Anarquia e literatura, segunda parte: As complicações dos reais ou Uma práxis como máquina de guerra

Do I contradict myself? Very well, then I contradict myself, I am large, I contain multitudes.

(Walt Whitman)         

 

I          

A fragmentação do real entre os humanos, os não-humanos e os espaços supera forças. O real não é imanente nem transcedente. Digo que o céu é azul. O que digo é real? Neste instante, por exemplo, ao raiar do dia, o céu está acinzentado. Em uma hipotética tribo que ainda não teve o azar de dar de cara com a “civilização”, talvez não haja azul. Porém, se digo que o céu é azul não estou mentindo. É uma percepção cultural aceita dentro da minha comunidade, consensual — a qual, porém, não passa de uma percepção incluída em um rol de infinitas outras contraditórias. De certa forma, construímos o real. De certa forma, o real nos constrói. Sua fragmentação corre pelo amplo paradigma das relações que estabelecemos.

Dizem que o real do sistema do universo literário deveria representar o real do sistema do universo físico. Digo, entretanto, que não há apenas um real físico, mas infinitos, cuja unidade é fragmentada. A tessitura literária delicada e sensível não pode se prender, portanto, a apenas um — essa ocasião anularia a ausência do jogo de forças do real físico e a sua fragmentação. Literatura, desse modo, não é a representação de um sistema (o qual, por sua constituição, é impossível de ser representado), mas a criação de um a parte. Rancière, em um estudo sobre a essência do que é literatura, afirma que não há realidade e ficção, mas apenas aquilo que é verdadeiro e aquilo que é falso. Acordar transmutado em um inseto, por exemplo, é falso para o sistema do universo físico, mas verdadeiro para o sistema do universo literário. Ser indiciado por algo desconhecido e percorrer sem sucesso o inferno burocrático é verdadeiro em ambos universos. É preciso pensar, portanto, nas complexidades dos sistemas e em seus fragmentos. Esquecer o conceito de ficção. Se o real físico é fragmentado, o real literário também é. Literatura é fragmentação, seu corpo silencioso e repleto de buracos negros.

O verdadeiro não se confunde com o real. A verdade está imbuída das limitações. Não posso afirmar, no real físico, que abri a janela e sai voando. Seria falso, dado que há uma limitação que impede que humanos voem a suas próprias custas. O real, porém, não depende de limitações. Uma alucinação, um delírio que me faça sentir, ter a percepção, de que abro a janela e saio voando — o real físico é a ampla ação, uma ontologia; o verdadeiro é a ampla teoria, uma epistemologia.

Assisto o docudrama mais recente de Želimir Žilnik — Pirika on Film. Em uma das cenas finais, Pirika, após muitos anos, reencontra Žilnik. O estranhamento é total. Pirika, que está sendo dirigida por Žilnik, o reencontra e ambos agem como se a situação fosse real. A sombra que qualquer atuação lança sobre os atores desaparece com o choque. O real não é real e o verdadeiro é falso. Práxis como máquina de guerra. Voltando para Kafka: a desaventura de Gregor é real e não é, é verdadeira e é falsa. Os universos se comunicam pelos escritores e pelos leitores. Nós, enquanto agentes autônomos (não-democráticos! A literatura jamais suportaria a imposição da maioria — ela só pode respirar no autonomismo de todos, no consenso entre todas as partes), realizamos as ligações entre os vários fragmentos dos reais, nos contradizemos entre as verdades e as falsidades, somos enormes e contemos multidões.

Por Bruno Rodrigues