Coligay: orgulho e preconceito

 

Coligay

Pioneira ao levar a sexualidade para o meio do futebol, a Coligay é uma página do Grêmio que poucos conhecem bem. Uma história que deveria ser motivo de orgulho, mas que segue envolta em preconceito.

Por Antônio Felipe Purcino*

Fotos por Yamini Benites

Um dos principais tabus no meio do futebol é a questão da sexualidade. Nas redes sociais, termos como “viado” e “bicha” são utilizados de forma pejorativa entre os torcedores para se referir aos adversários. O jogador Richarlyson é apontado como homossexual por onde passa. No ano passado, um selinho do atacante Emerson Sheik, do Corinthians, em um amigo, gerou uma revolta intensa de parte dos torcedores do clube. Enquanto na Europa há uma inclinação maior à abertura – em janeiro, o ex-meio-campista da seleção alemã, Thomas Hitzlsperger, assumiu sua homossexualidade –, no Brasil há um silêncio quase absoluto sobre o tema. Mas o que poucos sabem é que, na década de 1970, uma torcida do Rio Grande do Sul ousou colocar a sexualidade de forma transgressora nas arquibancadas.

Domingo, 10 de abril de 1977. No Estádio Olímpico, em Porto Alegre, o Grêmio venceu o Santa Cruz por 2 a 1, em mais uma rodada do Campeonato Gaúcho. Poderia ser uma partida como qualquer outra. Entretanto, algo diferente surgiu naquele dia. E não estava dentro de campo. Vinha das arquibancadas do ainda inconcluso estádio. Um grupo de torcedores chamava a atenção. Não era uma torcida comum. Algo histórico estava nascendo: a torcida Coligay.

Antes de falarmos da Coligay, é preciso recuperar a história de Volmar Santos. Nascido em 1948, na cidade de Passo Fundo, Santos vivia em Porto Alegre em 1977. Era gerente da Boate Coliseu, referência no cenário gay, localizada na Avenida João Pessoa. Gremista “desde sempre”, ele estava incomodado com as torcidas da época. “As torcidas eram muito frias, não incentivavam como deveriam”. Em uma noite na Coliseu, decidiu criar um grupo próprio para torcer. O nome escolhido foi Coligay, remetendo à boate e a seus frequentadores.

A torcida começou com cerca de 40 pessoas. A estreia foi contra o Santa Cruz, já contando com a faixa e as características que tornariam a Coligay tão marcante: a animação dos integrantes, as danças, os cantos e figurinos incentivando o Grêmio o tempo todo. “Tínhamos a melhor charanga, comandada pelo Neri Caveira, da Imperadores do Samba”. A cada partida do clube, a Coligay estava presente “Não perdíamos um jogo. Fomos para o interior, Curitiba, Rio de Janeiro e São Paulo”, conta Volmar. O número de torcedores só crescia, chegando a mais de cem. E não precisava ser gay para fazer parte. O único requisito era ser gremista.

A novidade nas arquibancadas tricolores logo chamou a atenção de todos. Até a mídia do centro do país esteve em Porto Alegre para conferir o grupo, que foi tema de matéria na revista Placar. “Não tinha noção de que a torcida teria uma proporção tão grande”, diz Volmar. Inclusive, a Coligay foi convidada à partida que decidiria o Campeonato Paulista de 1977, entre Corinthians e Ponte Preta, apoiando o time da capital. O convite partiu do presidente do clube paulistano, Vicente Matheus. Dezenas de torcedores foram a São Paulo, onde acompanharam a vitória de 1×0 do Corinthians, pondo fim a um jejum de quase 23 anos sem títulos do clube.

Do lado do Internacional, alguns torcedores aproveitavam a torcida para tentar incomodar gremistas. Já outros desejavam fazer parte da Coligay. “Alguns queriam se entrosar, mas não permiti. Sugeri que criassem a Intergay ou a Inter-Flowers”, afirma Volmar, em referência à Boate Flowers, outro famoso reduto gay da capital gaúcha.

