Revelia

Revelia

Acordou de supetão. Aqueles momentos em que se percebe, mesmo em sonho, que já dormiu o suficiente. Resistiu alguns minutos até perceber que entre ele e a cama já havia uma força considerável de repulsão. Levantou-se com dificuldades e olhou para o relógio: o ponteiro se localizava no segundo terço de sua órbita completa. Dor de cabeça latejante. Peso de sono longo, corpo totalmente adaptado à hibernação. Olhou pro lado para ver se lhe restava algum cigarro. Nada. Com o corpo ainda semi-adormecido caminhou até o banheiro, precisava urinar.

Havia sonhado com Matilde, oh, como a amava. Matilde era a razão do seu viver. Nada lhe dava tanto prazer como pensar em seu corpo macio e quente, seus pelos lisos e tímidos, sua presença sísmica mesmo que distraída causando erupções fumegantes no seu estômago. Podia sentir naquele instante algo em seu estômago. Mas estava além de Matilde. Provavelmente eram sintomas da ressaca.

Ao caminho do vaso, passou olhos pela pia. Queixou-se em resmungos o quão estúpido era a projeção do banheiro, onde a higiene pessoal dividia cômodo com o recipiente dos seus dejetos. Ao se olhar no espelho, o reflexo da sua imagem soava fracasso: Cabelos agressivamente deformados; olhos mais perto das bochechas do que da testa, esteticamente desolados esforçando-se para entender os pigmentos de cor; beijos de lençol no rosto como cicatrizes; a parte de cima do traje enrugado provavelmente esquecido de ser despido antes de se jogar na cama. O espelho se mostrando como seu inimigo mais cruel. Aquele que revelava a amargura de sua realidade.

Envergonhou-se. Pensou em como Matilde o rejeitaria se visse seu estado. A insegurança que sentia por Matilde era sintomática. Cada dia que passava, se pegava armando mais estratégias para conquistá-la. Perto de Matilde sentia-se feio, sentia-se menor. Deixou estas inquietações de lado para concentrar-se em recuperar os acontecimentos da noite anterior. Nem todo seu corpo havia despertado, haviam pequenas sinapses nervosas de memória sensível, mas sabem-se lá em que ilhas se escondiam. A dor de cabeça impedia de recorrê-las.

Água na cara. A clarividência do seu estrago só se manifestou menos opaca. Água na cara. Sua situação deixou de ser translúcida. Água na cara. A imagem tornou-se enfim refletida e o rosto um pouco menos deformado. Chega. Água na cara já cumprira sua função. Sua garganta reproduzia um deserto, necessitava se hidratar internamente.

Sentiu-se sozinho. Se Matilde estivesse ali poderia lhe servir uma considerável dose de café bem aromático e cremoso. Com Matilde ao seu lado, sua vida seria mais estável. Poderia preocupar-se em fazê-la feliz ao invés de sair por aí a se consolar nos becos, nas sarjetas, nos litros de cachaça, uivando para lua em calçadas ou em qualquer outro lugar que pudesse estar na noite anterior. A ausência dela começava a lhe causar certo incômodo. Agora, passara a projetar Matilde não mais no plano do desejo, mas sim no da rejeição. Tentou afastá-la momentaneamente da cabeça. Sua consciência, que antes se recusava a trabalhar, aos poucos foi ligando chaves de ignição. A garganta ardida revelou uma pequena pista. Havia gastado em berros. As imagens em seu cérebro permaneciam túrgidas e confusas, mas conseguia ouvir-se berrando com certa fúria. Seu empenho mental causou-lhe uma pequena diminuída de pressão.  

Cambaleante chegou à cozinha, pegou o primeiro copo da pia que, não por acaso, resistia ruínas púrpuras no fundo nas quais, sem mesmo um diploma de arqueologia, diagnosticou que se tratava de vinho pouco recente. Água na goela. Pequena lubrificada interna, porém os lábios ainda permaneciam rachados. Água na goela. Sensação de preenchimento líquido na sua circulação. Água na goela. Pronto, já havia afinação o suficiente em suas cordas vocais para soltar um nervoso suspiro.

A hidratação deu-lhe uma engraxada nas engrenagens. A cada gole que ingeria, sentia a sensação de ar condensado que tenta escapar pelos ouvidos, causando um desconforto agudo, recorrente em ambientes onde há baixa pressão de ar. A sensação provocou-lhe a consciência de que seus ouvidos haviam sido acometidos por um estrépito ensurdecedor. O sabor metálico da água causou uma estranha familiaridade, talvez metaforicamente. Estava com medo dos porvires deste quebra-cabeça.

Despiu-se dos trapos que ainda lhe restavam atirando-os no chão com descuido. Entrou no banho. Último ritual de imersão aquosa. Ao manusear a torneira lisa, fria e metálica a fim de regular a temperatura do chuveiro, sofreu um impetuoso solavanco. A água gelada conduzia ao ralo os últimos fragmentos sensitivos daquela noite insana. O instante de transição para a temida sobriedade, a realidade teletransportada, os pensamentos do cotidiano, os problemas do cotidiano. O Cotidiano. Um redemoinho voraz trazendo à tona o colapso. A garganta arranhada. A solidão. Os berros. A fúria dos berros. A insegurança. O metal liso e frio. O sabor metálico. O estampido. A dor aguda nos ouvidos. Abriu o ralo para pegar tudo aquilo de volta, enfiou a mão lá dentro covardemente. Já era tarde. Desesperadamente, coletou os trajes, estava suando frio. A cabeça febril latejava. Com violência levou os trajes ao rosto e consumou o desastre. Reconhecera o doce perfume de Matilde.

Por Rodrigo Isoppo