Esse é só o começo

Para Luísa, com amor que se movimenta.

 

“Vigilante desaparece nas águas do Rio Forqueta.

Um homem de 30 anos desapareceu quando atravessava as águas do Rio Forqueta, no fim da tarde de ontem, entre Lajeado e Arroio do Meio. O Corpo de Bombeiros foi acionado por volta das 18h30, até as proximidades da ponte de ferro que liga os municípios. Segundo os bombeiros, a familiar presente informou que o vigilante Volmir Macedo Assis (26) teria desaparecido quando se banhava no rio, nas imediações do encontro do Forqueta com o Rio Taquari. No início da manhã desta terça-feira, os bombeiros retomam as buscas, com auxílio do Grupo de Buscas e Salvamento de Porto Alegre, já com poucas esperanças de encontrar o corpo.”

Foto por Tuane Eggers

Foto por Tuane Eggers

Quando estava ela, mansa, sobre os gramados úmidos da relva, com um mato que ia quase aos joelhos tapando seus calçados rasteiros, esperando-me exatamente onde combinamos. Quando lá estava ela, hesitei. Mas não hesitei ir ao seu encontro, e sim, hesitei enterrar tudo aquilo que me antecedia àquele espaço entre eu e ela. Seus olhos, ao me encontrarem, sinalizavam sua presença sem que precisasse de braços para isso. A discretude já era hábito nosso, mas mesmo que não fosse, o brilho daquele olhar ofuscava como um farol facilmente identificado na costa.

Fui me aproximando como se a cada passo uma peça de metal pesada fosse despida de minhas costelas, passando a fronteira, chegando da guerra colérica de botinas enlamaçadas pelo sangue alheio. Indo de encontro daquela quem ia receber-me com um banho quente, daquela quem ia me sorver de luz diante dos campos sombrios.

Pâmela me mostrou um mundo à primazia, erradicado de sacralidades vis, borrando as escrituras do arbítrio. Com Pâmela pude me redescobrir, descalçar-me e perceber os músculos abastecidos dos meus pés que continham as forças necessárias para desbravar estradas nunca antes habitadas. Me fez, Pâmela, somente Pâmela, desviar meu olhar casto daquele horizonte sinalizado e previsível. Apenas não me fez Pâmela, pelo menos até aquele instante que a mirei esperando-me – pelo menos até aquele estaloso instante – ter coragem de assumir tudo isso, ter coragem de assumir um passado desbotado e descartável, do qual insistia ainda em preservá-lo a fim de sanar uma insegurança boba. Até aquele estaloso instante furtivo de desejo. Quero Pâmela aos meus braços e com ela navegar.

Navegar com Pâmela é observar para além da popa a montanha diminuindo até que se encerre na memória. É abandonar esposa, filho e a ilha fresca. É admitir um fracasso, tocar abaixo um monumento de longa data, apodrecido internamente pela visita do vento, do tempo e o vazio. E desta vez, somente desta vez, colocar abaixo o porto de partida. Pela primeira vez, no estaloso instante, minhas queixas se silenciam, ofego o peito, e rumo ao seu encontro desviando de pedras e crocodilos como se fossem o mesmo. Quero viver Pâmela. Ludibriar-me com sua suave malícia de menina, sua pele castanho-avermelhada como a argila úmida com seus braços envoltos ao meu corpo sufocando-me em vida, até transformar-se em estrela crua. Hoje Pâmela me espera e talvez nem saiba de minhas decisivas intenções. Apenas espera como sempre esperou, paciente e ciente que um dia no caso hoje, chegaria. Tentarei, em meio a nossa discretude, sustentar mistério, bisbilhotar apenas pequenas pistas até que um ritual permeie a atmosfera que nos envolve.

E assim se seguiu. Encerrei nossa distância, cheguei desnudo de meu passado pronto para derramar-me por inteiro em seu corpo que era como um grande recipiente de cerâmica recém modelada. Seus olhos ofuscantes me cegaram, me cegaram as antigas sarnas e frieiras, agora eu estava a salvo pronto a mergulhar em Pâmela, pronto pra recomeçar um novo labirinto de lírios e águas vivas. Minha pele foi calidescendo enquanto deslizávamos nas musgosas pedras e aterrissando suavemente nas margens do arroio até a imersão completa de nossos corpos. Sempre fora religiosamente ali nosso ponto de encontro. Imersos e discretos, entregávamo-nos sem cautelas inconfortáveis, sem sensações de fuga e segredo, sem. Eu era Pâmela e Pâmela eu, mais nada.

Será que sempre seria assim? Aquele ponto marcado, ponto meu e de Pâmela, prova unívoca do nosso amor tenderia a ser desmapeado no momento em que selássemos nossa união. Tudo isso que agora me acontece, me traz o regozijo nunca antes saciado, me torna vida em máxima potência, aquele lugar, aquele céu, aqueles dois corpos nus num só, todos elementos que construíram e constituíram Pâmela dentro de mim, num estaloso instante – agora em outro estaloso instante – tornaria sumiço. Ao teimar no eterno circular da lua pela Terra e da Terra pelo sol, hesitei mais uma vez e desatei meu corpo ao dela. O destino quis que aquilo tudo se tornasse eterno. As águas me puxaram pra dentro como se não fossem elas, mas como se fosse meu desejo estático fotografando pra sempre aquela imagem. O que faltou comigo foi Pâmela, cujos gorjeios de desespero se misturavam pouco a pouco com os ecos das andorinhas. Pâmela ficou – ou melhor – se foi. Quem ficou fui eu na incumbência de reconstruir e reconstituir Pâmela diante aquele tudo me engolindo. 

Por Rodrigo Isoppo