Os tchecos estão chegando

Valerie e sua semana

Chute uma árvore que cai um novo cinema na década de 1960, movimentos – organizados ou não – que transformaram radicalmente a cinematografia de vários países. Já escrevi sobre os japoneses aqui, mas agora Porto Alegre tem a oportunidade de conhecer uma das nouvelle vagues mais célebres daqueles tempos de ruptura: a da Tchecoslováquia, que chegou à Sala P. F. Gastal terça-feira, 29 de abril, com doze películas em 35mm.

A Tchecoslováquia dos anos 1960 ficou marcada pela abertura política e cultural que culminou com a Primavera de Praga, em 1968, rapidamente abatida pelos tanques soviéticos naquele mesmo ano. O novo cinema tchecoslovaco surge nesse contexto, entre 1963-64, quando uma série de jovens cineastas oriundos da FAMU, a escola de cinema do país, realiza os primeiros longas-metragens. São desse período Pedro, O Negro (1963), de Milos Forman, cheio de humores jovens e conflitos de geração; Diamantes da Noite (1964), de Jan Nemec, pequeno conto surrealista sobre a fuga de dois jovens judeus nos bosques do país durante a Segunda Guerra; e Coragem de Todo Dia (1964), de Evald Schorm, obra que escancara a crise de um homem que ainda cultiva os valores do socialismo duro dos anos 1950 e se encontra completamente perdido num contexto de transformação. Se a descoberta de Kafka, um tcheco praticamente proibido no país até a década de 1960, orientou a tendência ao absurdo no jovem cinema, é possível encontrar também a referência espontânea de Brecht com a necessidade de pensar o homem em termos históricos.  

Em 1966, o novo cinema tcheco encontra seus filmes mais populares: As Pequenas Margaridas, segundo longa-metragem de Vera Chytilová, uma parábola sobre o vandalismo feminino que ecoou imediatamente em todo mundo; e Trens Estreitamente Vigiados, de Jiri Menzel, vencedor do Oscar de Melhor Estrangeiro, que ri do herói de guerra ao mesmo tempo em que comenta de forma cruel a impotência de um jovem rapaz apaixonado (e, por que não, a de uma nação). Mas 1966 também é o ano do filme maldito do novo cinema tcheco: A Festa e os Convidados, segundo de Nemec, explicitando com um ânimo absurdo (o aceno a Ionesco é assumido) a facilidade com que o homem se submete à opressão. Foi “banido para sempre” pelo então presidente, Antonin Novotny, que ainda cogitou a prisão do cineasta.

As Pequenas Margaridas

A abertura era evidente: nunca tantos filmes inventivos surgiram ao mesmo tempo num país vigiado pela União Soviética (em 1965, só para ilustrar o cenário contracultural do país, o poeta em visita Allen Ginsberg acabou condecorado como o rei do carnaval). Ainda existia, entretanto, a censura. Coragem de Todo Dia e A Festa e os Convidados foram alguns dos premiados com o veto oficial. Em 1968, ano em que Alexander Dubcek assume o comando do país, as coisas mudam e a proposta de um “socialismo com o rosto humano” entra em curso de forma imediata. Já ouvi de um cineasta brasileiro, o saudoso Elyseu Visconti, que estudava na Tchecoslováquia naqueles tempos: era o lugar mais livre do mundo para se viver.

Deve ter sido com essa expectativa de liberdade total que os cineastas resolveram criar os filmes mais radicais entre 1967-1970. Marketa Lazarova (1967), de Frantisek Vlacil, é um épico delirante de quase três horas, baseado no romance de Vladislav Vancura, o mais importante do modernismo local. O Cremador (1969), de Juraj Herz, traz à tona com um humor desconcertante um tema-tabu: o colaboracionismo durante a Segunda Guerra. Enquanto isso, Vera Chytilová intensifica a experimentação visual em Fruto do Paraíso (1969), uma releitura impactante da história de Eva e Adão. Naquele mesmo ano, Jaromil Jires realiza A Piada, adaptação do primeiro romance de Milan Kundera (que no Brasil recebeu o título de A Brincadeira) mostrando sem medo algum a truculência stalinista durante os anos 1950. Todos esses filmes evidenciam uma crença até certo ponto inocente de que era possível realmente fazer tudo.

O tombo foi grande. Depois que a União Soviética invadiu o país, em agosto de 1968, os responsáveis pela produção do cinema local foram afastados e o jovem cinema não conseguiu mais permissão para filmar. Entre mortos e feridos, poucos sobraram. Muitos nunca mais realizaram um longa-metragem, outros precisaram fugir para o exílio (é o caso de Milos Forman, que acabou ganhando o Oscar com Um Estranho no Ninho, em 1975). Considerado por muitos o canto dos cisnes do novo cinema tcheco, Valerie e sua Semana dos Deslumbramentos (1970), adaptação de Jires para um romance surrealista-erótico de Vitezlav Nezval, traz as descobertas e os pavores de uma menina após a primeira menstruação. Por mais que tenha sido uma ruptura interrompida, o cinema tcheco causou estragos nos anos 1960, conseguindo dialogar como nenhum outro a popularidade mundial e uma fome insaciável pela invenção. A chance de ver esses filmes é agora.  

Por Leonardo Bomfim