Mobilizações

Os jogadores do Racing Santander se recusaram a jogar. A eliminação do clube nas quartas de finais da Copa do Rei foi aplaudida de pé pelos torcedores. A inusitada desistência dos atletas que resultou na vitória por W O do Real Sociedad ocorreu pelos atrasos nos salários dos jogadores e funcionários e em repudio a má gestão da direção do clube.

O Bom Senso abriu uma petição online aqui no Brasil que visa impor à CBF que tome atitudes concretas para mudar a realidade desigual entre os jogadores profissionais no futebol brasileiro. Uma classe muito estigmatizada pela sua inaptidão política começa a desvencilhar-se do rótulo. Nada mais que um falso estigma. Muitos casos marcaram a história do futebol fora dos gramados. Muitos deles envolveram, por exemplo, os períodos de ditadura militar nos países latino-americanos como é contado no documentário chamado “Memórias do Chumbo: o futebol nos tempos do Condor” dirigido pelo jornalista Lucio de Castro da ESPN. O documentário conta algumas historias preciosas que envolveram o engajamento de jogadores contra as ditaduras, como na chilena, por exemplo, no caso dos jogadores Carlos Caszely e Leonardo Véliz, que foram intensamente contra a Ditadura de Pinochet, ou no futebol uruguaio quando um clube pequeno, o Defensor, ganhou o torneio nacional e simbolizou a contrariedade com o regime. 

Frame de "Memórias do Chumbo: o futebol nos tempos do Condor"

Frame de “Memórias do Chumbo: o futebol nos tempos do Condor”

O Bom Senso, surgido no ano passado, agora traz o que há de mais precioso no futebol brasileiro. O grupo liderado por Dida, Alex e Paulo André tenta coletar assinaturas para sua petição visando pressionar a CBF para mudanças radicais no futebol brasileiro. As possibilidades de greve no ano da copa do mundo pipocam nos grandes centros futebolisticos do país. O movimento vem se dedicando a um esforço tanto para os jogadores dos grandes clubes quanto para os dos pequenos como aparece no começo do texto da petição do Bom Senso:

“Quando os 11 jogadores entrarem em campo para defender a seleção brasileira na Copa, mais de 16 mil atletas profissionais de futebol já estarão desempregados esperando para receber seus salários atrasados. Ser o país do futebol não significa apenas vencer Copas, mas sim fazer deste esporte um ambiente de oportunidade, educação e cultura para todos.”

Outra causa que chama atenção no mundo esportivo é a homossexualidade. Alguns atletas nos últimos anos declararam sua homossexualidade no futebol, no basquete e no futebol americano. No Brasil nenhum grande jogador jamais revelou ser gay. O exemplo de Justin Fashanu, jogador britânico declarado gay no fim do anos 1990 (e que mais tarde se suicidou), demora muito tempo para concretamente ser seguido. Se a homofobia é um dos graves problemas em quase todas as esferas da sociedade, no esporte aprece ser ainda mais problemática. Mas casos como o do jogador Robbie Rogers que assumiu e largou o futebol por não ser um ambiente que o aceitasse e logo depois voltou aos gramados nos EUA sobre aplausos,  nesse momento me encho de otimismo sobre os rumos do esporte, exclusivamente pelas mobilizações dos atletas.

Os atletas como todos nós precisam de coragem. Como Guimarães Rosa já profetizou é isso que a vida quer de nós. E para isso temos que nos mobilizar sempre para conseguirmos benefícios para nossas classes ou mesmo para a sociedade. Atletas de todo mundo, mesmo que pouco a pouco, vem se mobilizando e nós torcedores e aficionados temos que seguir estes exemplos. Seja assinando petições, fazendo reportagens ou da forma que pudermos em nossos pequenos cotidianos.

Por Chico Guazzelli