Vagamundo: Peru

vagamundoPor Natascha Castro

Tô no Peru! Tô no Peru, caralho! O cara não parava de dizer esse tipo de frase bêbada e eu me perguntava se era realmente uma boa ideia continuar naquele bar. A decoração era tão norte-americana e tudo que se ouvia era uma mistura de sons incoerentes, mescla de tantos idiomas. As paredes feitas do mesmo silhar que serve de base para toda a arquitetura da Cidade Branca não eram suficientes para me fazer “sentir” o Peru. O turismo corrompe a cultura. É uma prostituição, não há dúvidas. Um escritor peruano entendeu esse processo que começou desde a construção da primeira casa espanhola por aqui. José Carlos Mariátegui falou sobre as heranças enraizadas no estupro, na conquista europeia. Ele também falou no segundo abuso, o turismo. Incontáveis pessoas de todos os lugares, na maioria europeus e norte-americanos, vêem no Peru um excelente ambiente para entrar em contato com a natureza, apreciar paisagens bonitas e conhecer uma cultura já morta, mas muito interessante. A questão era simples, o Peru se vê em si.

A maioria das pessoas daqui, sem contar alguns artistas, arqueólogos e historiadores, não se interessa pelo período pré-colonial. Agora, se tu for um turista com dinheiro, qualquer pessoa pode conseguir chompas e modelinhos artesanais originais, feitos por eles mesmos, com uma técnica ensinada pelos antepassados incas… Suponho que seja assim em todos os lugares. O pior é que uma relação forte e dependente com o exterior pode gerar é essa falsidade cultural. Um alemão na mesa do lado está gritando, parece uma discussão em inglês. Não entendo porque quando as pessoas estão viajando são tão expansivas. Ele defende que o Peru é um país extremamente atrasado, usando como exemplo para provar sua teoria o fato de se beber refrigerante em garrafa de vidro e de quase não existir sinaleiras nas ruas. Também critica a falta de estrutura nas cidades e a desorganização geral das entidades governamentais. Vai ganhar um prêmio esse aí. Alguns livros como “As Veias Abertas da América Latina” deveriam ser distribuídos gratuitamente.

Principalmente porque não são apenas os europeus que precisam conhecer melhor a história do Sul. Alguns peruanos que conheci durante esta estadia aqui em Arequipa pouco se importava com os acontecimentos de seu próprio país ou dos seus vizinhos. A única coisa que conseguiam era repetir o que a televisão prega sobre o demônio populista e seus discípulos. Sequer lembram que também tiveram um presidente populista de direita, japonês, que fazia coisas como distribuir geladeiras para o povo em atos públicos. Mas essa é provavelmente uma generalização tosca de uísque e suco de maçã, porque sinceramente, como disse já cansada para os alemães, franceses e holandeses tão superiormente intragáveis: o turista vive numa bolha, jamais irá conseguir compreender o Peru, simplesmente porque não é um peruano. O que dizer de um povo que não gosta de foto nem de perguntas, que usa a apatia para se afastar de um turismo troglodita? Um jornalista não pode dizer muito, então bebe com estrangeiros e lamenta em linhas pouco sóbrias.