A Copa

Aparentemente vai ter copa. E no caso, vai ter futebol. A cada quatro anos o mundo para e assiste as inovações táticas, os novos grandes jogadores e principalmente o novo campeão do mundo. Neste ano todos os campeões do mundo estarão presentes. Algumas seleções emergentes surgem com força, e claro, estão os africanos e asiáticos que a cada copa surpreendem, chegam, mas caem para os grandes times. Esta coluna se dedica ao que de novo surge na Copa do Mundo de 2014 e o que este colunista aposta (as vezes até literalmente).

Para começar vamos direto ao ponto: Brasil. A seleção brasileira tem uma geração brilhante. Sim, para espanto do leitor, brilhante defensivamente. Nunca tantos zagueiros de qualidade ficaram de fora como Rever, Dedé e Miranda. Vários goleiros no Brasil em grande fase ficaram de fora, como Grohe e Fábio, e até Cavalieri. Marcelo, para muitos, é o melhor lateral esquerdo do mundo, Daniel Alves e Maicon também são excelentes. Os centromédios e volantes são muito bons e titulares dos maiores times do mundo e até os que ficaram de fora como Lucas Leiva e Sandro são grandes jogadores. Mas do meio para frente, quem diria, é que estão os problemas do Brasil. Duas gerações brasileiras se perderam do ano de 2014 no que se refere a questão ofensiva.

A primeira, a dos anos 2000 de Kaká (32), Ronaldinho (34), Adriano (32), Diego (29) e Robinho (30), não chegou viva a 2014. Na contramão dos tempos, em que os jogadores cada vez mais se mantém ativos muito além dos 35, a geração brasileira que nasceu após a ultima conquista mundial não resistiu em bom nível para liderar a seleção brasileira. Deixou tudo para a geração 2010 que desde a copa passada tinha em seus lideres Neymar e Ganso e contava com potenciais emergentes como Lucas, Pato e Damião. De todos eles, Neymar foi o único que sustentou as expectativas e carrega as esperanças do ataque com Oscar, que com uma carreira meteórica desde o estrelato no Inter ao Chelsea ainda não conseguiu firmar-se como armador da seleção brasileira, lembrando um pouco o caso de Raí em 1994. Mas Oscar, ao contrário de Raí, teve contestações antes da Copa e pode nos jogos importantes ultrapassar a desconfiança, assim como fez brilhantemente na estreia frente a Croácia. Os outros jogadores, bons diga-se de passagem, carregam o fardo de não serem craques no país de Rivaldo, Ronaldos, Romário e Kaká. Mas são confiáveis! Hulk, Fred e até os reservas Willian, Bernard e Jô demonstraram na Copa das Confederações e nos seus clubes que apesar de não brilharem correspondem taticamente. Mas o maior trunfo do Brasil é Felipão. O gaúcho conseguiu formar um time dentro e fora (aparentemente) de campo, aproveitando os acertos e as falhas de seu antecessor Mano Menezes. A família Scolari é confiável e mesmo que não ganhe o troféu passa a confiança de que vai encarar com seriedade a competição. Mas talvez falte o talento ofensivo, e vai ter que superar um grande adversário: o nervosismo.

As outras grandes favoritas podem ser definidas como Argentina, Alemanha e Espanha. A Argentina de Messi é o contraste do Brasil: espetacular ofensivamente e questionada defensivamente. Messi é o maior jogador desde Maradona. É genial como Ronaldinho e Ronaldo e regular como Zidane e Rivaldo. A seriedade e objetividade do argentino, no entanto, não apareceram nas Copas do Mundo em que disputou. Ao seu lado surgem grandes talentos em grande fase como Di Maria, Aguero, Higuain e Lavezzi. A determinação tática dos argentinos é sempre elogiável e dessa vez não será diferente, quer seja as linhas que se adote. Resiste na seleção Argentina o fantasma das ultimas campanhas e a expectativa sempre perigosa de que Messi ganhe a Copa como Pelé, Garrincha e Maradona.

A Alemanha ao meu ver apresenta ao mundo uma geração brilhante. O excepcional meio campista Schweinsteiger, o laterak Lahm e os atacantes Klose e Podowski ainda brilham acompanhados de Goetz, Ozil, Neuer e Muller no que parece ser o exemplo perfeito de associação de gerações. Mas a Alemanha não vem tão confiante, surpreendentemente para mim, talvez pela desconfiança de sempre cair nas ultimas competições em semifinais. Mas defendo que tática e tecnicamente é a seleção mais definida e confiável da Copa do Mundo.

A atual campeã do Mundo tentará dar o ultimo gás, ao que parece, de uma geração das mais brilhantes da história do Futebol. Iniesta, Xavi, Fabregas, Villa, Busquet, Piqué e Cassilas defenderão o título no Brasil com a desconfiança de que talvez o auge tenha passado. Mas quem sabe em uma competição de um mês o toque de bola, a preciosidade no passe e a movimentação paciente e eficiente da Espanha não continue chocando o mundo?

