MMA e a violência

Em um artigo na Carta Capital Nirlando Beirão defende que o Boxe inspira artistas e intelectuais e o MMA promove a brutalidade. O MMA, ou seja, mistura de artes marciais (entre elas, é claro, está o boxe), explodiu em popularidade no Brasil nos últimos cinco anos e aproveitou um espaço que o boxe principalmente deixou dos anos 1990 em que Tyson e depois Popó eram figuras certas nas coberturas esportivas no Brasil. Os ídolos do boxe que fizeram a história esportiva do século XX pouco a pouco foram sumindo ou sendo menos explorados, principalmente no cenário midiático brasileiro. Os irmãos ucranianos Klitschko, o norte americano Mayweather e o filipino Pacquiao, apesar dos altos salários e eventuais badalações, não chegam ao pés de Tyson, Jofre, Ali e Marciano como estrelas. E nos últimos tempos não podem ser comparados a Anderson Silva, Cigano, Jon Jones, Wanderlei Silva e até Chael Sonnen.

A nobre arte, ultrapassada na máquina capitalista do esporte pelo MMA, virou nostalgia e como toda boa nostalgia carrega um ar de superioridade frente ao novo fenômeno das lutas. A principal empresa de MMA atualmente, o UFC, inventado pelos brasileiros da família Gracie para popularizar o jiu jitsu, invadiu o espaço esportivo, midiático e também cultural. Com o fenômeno do UFC o MMA  preencheu um importante espaço cultural presente em quase todas as civilizações: a luta como forma de entretenimento coletivo e  até educativo.

A violência dos golpes (cotovelos, chutes rodados e o sangue) contrastam com uma inequívoca diferença do MMA para o boxe: o nocaute e a finalização. No MMA, nas mais diversas regras das empresas de MMA  como UFC, Bellator, o extinto Pride e WSOF, quando o lutador ‘apaga’ seja por algum golpe de soco, chute ou o que for, a luta se encerra. Já no boxe o atleta tem 10 segundos para se recuperar. Isso acarreta, logicamente, em um maior desgaste dos lutadores do boxe que somam ainda muito mais lutas em média que lutadores de MMA, que passam (lógico em eventos mais organizados) por sanções e suspensões médicas a cada luta.

É uma falácia o que se propõem da brutalidade do MMA como algo que extrapola os outros esportes. É violento como todos. Deixa menos sequela que o Boxe, pelas repetidas pancadas na cabeça, e talvez até que o futebol com as lesões comuns nos joelhos e articulações.

Quanto ao argumento dos escritores e artistas que se inspiraram no boxe como uma vantagem do esporte parece justamente um argumento elitista que remete ao estereotipo do boxe como aquele esporte em que os magnatas e ricos assistem, exploram e apostam. Os filmes e livros sobre boxe, no qual se destaca por exemplo Touro Indomável, tratam justamente do caráter humano do lutador como um profissional preso a uma estrutura de exploração que todos os esportes estão subordinados. Muito em breve, creio, cada vez mais serão feito livros e filmes sobre a história de lutadores de MMA também. E é muito bom quando a dita cultura clássica se alimenta da cultura do esporte.

O MMA é praticado em academias por todo o Brasil por proletários e trabalhadores que buscam um esporte e um trabalho, não uma ferramenta para a brutalidade. Falar isso é uma hipocrisia e uma maneira simples de desvirtuar o modo cada vez mais violento, machista, homofóbico e racista que são criados os filhos, principalmente nas classes médias e altas.

No Brasil há uma tentativa do deputado do PT de São Paulo, José Mentor, de impedir a transmissão de lutas de MMA em canais abertos mesmo nos horários que passam atualmente (nas madrugadas). Espero que também se pense em tirar filmes que retratam violência e velocidade de carros, ou mesmo a formula 1, ou filmes e novelas que retratam a sexualidade sempre de forma machista…

O preconceito com o MMA como um propulsor da violência diária de nossas cidades deve ser combatido. As lutas marciais, inclusive o boxe, são ferramentas que inúmeras civilizações adotaram (e aqui se fala tanto no ocidente como no oriente) como forma de entretenimento e educação. Não são evidentemente a solução de nossos problemas, mas nunca devem ser encaradas como a razão da brutalidade humana que é sustentada cotidiana pelos nossos hábitos de consumo e o estilo de vida cada vez mais competitivo.

foto: Júlia Scwharz

Por Chico Guazzelli