A veia artística de Júlio Zanota

Por Marcus Pereira
Foto: Leandro Rodrigues

A amizade com o dramaturgo e escritor Júlio Zanota Vieira, por vezes, me desperta a sensação de ter como amigo a Esfinge de Édipo: há sempre um enigma derradeiro a ser desvendado. Ele nasceu dia 18 de agosto de 1950, em Pelotas. Foi educado numa família religiosa. Cuspiu a hóstia depois do ritual da sua primeira comunhão, o que lhe rendeu a primeira grande surra da vida. Quase morreu quando tinha 18 anos, por conta da tuberculose contraída devido ao uso de drogas injetáveis. Fundou o grupo de teatro Ói Nóis Aqui Traveiz, junto com o ator Paulo Flores, fato que o tornou conhecido como artista em 1978. Escreveu as duas primeiras peças do grupo – A Divina Proporção e A Felicidade não Esperneia Patati Patatá – o que causou a perseguição dos integrantes da trupe pelas autoridades da ditadura militar. Exilou-se no Peru. Tornou-se empresário nos anos 1980 e, na década seguinte, dominou o ramo de vendas de livros usados. Chegou a acumular cerca de 30 mil livros na biblioteca pessoal. Foi presidente da Câmara Riograndense do Livro, sendo o responsável pela modernização da Feira do Livro de Porto Alegre.

Júlio Zanotta

Descobriu que estava com uma infecção viral mortal em 2005, por isso,  despediu-se dos amigos e se retirou ao litoral de Santa Catarina – para morrer. Não morreu, mas durante o tempo que passou isolado, escreveu quase 100 contos – um para cada pessoa que pudesse ter lhe passado a infecção. Daí surgiu o livro de contos O Caralho Voador e o conjunto de peças curtas Para Atores Libertinos e Diretores Licenciosos. Durante todo esse tempo, escreveu dezenas de peças de teatro, além de romances e historietas ainda não publicados. Hoje, dedica-se ao romance Colapso e Destruição de Porto Alegre que, segundo comenta, será a obra que perpetuará sua arte para as gerações futuras. Nesta entrevista, ele fala sobre alguns temas de sua vida e obra.

Tu achas que a arte imita a vida ou a vida imita a arte?

Eu tento fazer com que minha arte viva a vida. Minha arte vive a minha vida. Minha vida vive a minha arte. Não faço essa distinção. Mas isso, para mim, sempre foi espontâneo. A literatura é uma maneira de registrar, de expressar esse delírio que tenho dentro de mim.

A vida é a matéria-prima para a arte?

Sim. Como fazer arte se não for com algo relacionado à vida?

O que tu consideras maior: a arte ou a vida?

A vida.

Mas a vida vai acabar e a arte vai continuar…

Mas, daqui a um milhão de anos, não vai existir mais nada. Nem Monalisa, nem Louvre, nem planeta, nem vida… nem nada. Mas vai haver vida em outros lugares do universo (risadas).

Quantas vezes tu quase morreste?

Várias. Duas vezes foram de overdose. Usei drogas pesadas dos 14 aos 18 anos. Em 1967, estava sozinho em casa, sentado no quarto da empregada, quando tive uma overdose, porque apliquei cinco ampolas de Perventin [famosa nos anos 1960, droga injetável cujo efeito se assemelha ao da cocaína]. O coração disparou e caí para trás. Achei que ia apagar. Depois, em 1968, quando contraí tuberculose por causa do uso de drogas injetáveis. Nessa ocasião, me levaram para o pavilhão de doentes terminais do Hospital Pereira Filho, que era uma ala que só atendia tuberculosos nos fundos do Hospital Santa Casa de Misericórdia. Um dos médicos falou que não tinha o que fazer. Aí, chamaram outro médico, que me fez a cirurgia de extração de um dos pulmões. Quando estava moribundo, vi o tal do túnel branco com a luz no fundo. Lembro de ter pensado: que legal, vou morrer! Mas aí o segundo médico me salvou e cortou o meu barato. Mas, cara, a experiência de quase-morte é gostosa. A sensação de estar diante do umbral da morte, se tu tens um pouco de consciência, é uma sensação de gratidão, de realização. Mais tarde, nos anos 1970, quando estava num bar dum povoado da Colômbia chamado Via del Leiva, havia um soldado bêbado com um Fal [abreviação para Fuzil Automático Leve]. Esse soldado estava dizendo que ia matar todo mundo. Continuei ali, curtindo, achei que ele não ia atirar. De repente, ele se virou para mim. Vi nos olhos dele que ele ia atirar e, aí, me joguei no chão e rolei para fora do bar. Lembro de sentir a saraivada passando atrás de mim. Cara, a sensação é aterradora. Bem mais tarde, já nos anos 2000, descobri que estava com uma doença infecciosa. Quase morri. Me trouxeram para ala de doentes terminais da Santa Casa. Só tinha cancerosos. Meu parceiro era um cara que tinha câncer nos ossos, de modo que os ossos estavam perfurando a pele. Lembro que ali, os enfermeiros tinham um esquema fantástico de remoção dos cadáveres: morria alguém de noite e, de manhã, quando a gente acordava, o corpo não estava mais lá.