Por fim há uma eterna favorita não dita. Uma eterna favorita ao mesmo tempo a conquista e ao fiasco. Sim, a minha queridíssima Itália, a terra que meus antepassados fugiram, não joga futebol joga outro esporte que não deixa de ser tão admirável quanto e conquista títulos. O estigma é de que quando não se espera nada a Itália vence. Talvez uma das gerações mais brilhantes da história da bota, por exemplo, dos anos 1990, de Baggio e Baresi, tropeçaram nos pênaltis em duas Copas do Mundo (três se contar a de 98, ultima do craque budista famoso por desperdiçar um pênalti em 1994 e não pelos dois convertidos em 1990 e 1998). Em contrapartida em 2006 ao comando das atuações fabulosas de Cannavaro, Pirlo e Buffon conquistou o mundo contra todas as possibilidades. Desta vez a Itália vem desacreditada de novo. A meu ver, um equivoco completo se considerar as campanhas da Azurra na Eurocopa de 2012 que perdeu na final para a Espanha após ultrapassar a Alemanha e na Copa das Confederações quando perdeu para a Espanha somente nas penalidades (de novo!). E desta vez a Itália tem alem dos defensores um atacante que temem os defensores: Mário Balotelli. O trabalho do treinador Cesare Prandelli é outro fator de destaque da Itália visto que até seu contrato já foi renovado até 2016. A Itália, como sempre e como nunca, também é favorita.

Chego agora ao que eu considero um segundo escalão, mas que não seriam surpresas se conquistarem a Taça: Inglaterra, França, Holanda, Portugal e Uruguai.

Começando pelos queridinhos dos gaúchos: os uruguaios de Luisito, Forlán e Cavani. Dois dos melhores atacantes em atividade do mundo e Forlán, o craque inequívoco da ultima Copa. O Uruguai tem ainda um goleiro com muita estrela (Muslera), e bons jogadores em todos os setores. Godín, Álvaro e Maxi Pereira, Arévalo, Gargano e Lodeiro, para citar alguns. Bons jogadores mas que vão depender dos primeiros em sua campanha. Que será tremendamente difícil com a presença de outros dois campeões do mundo no grupo (Itália e Inglaterra). Se classificar o Uruguai sairá fortalecido com um grupo de jogadores que já demonstrou ter muita fibra, sorte e trabalho coletivo. Tem o mesmo treinador que tem colecionado boas campanhas em torneios (nas eliminatórias que são pontos corridas o Uruguai não foi bem, tendo se classificado na repescagem). O Uruguai é, portanto, ainda com uma boa seleção a expectativa dos gaúchos que não toleram a amarelinha, a CBF e a Copa do Mundo no Brasil. Mas ainda é uma provável coadjuvante.

Nenhuma das quatro europeias desse segundo grupo que analiso vem ao Brasil com a força que tiveram nas ultimas Copas. A frança não tem mais Zidane e nem mesmo o atual craque Ribery, cortado. A Holanda de Sneijder, Robben e Van Persie parece também ter atingido o auge na Copa de 2010. A Inglaterra de Lampard e Gerrard parece a mesma que vem desapontando Copa após Copa. E Portugal depende da condição física de Cristiano Ronaldo. Boas seleções. Acredito mais na França apesar do desfalque de última hora de Frank Rubery e de Portugal, principalmente se ajustar o time para a velocidade e eficiência de Cristiano. Em todo caso não me parecem seleções tão aptas coo as primeiras para conquistar o título, talvez com exceção para o Uruguai se conseguir demonstrar a força ofensiva que promete e contar com os tropeços das seleções favoritas.

Algumas seleções são badaladas nesta Copa do Mundo. Bélgica e Chile, principalmente. Os europeus vem com uma geração brilhante (para parâmetros Belgas) e a expectativa é que a cabeça de chave do grupo H vá mais longe que a boa geração comandada por Scifo, elo lendário goleiro Preudhome e pelo atual treinado Marc Wilmots, que chegou a  disputar seis copas seguidas e foi quarta em 1986. A estrela do Chelsea Hazard pode comandar a seleção para uma boa campanha aquém sabe até as semifinais. O Chile de Vargas, Vidal, Aranguiz, Sanchez e Valdívia tem uma geração melhor que a de Zamorano e Salas e que fez história na Copa de 1998. Arrisco a dizer que mesmo num grupo equilibrado com Holanda e Espanha deve passar de fase e dependendo das classificações enfrentar o Brasil numas oitavas de final pela terceira vez desde 1998. A boa seleção também tem a figura do treinador Jorge Sampaoli que já fez história na Univerisdad de Chile e promete no mínimo repetir o feito de Bielsa em 2010.

De resto, temos os africanos: com Eto’o e Drogba quatro anos mais velhos, mas ainda estrelas guiando Camarões e Costa do Marfim, mas aquém da expectativa das ultimas copas. Gana talvez seja ainda a melhor seleção do ponto de vista de afirmação e equilíbrio. Mas não acredito nas surpresas tanto das seleções africanas quanto das asiáticas nessa Copa que se inicia. Deixo um asterisco ainda para a Colômbia que sempre apresenta excelentes jogadores (apesar da falta de Falcao Garcia) que me deixa com uma pulga atrás da orelha.

Por Chico Guazzelli