Alguma poesia nova: Gustavo Rosa

Faz um tempo, algumas décadas, que a poesia ocupa, no Brasil, o espaço da  experimentação e ousadia que a prosa dos autores “reconhecidos” abandonou. Não sei bem  os motivos que desaguaram nesta inversão histórica*. Ali pelo fim do século XIX, a poesia  brasileira era um amontoado formal (excluindo, claro, Sousândrade e a sua gana em desafinar  o coro dos contentes) enquanto a prosa tentava vencer seus próprios limites pelo cansaço. O  século XX assistiu a uma reviravolta — a prosa cada vez mais socada em esquemas e a poesia  cada vez mais perseguidora (os prosistas que não tiveram a vergonha de pisar fora da linha  são aqueles que hoje zanzam sozinhos pelos corredores não frequentados das bibliotecas). Estou pra dizer que o último romance desavergonhado a cruzar o umbral da crítica pequena e da Academia foi Lavoura Arcaica, há quase quarenta anos atrás. Reinaldo Moraes, Mirisola, 
qualquer sopro pra fora do prumo é solenemente ignorado. Etc. A questão é que não há muito tempo pra chorar. Se a poesia tomou o controle foi por merecer, no puro golpe de facão. Poesia Concreta, Jorge de Lima, João Cabral, Orides Fontela, as gerações dos anos 70, 80. Até mesmo nos períodos de apagão geral, como nos anos 90, apareceram por aí Carlito Azevedo e Eucanaã Ferraz. 

Ciente do jogo, tenho a chance de ver outra geração despontar. Aqueles que fizeram seus nomes na primeira década deste século já tem, de certa forma, um espaço que os apeteça. Corsaletti, Angélica Freitas, Ana Martins Marques, Domeneck estão estabelecidos (ou o mais estabelecidos possível dentro do ecossistema precário e sempre em vias de extinção da poesia brasileira). Me bate uma ponta ansiedade em ver uma poeta como a Alice Sant’Anna sendo publicada no alto dos seus vinte e poucos anos e uma ansiedade ainda maior em ver tanta gente pela mesma idade sem ter publicado. É mais ou menos por isso que estamos aqui. A ideia é abrir espaço pra uma nova geração de poetas que possuem a tarefa divertida, porém um pouco desagradável (já que não dá dinheiro, nem glória, muito menos amor), de manter em alta a constituição ousada e experimental que a nossa poesia anda trilhando há mais de meio século.

O que mais me chama atenção nesta nova geração é a facilidade com a qual os poetas têm tratado a questão de “criar uma voz própria”, coisa que assombrou escritores de outros tempos (é só dar uma lida nos primeiros livros do Drummond ou do Quintana pra ver o quanto eles penaram pra chegar nisso). Depois de um tempo embrenhado em blogs e em outros meios de divulgação, se torna rápido identificar quem escreveu tal poema, mesmo antes de verificar o nome embaixo. O poeta que escolhi pra iniciar esta seção aqui no site do Tabaré, Gustavo Rosa, assim como os que vão seguir, tem uma voz muito fácil de identificar, naquilo 
que chamo, por mera diversão própria, de barroquismo cotidiano (coisa que começou a se desenhar na ida época da Poesia Marginal e que não pára de se desenvolver, sendo, talvez, o mecanismo mais forte da poesia brasileira desde então). 

Visão geral: Gustavo não nega as influências que recebeu dos poetas, que citei acima, surgidos na década passada. A ironia, dentro do seu trabalho, funciona de modo semelhante com a ironia que Corsaletti abraçou a partir de Esquimó e que Angélica Freitas sempre demonstrou — não a ironia pela ironia, mas uma ironia que revela uma visão desconfiada do estado e do estatuto de tudo. O que me parece é que há uma continuidade de projeto, desde os anos 70 até agora. As gerações não mais se opõem, mas tentam estabelecer diálogo, partir sempre do ponto que a outra, por algum motivo, parou. Visão particular: eu gostaria de pedir que tu, que em breve lerá os poemas, preste atenção atenta aos objetos. O que me faz ver potencial nestas poesias é o modo de construção e elaboração das coisas. Por vezes, é mais fácil de perceber, como no poema dedicado ao Corsaletti. Por outras, é tão sutil que tu vai te obrigar a ler mais de uma vez pra se dar conta sobre o que está sendo dito, sobre como a palavra pode edificar e, ao mesmo tempo, obscurecer determinada coisa. Um bom exemplo é o poema “há dois séculos”, o qual, pra mim, é o melhor desta coletânea curta. O que sinto lendo o trabalho do Gustavo é que nestes versos tudo tende a uma objetificação, inclusive o espaço (“no meu prédio” e “na esquina de casa”). É uma poética que não gagueja na sua maneira de estabelecer um jeito de enxergar o mundo via a palavra. E não gaguejar é o passo mais importante. 