Por que tu usavas drogas?

Porque eram proibidas. (risadas). Descobri um cabaré perto do porto de Rio Grande, onde vendiam drogas por atacado. Aí, comecei a ir lá. Comprava um saco cheio com 400, 500 comprimidos de estanamina. A gente dissolvia as drogas com água bidestilada, ficava parecido com um leite. Cheguei a tomar uns picos de 70 comprimidos por dia. Tu não imaginas quanta droga o organismo consegue suportar…

Se tu não tivesses vivido o que viveu, escreverias sobre os mesmos temas?

Não. Porque minha literatura é a literatura dos meus fracassos, é a soma de todos os meus fracassos. É aquilo que deixa de ser fracasso mais adiante, quando se realiza numa série coerente dentro da literatura.

O que é mais importante: o autor ou a obra?

Depende do tratamento da mídia. Às vezes, é o autor. Hoje, temos visto um culto ao autor. É como no cinema: às vezes o ator, a estrela, é mais importante do que o filme. Aí, quando acaba o culto, morre a literatura deles, que de certa maneira sempre esteve morta. Por exemplo: Sartre, que era muito lido aqui no Brasil, era mais importante do que a obra; hoje, é lido muito pouco.

Tu acreditas em inspiração?       

Inspiração é um estado anímico que te condiciona à produção do texto. Hoje, tenho um processo que acontece no despertar. Acordo já anotando coisas, encontrando soluções que no dia anterior não consegui. Desenvolvi esse condicionamento ao longo de décadas. Então, para mim, não existe mais inspiração. Sou capaz de escrever em qualquer lugar, basta que haja silêncio.

O que significa escrever?

O nosso material são as palavras, as frases. Sempre, antes de escrever, procuro me cercar de muitas palavras para ter uma abundância de material a minha volta. Dá para traçar um paralelo entre a literatura e a escultura. Os escultores antigos traziam aqueles imensos blocos de pedra e, às vezes, estava quase tudo pronto quando o escultor se deparava com um veio na pedra que rachava a escultura. O escultor em pedra tinha que escolher com grande precisão o bloco em cima do qual ia trabalhar, sob risco de perder a obra. O nosso bloco são as palavras. À propósito, acho que o português é uma língua limitada. Duas ou três vezes tive que inventar uma palavra, porque não encontrei uma que expressasse o que queria dizer. O inglês é muito mais simplificado, mas tem a vantagem de ser a língua universal.

Quais as tuas influências literárias?

Primeiro, temos que dizer que a grande literatura é venenosa, é corrosiva, te destrói. Pode até te elevar também. Mas, em geral, tu lês e termina decomposto. Mas nem todos têm a sensibilidade para isso. Só que, se tu mergulhas numa obra dessas e sai decomposto, é porque tu és capaz de assimilar aquele veneno que te contaminou. Dito isso, minha primeira influência literária foi Karl May e os livros do Tarzan do [Edgar] Rice Burroughs. Depois, saltei para os grandes romances ingleses, franceses e russos. Esses que me viraram a cabeça. Aí, entra o Charles Dickens, Vitor Hugo, Leon Tolstoi, Alexander Pushkin, Nicolas Gogol… Também li muito os poetas franceses: [Arthur] Rimbaud, [Paul] Verlaine, [Charles-Pierre] Baudelaire…

E brasileiros?

