Conchavo em Sepulchrum

conchavo em sepulchrum

Ao completar oito anos de guerra civil na cidade de Conchavo, o jovem Rojo deixou sua ufania alienada de lado e optou por desertar. Fazia-lhe mal e os tempos haviam mudado. A guerra em si tomou tal patamar no cenário político ideológico, que seus personagens nem sabiam mais para que, por que ou por quem lutavam. O Exército transformou seus homens em maquinas de matar. Não se soube, porém, que estas máquinas se desregulavam no momento em que conviviam diariamente com carnificinas e hecatombes, com morais e éticas despedaçadas por tiros de fuzil. Rojo desertou, estava cansado de lutar e não lembrava mais quem era. Passara a sua juventude inteira entre trincheiras, disparos e explosões almejando o momento em que pudesse se livrar de tudo e viver suas paixões. Entretanto, meses depois de sua deserção, a morte lhe surpreendeu com uma onda de tuberculose que infestou toda região. “A guerra traz a doença, no corpo, na mente e na alma. Nada se salva” – dizia seu pai, mais um soldado traumatizado mantido perifericamente em asilo psiquiátrico para não trazer desonra a nação. Na vila onde Rojo morava sobraram poucos viventes que não foram atingidos pela peste ou pelas balas. Consta dizer que o vazio deixado pela guerra deslocou o quadro social para o interior do cemitério de Conchavo. Por falta de recursos humanos preocupados com a administração dos finados, os mesmos foram forçados a assumir o controle da situação. Nomeado Sepulchrum, a necrópole dali em diante consistiu-se num Estado de almas penadas revestidas do que restava de seus corpos, preocupados com a ordem de seus eternos habitués.

Rojo chegou aos portões de Sepulchrum e logo foi atravessado por uma série de burocracias a fim de registrá-lo enquanto citadino daquele lugar. Como a maioria dos migrantes, Rojo não tinha sido velado nem sepultado por parentes, muito menos possuía algum loteamento ou caixão que pudesse se instalar. O velório deixara de ser um hábito em Conchavo, pois, em tempos de guerra, cada um era dono de si, tanto de sua vida quanto de sua morte. A vida era tão suscetível e custosa, que a morte era um elemento a ser evitado a qualquer preço, e quem chegava ao seu encontro era quase tomado enquanto um merecedor desse destino, tendo que responsabilizar-se por suas devidas conseqüências. Rojo e mais tantos outros que tombavam naqueles rubros chãos saíram de uma situação calamitosa de morticínio para entrar numa estatística de miserabilidade.

As condições de Sepulchrum eram lamentáveis. Aos trancos e barrancos erguiam-se câmaras mortuárias sobrepostas mal arquitetadas suscetíveis a desmoronamentos. Eram tão altas que tapavam a luz do sol, tornando o ambiente cada vez mais sombrio e úmido. Na falta de espaço, corpos amontoavam-se em uma mesma câmara ou invadiam outras propriedades. Os jazigos eram os principais alvos de ocupação, denotando uma latente desigualdade social. Cortiços e estruturas subterrâneas improvisadas eram a única saída para alguns mais conformados, para outros a preferência se dava na militância por uma reforma social que distribuísse melhor a propriedade dos loteamentos. O Estado tentava manter a ordem local criando mecanismos de repressão e a desigualdade provocava maiores índices de criminalidade e preconceito. Acidentalmente, a quantidade de terra e propriedade, a qualidade de manutenção e segurança dos túmulos e as alianças de poder que garantiam a aprazibilidade tornaram-se índices de distinção entre os habitantes de Sepulchrum.

Para um defunto, o sol ainda representava nostalgicamente um motivo para alegrar-se. Com seus corpos ociosos e suas sinapses nervosas inativas e inutilizáveis, todas as raras sensações de prazer e dor eram lapsos armazenados de memória da própria alma, desde que, em vida, algo substancialmente marcante tivesse sucedido e causado fraturas no espírito. Rojo sempre fora uma pessoa sensível e apaixonada. Conservava uma chama acesa do passado que o mantinha altivo, sonhos e desejos no seu porvir. O paradoxo de recorrer a sentimentos vitais em uma condição de óbito fazia com que a cada dia a melancolia o invadisse por dentro e seu corpo apodrecesse progressivamente. Era um fenômeno de defesa do organismo (no caso, do funcionamento da própria alma) que se autoconsumia ao entrar em contato com algo mortal e material. Muitos dos que ali habitavam – principalmente os veteranos – instintivamente abandonaram qualquer conexão saudosista com suas vidas passadas, aprendendo a permanecer naquele plano vazio de existência, vagando eternamente pelos gramados do cemitério e manifestando-se apenas quando recebiam alguma prece do lado de lá. Na terra dos mortos, a memória tornara-se uma epidemia. Rojo morrera muito cedo, estava disposto a enfrentá-la.

