EUA x Cuba: as pressões pelo fim do embargo

Por: Luís Henrique Vieira, jornalista

Quase 55 anos após a imposição do embargo dos Estados Unidos a Cuba, o assunto ainda é tema de muita controvérsia. No entanto, já existem indicações para uma flexibilização ou mesmo sua completa revisão. À época em que foi implantado o embargo, em 19 outubro de 1960, a intenção era retaliar o governo cubano por conta da estatização de empresas estadunidenses e pelo confisco de bens sem recompensas. A primeira restrição foi uma proibição de qualquer exportação dos Estados Unidos para Cuba, com exceção de medicamentos e alimentos. Dois anos mais tarde, em virtude do alinhamento de Cuba à União Soviética, o embargo foi estendido para todos os produtos e ainda proibiu qualquer tipo de assistência ao país caribenho.

Em 1992, o embargo foi reafirmado com a justificativa de que o governo Castro não havia preparado “concessões” para a democracia. O texto da lei Cuban Democracy Act inclui sanções como a proibição de empresas americanas de operarem em Cuba, a limitação de viagens de cidadãos estadunidenses à ilha e a remessa de cubanos vivendo nos Estados Unidos para familares em Cuba.

Já em 2000, foi implantada a legislação atual, que voltou a autorizar a exportação de medicamentos e produtos agrícolas para a ilha caribenha. Além disso, as permissões de viagens ao país foram flexibilizadas.

A grande novidade é que, há pouco mais de um mês, vários líderes empresariais dos Estados Unidos estiveram reunidos com Raúl Castro – incluindo a Câmara de Comércio – para discutir oportunidades de negócios. A Câmara de Comércio dos EUA e diversas grandes empresas fazem lobby abertamente pelo fim das restrições. Uma dessas empresas é a Cargil, a maior comercializadora de grãos do mundo. Ela foi beneficiada pela lei de 2000 e exporta para a ilha desde então, mas outros negócios estão em vista.

“Essas empresas não podem comprar produtos de Cuba nem investir lá. Companhias agrícolas, como a Cargill, poderiam comprar bananas ou laranjas, em vez de trazer de tão longe como o Equador”, explicou o professor emérito da Universidade do Novo México, Nelson Valdes, que é pesquisador das relações entre os dois países.

Dezenas de think tanks, entidades voltadas à pesquisa para políticas públicas nos Estados Unidos, como o Cato Institute, o American Enterprise Institute, entre outros, defendem o fim do embargo por acreditarem que ele não faria mais sentido nos dias de hoje. Um dos principais argumentos seria de que os principais objetivos não teriam sido alcançados.

Além disso, Barack Obama é mais um que se opõe ao embargo. Mas o grande entrave seria mesmo o Congresso e o eleitorado cubano residente nos Estados Unidos. A maioria desse eleitorado vive no estado da Flórida, considerado um campo de batalha nas eleições presidenciais por não ter a hegemonia de nenhum partido. Tal eleitorado costuma eleger pelo menos um senador (atualmente Marco Rubio) e alguns deputados, que geralmente fazem parte do Comitê de Relações Exteriores do Congresso. Ademais, o estado de Nova Jersey tem também um senador de origem cubana que faz parte do comitê.

Geralmente, a posição política dos imigrantes ou descendentes pede sanções duras ao governo cubano. E boa parte deles entende que uma flexibilização dessas políticas poderia fortalecer as empresas estatais de Cuba e o próprio regime. Esta é a opinião de Humberto Fontova, um dos escritores cubanos mais influentes nos EUA.

“O comércio de bens entre Cuba e Estados Unidos é bem maior agora do que em 1959, quando havia um aliado no poder. Se não funcionou o embargo, é preciso lembrar que a URSS mandou o equivalente a 10 planos Marshall para Cuba. Gente poderosa e próxima aos Castro como o [financista] George Soros é que promove o fim do embargo”, disse Fontova.

Ainda assim, nesse aspecto também é possível ver ventos de mudança. Uma pesquisa realizada pela Universidade Internacional da Flórida revelou que 62% dos cubanos entre 18 e 29 anos residentes nos Estados Unidos se opõem ao embargo. Entre os imigrantes que vieram depois de 1995, cerca de 58% seriam contra as restrições. “Há uma clara mudança demográfica. Quem chegou mais recentemente de Cuba quer uma relação melhor entre os dois países”, diz o professor da universidade que conduziu o estudo, Guillermo Grenier, em entrevista à agência de notícias Efe. Apenas entre moradores do condado de Miami-Dade, onde vivem 800 mil cubanos de todas as idades, a pesquisa revelou que pouco mais da metade já é a favor do comércio com a ilha.

O fim do embargo também dependerá das posições de diferentes órgãos do governo dos Estados Unidos. Segundo Valdes, a maioria já coopera com congêneres cubanos. “O Departamento de Defesa tem uma boa relação com o serviço militar cubano. As instituições governamentais de pesquisa de saúde e o Departamento de Agricultura também tem uma relação construtiva. A CIA também não tem problemas. No entanto, a resistência está no Departamento de Estado, no Conselho de Segurança Nacional e no Escritório de Ativos Externos”, analisa o professor da Universidade do Novo México.

Para o professor, um entrave forte é que ainda há a mentalidade de que Cuba é um mau exemplo para a América Latina e, mesmo com poucos recursos, poderia ser independente dos EUA. Uma curiosidade é que, talvez, com a construção do Porto de Mariel financiada pelo BNDES (estatal do governo brasileiro), esse tipo de diálogo tenha avançado, visto que Cuba é um ponto estratégico para o comércio regional – embora o fator não possa ser apontado como causa principal.