Nunca consegui ler a literatura brasileira. Sempre achei uma literatura menor. Tem exceções, claro. Por exemplo, Os Sertões, do Euclides da Cunha; Meu tio Iauretê, do Guimarães Rosa; os três grandes romances do Machado de Assis; Memórias do Cárcere, do Graciliano Ramos; Zero, do Ignácio de Loyola Brandão; O Caso Morel, do Rubem Fonseca.

Gaúchos?

Simões Lopes Neto é genial. Tudo o que ele escreveu é bom. Inclusive alguns trabalhos dele são precursores do formalismo do Guimarães Rosa. Tem alguns pontos de contato. E o Qorpo Santo, pela loucura, pela demência daqueles textos. O que ele escrevia não tem nome. Não é literatura, é um prontuário do Hospital Psiquiátrico São Pedro (risadas).

Tu lês os escritores da nova geração, como Daniel Galera, para pegar um exemplo local?

J.Z: Primeiramente, não sei se existe algum escritor gaúcho atualmente. Pelo menos, não existe nenhum escritor de ponta, capaz de abalar a estrutura mental das pessoas.  Não aguentei ler o Galera. Tentei. Mas não é o tipo de literatura que eu gosto. Nem acho que seja um bom escritor. Para mim, aquilo ali está muito perto da tentativa de escrever um best-seller. Para mim, não acrescenta em nada a literatura dele. Acho que, aqui no Rio Grande do Sul, os escritores e aspirantes estão preocupados com um certo arribismo social.

Tu tens algum personagem que reaparece na tua obra? Algum personagem que tu não consegue ter muito controle?

Tenho alguns que estão sempre ali. Principalmente as personagens femininas, que são minhas melhores criações, até porque costumam nascer de paixões reais. Sou apaixonado pelas mulheres dos meus textos. E eu tenho um personagem, um pirado, que aparece em diversas histórias com diversos nomes. É um delirante que se dá mal sempre. Esse personagem é algo que está dentro de mim. Nasci com ele. Ele poderia ter se expressado de outra forma. Através da música, por exemplo. Poderia ter sido um grande assaltante de bancos. Poderia ter sido um aventureiro. Poderia ter sido um militar genocida. Poderia ter sido um esquartejador de pessoas. O que ele nunca poderia ter sido é um homem de sucesso social.

Tu és um homem de sucesso social?

Não. Mas, duma certa maneira, o meu fracasso é o sucesso dos fracassados. O que é o sucesso dos fracassados? Quando sobrevivem, porque é difícil sobreviverem, é deixar o seu recado. E eu estou a um passo de deixar o meu recado. Acredito que se eu conseguir publicar o livro que estou trabalhando agora – Colapso e Destruição de Porto Alegre – e espalhar alguns exemplares numas cinco bibliotecas, acho que terei deixado o meu recado.

A literatura vai te eternizar?

Não sei. Mas gostaria de morrer com a sensação de que vai acontecer. Depois que morrer, tanto faz, porque não vou estar mais aqui. O que é ser eternizado? É ter uma rua batizada com meu nome? É ser citado por algum professor no colégio? (silêncio) A literatura que se foda, a sociedade que se foda, a arte que se foda. Vou chutar o balde. Estou indo morar no mato. Vou conversar com os caipiras. Os caipiras têm um humor que morreu na relação urbana. Ninguém mais faz humor nesta onda de politicamente correto. Esses dias, fiz uma piadinha no caixa de supermercado e quase apanhei da mulher que vinha atrás de mim. Quando estou numa bodega do interior e faço uma piadinha, o caipira responde. Essa picardia do dia a dia é muito interessante. As pessoas estão escravizadas pelas algemas virtuais. Nunca houve uma escravidão como a do século XXI. É curioso porque hoje as multidões se identificam com a imagem do zumbi. Por quê? Porque elas estão zumbificadas. É só ver essa marcha dos zumbis que acontece em Porto Alegre. As pessoas estão escravizadas. Talvez a escravidão das gerações futuras seja ainda pior, até porque não seremos mais humanos, seremos todos ciborgues (risadas). E quem tiver mais grana para implantar o melhor chip biológico vai viver melhor… até que tudo termine.

