zona Sul, o estacionamento na área fica proibido e nenhuma alternativa de transporte é oferecida, fora a piada do Metrônibus que é tão curta que nem dá tempo de rirmos dela.

Sábado, 4 de janeiro:

Com as praias lotadas e o calor de rachar, os cariocas buscam outras áreas de lazer como as cachoeiras espalhadas pela Floresta da Tijuca. Ponto comum entre jovens, estes locais são marcados tradicionalmente pela tranquilidade da natureza e distância do caos gerado por excesso de veículos, policiamento e violência da orla. Costuma-se parar o carro, andar alguns metros e se deparar com a beleza de grandes árvores – essas sim admiráveis – e quedas d’água.

Ocorreu, no entanto, que neste dia o jornal impresso O Globo divulgou as cachoeiras do Horto como ponto de fuga das praias. Para quê? Na mesma tarde as cachoeiras mais frequentadas, que tiveram suas fotos estampadas na capa do jornal, estavam lotadas de banhistas com suas cadeiras de praia, garrafas de refrigerante e biscoitos artificiais, tudo para virar lixo na mata em seguida. O pior: o ostensivo policiamento também chegou à área, policiais armados de fuzis em suas viaturas cintilantes e GMs multando a torto e a direito onde não existe sequer sinalização e motoristas param sem atrapalhar o trânsito há anos. Chegou a ordem, diria nosso businessman-prefeito, e com ela o choque no trânsito, o estresse generalizado, a enorme renda de multas e o fim do conforto perfeito que somente os sons da mata podem nos oferecer.

Entendam, não me oponho à divulgação de informação por parte d’O Globo, mas critico as medidas acatadas pelo governo no sentido de (in)viabilizar o uso deste espaço público. A movimentação do público na região, mesmo nos dias mais cheios, nunca precisou ser mediada pelo governo através de seus agentes fardados e dotados de ordens descabidas. A noção de que eles são necessários para prevenir acidentes e manter a ordem vem abaixo quando a sua presença é justamente o fator desestabilizante da circulação rotineira da população no local.

Em suma, os processos de gentrificação e construção de um modelo de cidade consumível na qual todas as relações sociais são mediadas pelo Estado através de inúmeros agentes despreparados e mal treinados são latentes mesmo durante o que seria o período de lazer e relaxamento. A concentração das atividades de lazer na Zona Sul atrai milhares de moradores da periferia que, sem acesso a áreas recreativas nos seus bairros, se deslocam por uma cidade mal planejada em acelerado processo de transformação com transporte público de péssima qualidade e alto custo. E mesmo quando conseguem chegar à orla ou à Lagoa são tratados como cidadãos de segunda classe podendo passar por revistas ou serem selecionados como suspeitos a priori pela sua cor de pele, vestimenta ou forma de se expressar. A única alternativa que nossos governantes conseguem implementar para o déficit histórico na educação, distribuição de renda, lazer, saúde e habitação é contratar mais agentes públicos na tentativa de sustentar barreiras sociais invisíveis que mantêm o pobre sem poder de consumo distante das áreas urbanas – a cidade – dos ricos de alto poder aquisitivo. É o modelo de cidade-commodity, ou paga-se para viver ou não se vive.

 Por Daniel Furrer