Com quantos booms se faz uma literatura? Nota sobre uma política literária

Gabriel Garcia Marquez

GGM morreu, choveram homenagens. Consolidado há décadas em uma posição confortável, vencedor de um Nobel, expoente da espécie abundante do macho latino-americano de “esquerda”. Ele estava morto fazia tempo. Não carece de chorar hoje. Acompanhei de perto as declarações sobre o colombiano. Nada surpreendente. Muitos dizendo que ele soube representar o tal do “espírito latino-americano”, que o realismo mágico salvou o romance (europeu, claro — o único que importa, segundo variados renomados).

O que sempre me irritou em Macondo é o seu desejo pela modernidade europeia e estadunidense. Seu desejo pela “cultura” e seu olhar que torna a “barbárie” exótica. GGM foi o responsável por uma triste confluência do pensamento da metrópole aqui nas colônias. Não seria tão ruim se não houvéssemos passado décadas estabelecendo uma cisão com o pensamento moderno, em um processo que vai de Felisberto Hernándeze Macedonio Fernández até Borges, Rulfo e Guimarães Rosa. Quando nos encaminhávamos para um entremeio entre a ousadia estética absoluta e a formação de um ideário local (com suas metafísicas e transcendências próprias), via Cortázar, Carlos Fuentes, Clarice Lispector e os barrocos cubanos, demos de cara com o muro do boom. Cien años de soledad nos fez retroceder.

Não estou discutindo qualidade literária. GGM era um autor que domava mecanismos complexos de narrativa e tal. Estou discutindo política literária. O que leva Cien años de soledad ser tão aclamado na Europa e nos Estados Unidos é o fato de que ele não provoca nenhum choque nos leitores e críticos de lá. Felisberto e Borges, por exemplo, são ilógicos ferozes e devoradores da matéria-prima (Proust e os ingleses, respectivamente). O pensamento que os move, apesar de receber influência europeia, retorna deformado, modificado na essência. Borges é muito lido no norte, mas as críticas que recebe são sempre confusas e temerosas. GGM, ao contrário, apenas insere o pensamento externo, sem o processar. Ao nos tornar “mágicos”, ele aceita o jogo secular do exotismo. A diferença entre a “magia” e o ilogismo é bem simples — uma é sonho, o outro é pesadelo (como em Pedro Paramo). O Nobel de GGM, o mesmo que nunca veio para Borges ou Guimarães, é fruto do entendimento de que ele não estava fazendo nada que pudesse ferir a instituição do pensamento europeu.

O primeiro a compreender a armadilha armada foi também um colombiano — Andrés Caicedo (praticamente desconhecido no Brasil, por infelicidade e pela preguiça editorial de sempre). Outros se levantaram mais tarde. O movimento McOndo, encabeçado por Alberto Fuguet e a geração mexicana do crack são exemplos vistosos. Bolaño reconhecia a qualidade textual de GGM, mas também o atacava pelo seu fervor pela falta de ousadia. O boom (aliás, parece que ninguém nunca nota a estranheza que é ter uma palavra de língua inglesa para denominar um movimento feito em países de língua espanhola) sofreu algumas revisões conforme o tempo passou, mas a sua marca continua danosa. O período histórico no qual ele floresceu também foi crítico para a produção literária. A censura nos regimes ditatoriais (a de Cuba, principalmente, acabou por matar toda a grandeza do que começava a se desenvolver na ilha — sem contar os expurgos que muitos autores gays sofreram pela sua opção sexual) sufocou a inventividade e o próprio sistema das ditaduras fez questão de tentar tornar nosso pensamento cada vez menos crítico em relação ao norte. 

Apesar das Allendes pelo caminho, nos recuperamos. A cisão voltou para a regra do dia. De quantos booms precisamos? Absolutamente nenhum.

Por Bruno Rodrigues