Tu te consideras louco?

Com certeza.

Os loucos têm consciência da própria loucura?

Consciência e orgulho. Não sou mais inteligente do que os outros, sou mais louco. Tenho uma maneira de entender e de agir frente ao mundo que, quando me dou conta, a cagada já está feita. E isso não é niilismo. Isso é como vive o nosso mundo latino-americano: no limiar do lixão. Vivemos pirateando, contrabandeando, parodiando… A verdadeira pujança não está na Europa, que se tornou um museu asséptico, está aqui nesse lodo da América Latina. E acho que existem muitas pessoas como eu. Acho que ninguém é normal. A princípio, somos todos animais. Só que estamos em camisas de força, na coleira, tendo que desempenhar funções, papéis sociais, etc. No fundo, somos todos loucos.

Fala sobre as mulheres que foram grandes amores na tua vida.

Tu queres me complicar? Recém casei de novo (risadas). Bom, tive uma grande paixão na minha vida, que nunca realizei. Foi por uma garota ainda na infância. Brincávamos juntos, éramos apaixonados e sabíamos disso. Ela tinha oito anos e eu 12. A gente gostava de brincar de cabana, de esconde-esconde… A gente se esfregava, era muito intenso. Aí a vida nos separou. Mais tarde, a gente teve oportunidade de se encontrar. Mas, nessas ocasiões, eu estava comprometido com outras. Até alguns anos atrás, nos meus momentos de extrema frustração, escrevia algumas cartas para ela. Enfim, desencontros… Há algum tempo já perdi as esperanças de encontrar ela.

Agora fala sobre algumas pessoas que tu odiaste ao longo da vida.

Ah, o ódio é uma sensação muito gostosa, principalmente quando tu tens a oportunidade de quebrar uma cadeira nas costas da pessoa odiada. Já fui para cima, possesso, de muita gente. Cara, é tão gostoso…

Já foste para cima do Paulo Flores, um dos teus maiores parceiros no teatro?

Nunca. Mas, pelos anos 1970, lá na Terreira da Tribo, cheguei a levantar um banco que pretendia quebrar na cabeça dele. Foi durante uma discussão extrema que ocasionou o racha no Ói Nóis Aqui Traveiz. Mas ele me parou no olhar. Ele tem uma força psíquica muito poderosa. Aí eu respeitei. Depois dessa briga, ficamos anos sem nos falarmos. No ano passado, quando aconteceu a leitura dum dos meus textos para teatro [O Apocalipse Segundo Santo Ernesto de la Higuera], o organizador do evento me perguntou: “quem tu achas que poderia fazer a leitura?” Eu respondi: “o Ói Nóis Aqui Traveiz.” Aí eu fiz questão de ligar para o Paulo. Liguei. No encontramos lá na Terreira da Tribo e, quando nos enxergamos, foi muito estranho, mas percebemos que éramos amigos de novo. Tínhamos sido muito amigos antes da briga. E, nessa ocasião, voltamos à época em que fomos parceiros, quando desafiamos tudo por um ideal, junto com outras pessoas e tal… Foi interessante. Mas, se possível, a gente ainda finge que não se vê (risadas).

Quem é o Paulo Flores para ti?

É o Stalin de Bagé que faz teatro aqui no Rio Grande do Sul. E terminou fazendo um grande trabalho. Ele tem uma forte convicção sobre o que deve ser feito em teatro. Algo que, creio eu, nunca mudou. Alguns podem chamar isso de dogma. Mas, na minha opinião, ele realizou muito bem o seu trabalho.

Hoje, quem é o grande dramaturgo do Brasil?

Diones Camargo. Acho que ele precisa amadurecer seus textos. Mas tem um imenso potencial. Acho até que nem deveria estar mais aqui [em Porto Alegre].   

Estamos desempenhando uma performance agora, durante esta entrevista?

Acho que, diante do gravador, estamos mais preocupados com o que está sendo registrado. Tu estás preocupado como é que tu vais redigir a tua matéria. E eu estou preocupado em como ela vai ficar, em como vou recebê-la. Sei que tu és um cara crítico, por isso estou com um pé atrás, porque não sei se não vou acabar levando um malho (gargalhadas).