Os da minha rua: formação de novos agentes e plateia no teatro

Os da minha rua

Na epígrafe do livro Os da minha rua – estórias, o angolano Ndalu de Almeida, o Ondjaki, escreveu: “não se esqueçam que vocês, as crianças, são as flores da humanidade (palavras do camarada professor ángel)”. São as estórias dessas flores da humanidade, as crianças que conviveram na sua rua, no seu colégio, com os adultos que emprestaram significado à fase de crescimento e transição da infância para a adolescência. Essa infância, marcada por árvores que dão frutos, mas que também morrem, pelas primeiras paixões, as brincadeiras em sala de aula, as broncas dos professores, as distâncias que o tempo faz doer e faz esquecer, como a minha infância foi, e, a sua, provavelmente também. A diferença é o espaço em que cada estória dessas foi vivida, lembrada e, agora, contada. Ondjaki narra os episódios acontecidos em Luanda, durante as décadas de 1980 e 1990.

A contextualização da obra de Ondjaki se faz necessária para poder atingir a ideia pela qual perpassa o trabalho de montagem final da Oficina de Teatro para Adolescentes, promovida pela Cômica Cultural, ministrada pela atriz e diretora Fernanda Moreno, responsável pela adaptação dramatúrgica e direção. A peça cumpriu temporada nesse mês de abril, depois da estreia em dezembro de 2013. Chamo atenção para o primeiro ponto positivo, a escolha das estórias do escritor angolano. Foi satisfatório poder assistir estórias coerentes com a concepção de infância e de maturação pelo qual o elenco e a direção se propuseram levar à cena.

Os da minha rua

No tablado da sala 504 da Usina do Gasômetro estavam adolescentes na faixa etária dos 13 aos 17 anos representando estórias de jovens dessa faixa etária. Ali, não tinham adolescentes imitando adultos. Ali, não tinham adolescentes representando crianças. Não é fácil escolher um texto (interessante e que não seja didático ou explicativo) que consiga exemplificar as mudanças dessas fases da vida. Não é fácil trabalhar com adolescentes e fazer com que eles possam vivenciar, empolgar-se, pelo que estão e vão fazer. Jovens querem ações e respostas imediatas. Não é fácil fazer o público se atrair (emocionar, rir, perceber e rememorar) por uma peça. Essa é a necessidade da formação de novos agentes e, principalmente, de plateia para o teatro.

Os cerca de quarenta minutos não foram contados no tempo cronológico, mas no tempo subjetivo da memória de cada um. O cenário de Vanessa Kaminski contribuiu para evocar os momentos do colégio, do muro, do abacateiro do vizinho, desenhados em giz branco, ressaltando o aspecto lúdico. A trilha sonora, pesquisada e rica em elementos da cultura africana, da musicalidade dos improvisos do Jazz ao batuque, à percussão e às notas docemente melódicas das flautas (a infância e seus sons: divertido das brincadeiras, triste das despedidas), feita por Ismael Goulart, também assistente de direção, e cuja participação especial como “o professor de Geografia” provocou nostalgia, de algum professor de física, matemática ou português de grossos bigodes, óculos fundos, olhar melancólico e voz perturbadora.  

Os da minha rua

O colorido do figurino de Carolina Neckel (sem excessos ou infantilizações) trouxe a alegria, a leveza e a despreocupação, própria, daqueles personagens. E ajudou a contar esse período, talvez o único, em que é possível não querer compreender, e apenas viver. Querer viver, sobretudo, a vontade de descobrir e se encantar pela vida. Despreocupação até o momento em que é preciso crescer. É preciso encarar essa mesma (seria outra?) vida por outra perspectiva, o corpo muda, a voz e as atitudes, o tempo só permite às suas sombras, de pequenas se tornem grandes, depois de suas folhas caírem e preencherem o chão, ainda vazio. Casacos vestidos como símbolo da mudança de estação, da mudança do tempo, das personalidades infantis deixadas na leveza dos vestidos e bermudas, ao compromisso de se fazer, mostrar e estar adultos (por fim, ser).

O grau intimista e confessional da primeira pessoa dos contos de Ondjaki foi aproveitado e ressignificado na utilização dos narradores que se aproximavam do proscênio (e do público, estreitando esse laço de cumplicidade) ao narrar partes das estórias, com comentários sobre o fato. Mérito da adaptação funcional e criativa: a opção por não situar os personagens em um local nominado ou país, evitando “abrasileirar” estórias e termos usados na narrativa do angolano e podendo, assim, enfatizar o seu caráter universal (ainda que as particularidades da região do livro sejam observadas). Crianças são crianças em todo lugar. As transições entre as cenas também foram conduzidas pelos jovens atores, esclarecendo a autonomia de cada estória, contudo, reestabelecendo seus pontos de conexão no todo da peça, visto que esses seis personagens são os seis da minha rua (de Ondjaki, de Fernanda, do elenco).

Para finalizar, ressalto a qualidade do elenco, Alexia Moura , Giordano Spencer, Leticia Candido, Nicolle Souza, Nicolle Pavezi e Rochele Soares. Jovens em idade, responsáveis em cena. Esse é o começo, cuja metáfora da árvore bem cultivada serve aqui, e a maturação do trabalho, o tempo de palco, os ensaios, poderão mostrar contundência e aprimoramento. Não poderia deixar de mencionar a direção cuidadosa de Fernanda Moreno, que soube arranjar, unir todos esses componentes num espetáculo vibrante, singelo, criativo e capaz de me fazer lembrar dos da minha rua (São Lázaro).

 Por Natasha Centenaro