Eis tragédia

Tinha feito seis anos no dia anterior quando chorei a morte de Senna pela TV. Dez dias antes chorei ao voltar da escola e saber da morte do meia Dener em um acidente de carro. Dener era a sensação no futebol brasileiro e tragicamente faleceu com apenas 23 anos em 1994. Em 2002 a revelação do Internacional Mahicon Librelato também faleceu prematuramente, aos 21 anos, em um acidente de carro. O esporte e a tragédia. A dor da morte. Nunca mais me empolguei tanto com fórmula 1, para mim é um esporte que propaga velocidade e força de automóveis e os motoristas arriscam calculadamente a vida em cada curva. O que não diminui em nada a tragédia e o peso da morte de Senna, como nenhuma outra vida perdida em qualquer esporte.

A cena da canela do Anderson Silva, no fim do ano passado, também foi uma cena forte, em um esporte para muitos violento em que os riscos são naturais e assimilados desde cedo numa lógica de competição e espetáculo. O que não apaga a dor e a tragédia de um atleta considerado o maior do esporte, um atleta que nunca sangrou e que os golpes aplicados de tão técnicos quase nunca pareceram violentos. E que com 38 anos caiu na lona com uma dor lancinante. Tragédias e dores. O esporte é feito delas. As carreiras dos atletas num instante não me parecem tão importantes. Anderson Silva voltará? A pergunta de todo dia na mídia esportiva especializada. 

No mesmo fim de semana, praticando esqui um dos maiores pilotos da história da fórmula 1, Michael Schumacher caiu de cabeça numa pedra e está até hoje em estado crítico. Dificilmente aprendemos a lidar com as tragédias e as dores nas nossas vidas cotidianas, mas não temos escolha que não contorna-las mesmo quando aparentemente não superamos. No esporte a tragédia toma proporções maiores e sensacionais, os nossos super-homens modernos também sofrem. Recentemente a morte do ex-jogador moçambicano-português Eusébio encheu de luto os aficionados pelo futebol pela perda de um dos maiores jogadores da história do futebol.

Nos cursos de jornalismo e nas práticas diárias nas redações não aprendemos a lidar com as tragédias, com as mortes, os acidentes e as pernas partidas exibidas na televisão. Não sabemos conciliar a dor comum, a dor popular, com a dor pessoal do atleta. São dores diferentes: de um lado a dor de quem espera um super-herói para compensar suas angustias e do outro a própria angustia e a dor de uma simples pessoa. Francamente o que importa agora se Anderson Silva continuará lutando? Não bastou para os aficionados do MMA tudo que ele fez pelo esporte? Precisamos realmente acompanhar o estado critico de Schumacher minuto a minuto chegando ao ponto de um repórter tentar entrar disfarçado em seu leito no hospital?

Nós todos precisamos de super-heróis, sejam eles pretensos justiceiros ou ídolos que vendem sonhos e produtos todos os dias. O problema é que nós não sabemos lidar quando vemos que nossos heróis, para além de salários estratosféricos e habilidades superiores, também se machucam, morrem e acabam. E tudo bem assim, particularmente prefiro meus heróis humanos como Anderson, Schumacher e o recentemente falecido jogador português Eusébio. Porque todos eles um dia caem, se machucam e morrem. 

Por Chico Guazzelli