A cada minuto chegavam novos falecidos de Conchavo. Soldados fuzilados, aristocratas com alto nível de colesterol, imigrantes pesteados, vagabundos com fome, bêbados confusos. O cemitério estava cada vez mais se complexificando, exigindo mais respostas às demandas daquelas almas abandonadas. Havia o mistério da possibilidade de uma alma sem corpo. Quando um corpo era totalmente consumido, nunca mais se ouvia falar do sujeito que o habitava. Era inconcebível esta dissociação, fazendo com que ninguém cogitasse abandonar o seu. Clínicas estéticas surgiram a fim de preservá-los e conservá-los ante sua decomposição. Instituições religiosas se criaram apostando em respostas a estes mistérios e, com elas, dogmas que orientassem a eternidade dos seres. O Estado, a fim de amansar os baderneiros, ameaçava dar fim a alguns corpos. Outras instituições pipocavam apenas para manter as pessoas distraídas e alheias a estas preocupações.

Rojo, disperso e concentrando-se apenas em manter-se afastado da melancolia e do vazio que a morte constantemente ia lhe impregnando, perambulava pelos subúrbios do cemitério em busca de relacionar-se com outros moradores. Normalmente não era acolhido por ninguém, os outros eram inflexíveis em manter qualquer contato. Todo o caos social que potencializava-se na medida que ia chegando mais gente, somado ao sintoma epidêmico provocado pelo resgate de qualquer sentimento de afetividade, tornavam os seres apáticos e solitários. Mas Rojo insistia. No meio de sua teimosia, conheceu Ângela, uma defunta prostituta que morreu assassinada na periferia de Conchavo. Chegou em Sepulchrum como Rojo, sem absolutamente nada. Ela possuía uma fórmula secreta, uma substância alucinógena que estimulava sensações de prazer e gozo no usuário. Uma dose súbita de vida. Vendia em troca de habitação temporária em tumbas e luxuosos mausoléus ou favores diversos que lhe interessavam. Rojo passou a aplicar-se e, em troca, propiciava a Ângela segurança pessoal contra qualquer perturbação que a atividade ilegal poderia causar.

Os dias se passaram e a situação em Sepulchrum tornou-se cada vez mais preocupante. Os rebeldes se manifestavam com mais violência. A segurança do Estado reagia com mais desaparecimento de corpos. As câmaras mortuárias começaram a desabar por falta de estrutura e as instituições passaram a ser culpabilizadas por toda desordem. Defuntos de baixa renda foram escravizados na falta de meios de produção das indústrias de beleza e de construção de fortes e seguros jazigos. A guerra civil de Conchavo se transmutava para Sepulchrum, com imensas manifestações de barbárie. Enquanto isso, a substância de Ângela provocava em Rojo sensações cada vez mais vitais e lascivas. Rojo queria consumir-se por completo, atrofiar seu cadavérico corpo e apostar na redenção unívoca da alma. A droga fazia com que Rojo percebesse que de nada o corpo valia, funcionando ou não. Que a barbárie era fruto do seu uso, que todo aquele colapso social pertencia à matéria. Inebriar-se de todas efemeridades era o alcance de seu nirvana espiritual. A guerra havia impedido a concretude de seus sonhos, a morte retirara sua capacidade de sonhar.  Tentou convencer Ângela de tudo aquilo, que fugisse com ele para outro plano, que deixasse Sepulchrum. Ela sentiu-se ludibriada diante de tanta promessa sem sentido e se recusou. A vida para Ângela foi tomada de desgraças e naquela condição de morte estava consolada. Rojo, viciadamente, consumia a substância, sem se ater em demasia a recusa da prostituta. Sentia a volúpia preenchendo o vazio existencial da eternidade enquanto seu corpo definhava-se gradativamente. Consumia-se, consumia-se, consumia-se…

Por Rodrigo Isoppo