Apesar de surgir em meio a um contexto de ditadura militar, período no qual não se discutia a sexualidade, o criador da torcida garante que o grupo nunca sofreu nada grave nem foi impedido de estar nos jogos. “Nunca fomos agredidos. Sofremos algumas ameaças, mas nada aconteceu”. De parte da direção do clube, havia respeito. “Hélio Dourado [presidente do Grêmio na época] é uma pessoa fora de série. Ele sempre me recebeu e nos tratou bem”, diz Volmar. Já entre os jogadores, alguns não gostavam, outros apoiavam – como Tarciso, ex-ponteiro-direito e atualmente vereador em Porto Alegre: “Setenta por cento [dos jogadores] não gostava. Eu era muito querido pela Coligay. Fazia gol e ia lá vibrar com eles”. Volmar credita o êxito à presença de “pessoas de bem” na torcida. Tudo era feito “com muita responsabilidade”.

O sucesso da Coligay na época incentivou o surgimento de outras torcidas compostas por homossexuais no país. No Rio de Janeiro, torcedores de Flamengo e Botafogo tentaram criar a FlaGay e a FoGay. Tentativas semelhantes ocorreram entre apoiadores do Cruzeiro e Sport. Somente a Coligay resistiu, até 1983. Volmar teve que deixar Porto Alegre para voltar a Passo Fundo a fim de cuidar de sua mãe. Sem seu idealizador, a Coligay não conseguiu mais se estruturar. Após seis anos, a torcida deixava de existir. Volmar ainda reside em Passo Fundo, onde assina uma coluna social no jornal O Nacional.

Desde então, a Coligay se tornou um assunto pouco discutido, sendo hoje lembrado, na maioria das vezes, em piadas feitas por colorados contra gremistas. Para mudar esse quadro e resgatar a história da torcida, será lançado pela Editora Libretos um livro contando essa história: Coligay – Tricolores e de todas as cores, do jornalista Léo Gerchmann. Ao longo de cinco meses, Léo conversou com ex-integrantes da torcida, jogadores, dirigentes e outras fontes para trazer à luz uma história da qual pouco se fala atualmente. “O livro é sobre a Coligay, mas é também sobre diversidade. E a Coligay é uma página muito bonita da história do Grêmio”, diz Léo.

 

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Tarciso: “Eu era muito querido pela Coligay.

             Fazia gol e ia lá vibrar com eles”

 

Se na década de 1970 a torcida era vista de forma respeitosa por parte dos torcedores e também pelo próprio Grêmio, hoje ela faz parte de uma história que poucos têm coragem de relembrar. E que traz à tona o debate sobre a inserção da sexualidade no futebol.

Para Bernardo Amorim, coordenador jurídico da ONG Somos, que discute questões de sexualidade, é preciso que alguém abrace tal causa. “Seja clube, federação ou jogador, alguém tem que fazer algo para que o assunto chegue à torcida”, diz. Ele cita como exemplos a declaração do goleiro Lindegaard, do Manchester United, que declarou que “o futebol precisa de um herói gay”, além da torcida do St. Pauli, da Alemanha, que faz bandeiras contra a homofobia e todas as formas de discriminação.

Amorim considera que o Grêmio deveria reservar um espaço para falar da Coligay. “O reconhecimento é importante, pelo contexto histórico e pela coragem. Não se pode apagar isso”. Ele afirma ainda que a discussão no Rio Grande do Sul somente daria certo se fosse feita tanto pelo Grêmio como pelo Inter. “As coisas aqui não funcionam por um lado só. O ideal seria uma ação conjunta. Ninguém teria como acusar o outro”. A reportagem entrou em contato com o clube para saber qual o posicionamento oficial em relação à Coligay, mas não recebeu resposta até o fechamento.

E se a Coligay ressurgisse hoje, poderia dar certo? Volmar acredita que sim. “Com certeza, se for sério, com responsabilidade e com alguém sério na liderança”. Ele acrescenta que, se morasse em Porto Alegre, “ajudaria a Coligay a se estruturar de novo”. Amorim opina que uma nova Coligay geraria briga entre as torcidas. “Mas se um coletivo de pessoas se junta para ver o jogo, daria mídia e o clube não poderia mandar tirar. A proibição seria pior do que permitir”.

Entre todos, permanece o sentimento de que a Coligay deveria ser reconhecida como merece. Uma torcida pioneira, transgressora, que enfrentou o conservadorismo e deixou sua marca na história. Afinal, acima de suas cores, sexualidades e ideologias, todos são torcedores do Grêmio.

 

*Essa matéria foi vencedora do Concurso de Reportagem realizado pelo Diretório Acadêmico da Comunicação – UFRGS, no final de 2013. Uma das premiações foi a publicação junto ao Jornal Tabaré.