* Chuto um, só pra não deixar o leitor na mão: o mercado da prosa se tornou profissional demais depois dos anos 80. A poesia, sempre presa no esteriótipo de “invendável”, conseguiu escapar. Se o negócio já não vende, tanto faz como ele é feito. A prosa, porém, parece muito aguerreada a ideia de não chocar demais, de não complicar demais. Por aí. 

no meu prédio

no meu prédio há quase 124 janelas mas só a minha permanece fechada

nos finais de semana

nos finais de semana
eu vou onde vou morrer

– quero aproveitar enquanto posso

olhar os olhos tristes da minha mãe;
beijar meu irmão –
como beijava quando criança

no meu meu prédio
há muitos bancos
e ninguém senta.

§

o silêncio indicando as coisas
vivas
a mudez de um rádio à pilha
sobre a mesa
em sua utilidade
observatória

o silêncio mascando as coisas –
e não cuspindo –
vivas

§

precisão
a palavra

que mais perseguia os poetas
do neolítico

principalmente em noites claras
líricas

pisar em osso nunca é fácil

o contexto era único
a temática a mesma
a organização processual e lógica
dos poetas do milênio

todos
concisos

nunca se repreendiam
a vaidade tinha gosto
de carne

quando tinham fogo
escreviam melhor.

§

na esquina de casa
a calçada é limpa
há farelos entretanto
e sob a pedra fria
alguém deitado
espera o dia

– dorme
porque é o que se faça

eu
disfarço
a calçada é limpa
a coleta seletiva é tácita
depois das 10
a rua é limpa

§

para Fabrício Corsaletti

com uma caneta
feita no japão
eu escrevo sobre
a minha infância
que nunca foi escrita,
me perdoem

essa caneta viajou alguns
oceanos
e aguardou não digo muda

obrigado aos japoneses
obrigado ao ping-pong
agradeço ao piloto
que não matou esta caneta

(esta caneta
 que nunca escreveu
 um poema em japonês)

ao caminhoneiro agradeço
à livraria
que resolveu importar
esta caneta

a eu não passar
fome
e contar minha infância
pobre

– obrigado ao papel
que sustentará tudo
duas vezes

§

à orelha (que sobrou) de Van Gogh
as portas

quartos miúdos
não cabem em livros
não cabem campos
de trigo em telas
folhas expostas
às cores ao nome
se dá tarde

o que escondem
portas é difícil
presenciar sua
utilidade prática

– em formas nulas
suportam emolduradas
nossos contornos

passados
nossas opiniões cortadas
nossa
mesma e conjunta
porosidade
estabelecida

§

a mosca parada
enquanto minha mãe trabalhava
aguçava minha curiosidade
para os detalhes mais sujos
da pia

eu falei muito pouco
quando pequeno sentia
os insetos do quintal
me abandonarem

depois nunca reclamei
nunca reclamaria

sob a meia luz amarela
jantávamos
e eu atentava

no esforço barulhento dos meus pais
de se manterem juntos
dividindo
a mesma sopa.

§

isso não diz nada sobre você
eu não queria te contar
mas a sensibilidade surgiu no século XVII
e eu não existia por lá

por detrás de casa nunca houve um limoeiro sequer
quando muito laranjas
na árvore espinhenta alguns séculos depois

sintonizando o canal
na cidade da minha infância
a tarde parada
na poça

eu atirava uma pedra
e ignorava os filósofos
os poetas os coveiros
e a cirurgia plástica

embora conhecesse a morte
minha infância no chalé amarelo
não diz nada sobre você

§

a tua foto na piscina
enquanto eu lia Saramago
quase me faz lembrar de ti

– mas esse sol
queima 
todo dia

§

há dois séculos
sorrias com a gengiva
vermelha
de bactérias

nunca beijara um homem
nem beijará

não se saberia dizer ao certo –
há uma hora certa –
a cor do céu
os detalhes
reflexivos
daqueles espelhos
(de todos os espelhos de Hong Kong)
da manhã desta
segunda-feira

estamos em Lisboa
há carros passados
fotografávamos

há um amor na esquina
de duas bocas abertas

há dois séculos
o dia
já vem
terminar

§

escrever, escrever, deitar medida
às palavras bobas
deste mundo

bocejar para estrelas
esperar manhãs
comer maçã
de almoço

pensar em você
e no animal mais próximo
esperar que a história do mundo
aconteça sem ironias agudas
esperar
sem pressa 

(Gustavo Rosa nasceu em Agosto de 1992, na cidade Novo Hamburgo – RS. É graduando em 
Letras pela UFRGS. Não tem livros publicados, gosta muito de paçoca e dos sábados.)

Por Bruno Rodrigues